Hoje a Noite Não tem Luar
4 IV – Ela passou do meu lado.
Sai sozinha e andei até onde a senhora disse que encontraria a tal praia. Ao chegar, sentei na areia, na parte mais calma, e tentei suprimir qualquer memória que me lembrasse daquela noite. Eu não podia me deixar abalar novamente, já foi difícil o bastante eu voltar à sanidade depois de tudo que tive que aguentar sozinha. A minha mãe, a família da amante, as explicações que eu não sabia dar, a remoção dos pertences do meu pai da casa e o seu enterro. O enterro de um homem que achei que conhecia.
Fiquei lá por um tempo observando aquela água cristalina e as pessoas que provavelmente aproveitavam as férias de verão na cidade. Vi algumas crianças brincando, algumas pessoas mergulhando e andando de caiaque e muitas pessoas tirando foto. Por fim decidi me sentar em um dos restaurantes para ver se eu conseguiria comer algo decente que não envolvesse queijo. O som das barracas agitava o ambiente e o entusiasmo das pessoas começava a me afetar, de um jeito bom. Dado momento, me peguei sorrindo.
∞
Havíamos chegado à Búzios ainda na manhã de sábado, prestes a dar meio dia. Um recorde, atrevo-me a dizer. Após deixarmos as coisas na pousada, resolvemos, quer dizer, Clara resolveu que teríamos que ir para uma praia muito famosa ali perto, para começarmos a viagem ‘com o pé direito’. Sem hesitar, recusei e deitei na cama.
— Só me tragam algo para comer, a viagem foi longa.
— Ah não, senhor Cauã, você não acha mesmo que vai passar o fim de semana deitado aqui, né? – Clara pressionou o dedo no meu peito, provavelmente com a intenção de furar meu coração.
— É... Não?
— Ótimo, então pegue essas suas duas perninhas e vamos! – ela virou as costas e saiu gritando para mim. – A vida é muito curta para desperdiçá-la.
Quando me dei conta, estava sentado em um dos restaurantes perto da tal praia com Gustavo pedindo o nosso almoço. Sim, eu tinha muito medo da Clara.
∞
Enquanto esperávamos o casal que estava pagando a conta, nós três estávamos próximos a um tipo de portal que dava acesso a praia. Erick, que estava apoiado em um dos pilares, procurava o que ele dizia como ‘um alvo’.
— Você é um babaca.
— Você também é irmãzinha, mas a diferença é que eu sei disso.
— Clara, deixa ele. Quem sabe assim ele encontra o amor da vida dele? – ela bufou e voltou a olhar para o telefone
— Cara, eu acho que você pode ter razão. Aquela menina ali está me olhando há um maior tempão!
Clara, que parecia incrédula com a informação, teve prazer em tirar suas próprias conclusões.
— Bem, Romeu, detesto te dizer isso, mas acho que ela está olhando para o Cauã.
— O quê? – olhei para ela – Você está louca!
Olhei para ela e, bem, era linda. Estava sentada em uma das mesas do mesmo restaurante que estávamos, lendo uma das revistas estavam disponíveis no balcão e usava um tipo de bandana vermelha que prendia os cabelos pretos para trás, impedindo que eles caíssem por cima do rosto enquanto estivesse lendo. Ela estava sozinha.
— Vai chegar nela? – Clara quase sussurrou por cima do telefone
— Não... Galera, vocês tão loucos! Aliás, cadê o casal feliz? Não deve demorar tanto pra pagar uma conta!
— Cara, é muito fácil! Chega chegando, saca? Ela tá muito na tua, aí quando ela te olhar você engrossa a voz e fala ‘oi, amor’. Ela vai gamar na tua!
— É, claro, faça isso... – Clara guardou o telefone na bolsa – Se você quiser assustá-la! Só pergunte o nome dela, de onde ela é etc. As coisas normais, sabe?
Por causa da discussão, não percebemos que ela havia levantado e caminhava na nossa direção, quer dizer, na minha, já que ambos tinham me deixado ali sozinho.
— Vai na fé, garotão – e os dois andaram em direção ao casal que finalmente tinha pagado a conta.
Ela passou do meu lado.
— Oi, amor – Eu lhe falei.
Bem, não era o que eu queria dizer, porém, felizmente, ela parou de descer as escadas e olhou para mim. Sim, ela era realmente muito bonita. Até mesmo franzindo o cenho. Ao perceber que necessitava de um complemento rapidamente, antes que ela chamasse as autoridades, tentei consertar a situação.
— Você está tão sozinha... – deu uma longa pausa, longa até demais, eu acho. – Então, gostaria de se juntar a mim? Que-quer dizer, a nós? Meus amigos! Eles estão ali. – apontei para eles que acenaram e continuaram a observar atentamente o meu desespero.
Ela, então, sorriu para mim.
—Por que não?
Foi assim que a conheci, naquele dia junto ao mar.
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