Hoje Eu Não Saio Não
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei com um telefonema de minha mãe. Fui olhar no relógio e ainda marcava oito e alguma coisa da manhã. Era sábado e ela queria saber minha resposta se eu iria ou não para um casamento da filha de uma amiga dela que seria lá na Barra.
–Mãe, bom dia para você também – Minha voz saiu rouca, limpei a garganta – Acho que não vou, mãe – bocejei bastante alto. Consegui ouvir o suspiro da mamãe em seguida.
- Deixa de frescura, menina! Tenho um convite sobrando e seu irmão parece que tem outros planos para mais tarde também.
Não consegui sentar na cama, meu corpo estava pesado de tanta preguiça. Me mantive embrulhada na cama fazendo um esforço emter mais paciência. Eu não estava muito a fim de passar meu glorioso sábado de folga me preocupando em me preparar para ir a um casamento. Não consigo lembrar de nenhuma roupa para a ocasião.
–Sério, mãe. Eu não estou me sentido bem para sair – O que era verdade – Por favor, entenda. Chame sua vizinha ou qualquer outra amiga para te acompanhar.
–Tá, tá, então esquece. Prefere ficar enterrada em casa do que sair comigo. Faz quase uma semana que não te vejo, querida.
Ai mãe, sem drama.
–Eu sei, mãe. Desculpa, tá bom? É que realmente – limpei a garganta mais uma vez, precisava parecer que estava ativa – Não quero me estressar hoje. A semana foi meio hard – ops – difícil na faculdade. Os estágios acabaram comigo, entrega de artigo cientifico, resumo de livro... Entende, né? Preciso respirar.
Ouvi um grande suspiro no outro lado da linha.
–Certo querida. Descansa então. Vou tentar passar aí amanhã a tarde, beijo filhinha.
–Obrigada mãe. Te espero. Boa festa, beijos.
Respirei aliviada, coloquei o celular para vibrar e me virei para outro lado, ajeitando-me na cama. Fiz com que o edredom me cobrisse até a cabeça. Precisava dormir.
***
Tomei um susto com meu celular vibrando na minha coxa. Droga! Meu Deus, mais alguem me importunando a essa hora da manhã?
Alô? Alô? Niguem respondia.
Com dificuldades, olhei para a tela do celular para identificar a chamada.
Quer dizer, antes fosse chamada. Era apenas mais uma mensagem no Whatsapp. Revirei os olhos, como sou besta.
Me assustei com a hora 12h: 33m. Dormi tudo isso? Espantada, logo sentei na cama. Peguei meu óculos no criado mudo. Comecei a ler as mensagens da minha amiga Vitória. Cinco mensagens.
Amigaa!! Ta on??
Bom dia rsrs
O Luíz ta chamando um pessoal p ir a uma festa que ele ta preparando
É p garota que ele ta ficando, la n deposito da lareira, na lapa !!! VAMOOO
E ai??
Revirei os olhos. Que preguiça. Escrevi um:
Que horas é???
Coloquei três pontos de interrogação para parecer entusiasmada. Larguei o celular na cama e fui no banheiro, estava apertada. Não acredito que dormi tudo isso e ainda me sinto mole (lamentava no vaso sanitário). É melhor tomar um banho para acordar de vez.
***
Coloquei a primeira coisa que vi jogado no meu guarda roupa. Um vestidinho lilás velho que eu só usava para ficar em casa mesmo, super fresquinho e confortável. E dane-se o sutiã!
Peguei meu celular para ver se a Vivi havia respondido.
Nenhuma mensagem.
Joguei o celular na cama e segui até a cozinha para preparar algo para comer porque não como faz mais de doze horas (minha mãe me mata se souber). Abri a geladeira e peguei um iorgute, uma caixa de suco de uva integral e um pedaço de queijo minas. O resto naquela geladeira só era praticamente água. Desde que meu pai viajou para a Argentina, eu tenho tido problemas de manter esse apartamento em ordem. Não tenho tempo de ir ao supermercado, geralmente quem traz as compras é a minha mãe que atravessa a cidade para cuidar da filha perdida de vinte e três anos.
O café tinha acabado, só havia um pão velho. Passei manteiga no pão e juntei com o iorgute, o suco e o queijo e fui me sentar no sofá. Liguei a tv.
RJTV? Passo. Canais de esporte? Passo. Programa de videoclipes? O meu amado não está cantando? Passo. CSI? Já vi esse episódio. Passo. Grande menina, Pequena Mulher? Assisto.
Adoro esse filme.
Me ajeitei no sofá. Comi rápido o pão e o queijo. Acompanhei com o suco de uva. Fechei o "café da manhã" (não tinha café e não era manhã) com o iorgut de morango. Joguei a pequena bandeja com os restos e lixos no chão. Esperei cinco minutos para digerir o banquete sentada, depois não me contive e tive que deitar para assistir o resto do filme. Praticamente pisquei e entrou o comercial. Respirei fundo e criei coragem para sair daquela posição que me deixou tão confortável para levar a louça na pia e pegar meu celular no quarto.
Aproximando-me da cama, percebi que o celular vibrava no meio do edredon. Alguém estava me ligando, agora sim. Era Gustavo, colega da faculdade.
–Ei, Teresa. Quais são seus planos pra hoje? – Sua voz parecia tão animada.
–Nenhum... Na verdade, hoje eu só queria ficar em casa. Te disse ontem, Gu. – Dei uma risadinha.
–Ah, poxa. Tens que sair mais de casa, amiga. Bora curtir um pouco dando um passeio, indo ao cinema, qualquer coisa.
Sair mais de casa? Saio todo santo dia! E porque eu não poderia curtir em casa? Qual era o problema?
Andei até a sala, me sentei no sofá. O filme havia voltado.
–A programação da tv hoje está interessante. Faz tempo que não paro para assistir nada, Gu. – Risadinha – E ainda tenho que me atualizar em algumas séries. – Lembrei disso e uma sensação gostosa e ansiosa tomou conta de mim.
–Fala sério, tem o domingo todo para ficar em casa também. – Pelo tom, ele estava chateado. Gustavo é muito pegajoso, desde que fiquei com ele numa chopada do curso há um mês ele vive no meu pé. Sorte que ele não é do meu período mas faço uma disciplina com ele. O cara é legal, mas o problema que ele é muuito legal.
–Amanhã eu tenho umas coisas para resolver, uns trabalhos e etecetera. Você sabe, segunda terei um teste com o Francisco. Hoje quero só relaxar. Vamo marcar outro dia, certo? – Tentava parecer super simpática, mas juro que não ligava a mínima.
–Então tá né. Vou tentar chamar outras pessoas a fim de se divertirem – Ele riu – Beijos, tchau.
–Tchau, beijo. – Fui ríspida.
Nossa, que cara chato. Quero me divertir sim. Mas na minha casa, no meu sofá, com meus filmes e séries. O que é que tem?
Não iria me estressar esse dia.
***
Molly smiles with the dawn
Molly smiles and she radiates the glow around her halo
When she plays, Molly smiles
On a summer day, Molly smiles
A new day, Molly smiles
Estava na cena do filme em que a Dakota Fanning dança ao som dessa música para a Brittany Murphy. Sim, estou chorando. Que ótimo.
Quando o filme acabou, procurei na programação outra coisa interessante para assistir. Passo, passo, passo e, ai meu Deus, estava passando Closer – Perto Demais! Estava na cena final. Era para eu estar assistindo Closer ao invés de Grande Menina, Pequena Mulher!
Esquece Teresa. Tenho que lembrar de ver toda a programação antes de escolher o que assistir.
Minha barriga fez aquele zumbido de fome. Pensei em ligar para a moça da quentinha. Liguei e pedi um frango a milanesa. Enquanto esperava o almoço, resolvi ligar minha internet do meu note para checar minhas redes sociais. Em seguida entrei no Netflix para ver o que de bom tinha. Fazia tempos que não acessava.
Um banner enorme da nova temporada de uma série que curti muito havia estreado. Que delicia. Cliquei no link de Orange is the new black. Enquanto carregava, corri para o meu quarto atrás do cabo HDMI. Por onde havia deixado? Olhei no meu guarda roupa e o achei escondido atrás das roupas. Corri de volta até a sala. Conectei o cabo no notebook junto com a TV. Não demorou muito para que a imagem do computador aparecesse na televisão. Apertei o pause no video e fui correndo até o banheiro fazer xixi.
Voltei e apertei o play. Com um sorriso enorme me joguei no sofá e tentei cantarolar a música de abertura da série.
***
Faltando uns quinze minutos para terminar o episódio, a campainha tocou. Devia ser o cara da quentinha.
E era.
Entreguei oito reais para ele e com um sorriso simpático, ele agradeceu e ainda me desejou um "bom almoço". Pretendia dizer "que fofo, obrigada". Mas apenas sorri desajeitada. Ele até que era bonitinho.
Sou muito besta, Jesus.
Fui até a cozinha pegar o garfo e a faca e o resto de suco de uva que ainda tinha na caixa. Despejei o suco em um copo e voltei à sala com meu almoço, preferi comer na marmita mesmo.
Continuei assistindo a série.
***
Passei a tarde toda fazendo uma maratona de Orange is the new black. Vi uns quatro episódios. Como não tinha intenção de terminar tão cedo essa temporada, resolvi assistir outra coisa (mesmo com uma vontade louca de partir para o próximo episódio porque a série é viciante). Nesse momento, senti uma vibração ao meu lado. Era um Whatsapp da Vivi. Ela dizia que a festa no bar era as 22h. Eu respondi que não poderia ir, não estava me sentido bem. O que era verdade — eu não estava disposta, não estava nem um pouco a fim de sair de casa e seria uma péssima companhia para qualquer pessoa. Ela respondeu lamentando. Dei de ombros.
Era quase seis da tarde, resolvi dar uma varrida na casa. A última vez que varri... Na verdade, a última vez que teve uma faxina em casa foi a minha mãe que fez. Precisava me mexer mais naquele dia. Peguei a vassoura, liguei em uma playlist de músicas do meu celular.
You can dance
You can jive
Having the time of your life
See that girl
Watch that scene
Dig in the Dancing Queen
Dancing Queen do ABBA tomou conta daquele pequeno apartamento. Essa música me dava uma energia espantadora. Eu cantava e dançava feito uma criança. Isso me remetia a minha infância com meus pais, quando ainda morávamos todos juntos. Boas lembranças.
Fiz da vassoura o meu microfone.
You are the Dancing Queen
Young and sweet, only seventeen
Dancing Queen
Feel the beat from the tambourine. Oh Yeah!
Cantei direitinho o refrão. Ri de mim mesma.
A próxima música não era tão animada, mas eu a-ma-va! Música minha e do meu amor platônico, Sérgio.
Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério
Tramas do sucesso
Mundo particular
Solos de guitarra
Não vão me conquistar
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Gritei muito forte essa última parte. É, liguei o dane-se para os vizinhos.
Raras vezes eu tinha momentos assim com a música. Sempre escutava no fone, reprimindo o extravasamento. Só as pernas mexiam de acordo com o som e nada mais. Na balada com os amigos (quando eu ia) não me soltava o bastante então, tinha que beber para agir um pouco mais. Não adiantava tanto, porque sempre tentava manter o equilíbrio.
Acabei varrendo somente a sala. E muito malmente.
É meu jeitinho.
Peguei uma maçã na cozinha e voltei ao sofá. Nada de interessante passando àquela hora. Peguei novamente meu notebook, estava a fim de ver mais alguma série da qual eu estava atrasada. Tentei lembrar do número do último episódio de Game of Thrones que vi. Um site que continha informações da série me ajudou. Com isso, sai procurando um torrent para baixar e assistir.
***
Assisti dois episódios. Fiquei de queixo caído com alguns acontecimentos, mas normal se tratando dessa série. Olhei meu celular, o relógio marcava 20h: 47min. Nossa, o tempo passou rápido. E minha barriga voltou a roncar. Levantei do sofá e fui até a geladeira. Estava vazia. Franzi o cenho, lamentando. Andei desanimada até meu quarto para pegar minha carteira e ver quanto de dinheiro ainda me restava. Contei e tinha exatamente vinte e quatro reais e quarenta e cinco centavos. Fiz um biquinho, decepcionada. Não daria nem para comprar uma pizza.
A última opção seria comer o miojo esquecido lá no armário. Merda.
Enquanto o macarrão cozinhava, retornei meu foco à tv.
Estava passando um filme que nunca vira antes, mas o qual era bastante comentado pelos meus amigos quando o assunto era cinema. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Mas dessa vez, tive o cuidado de olhar toda a programação para ver se não estava passando algo que fizesse mudar de ideia em relação à Amélie.
O filme era francês, raramente via filmes franceses, mas conseguiu me prender no sofá.
Droga! Havia esquecido o miojo no fogo. Então corri a passos largos até a cozinha, desliguei o fogão e reparei que a água havia evaporado bastante. Pelo menos não queimou.
Com o miojo temperadinho com sabor galinha, retornei ao sofá. Na primeira garfada, a campainha toca.
Puta que o pariu.
–Já vai! – Gritei. Deixei meu prato no sofá e segui devagar em direção à porta, com um certo medo de quem poderia ser. Afinal, eu não esperava ninguém aquela hora em casa.
Me aproximei do olho mágico da porta. Visualizei uma garota magra, cabelos volumosos e negros, com calça jeans e uma camiseta da banda The Killers. Minha prima Mariana. Suspirei fundo e falei um bocado de palavrões em silêncio. Destranquei a porta fazendo uma careta.
Abri um sorrisão ao abrir a porta.
–Caraca, tá fazendo o que Mari por aqui? – Disse cumprimentando com beijinhos, um de cada lado, do rosto.
–Vim te pegar para irmos ao Circo Voador. A banda do Kaique, vai abrir um show de lançamento do Scracho – Ela bateu palminhas de alegria.
Convidei-a, com sacrifício, para entrar em casa.
–Eu não estou muito disposta para sair, Mari. – Disse fazendo uma careta.
–Ah, qual é? Eu ainda ia te ligar, mas estava sem créditos. O Rodolfo e a galera dele estão nos esperando no carro lá em baixo.
Ai não, por favor, não. Ninguém me tira de casa hoje.
–Ai, desculpa, Mari. Eu tô tão exausta hoje e sem vontade nenhuma para ir a shows. Desculpa, vai.
Mari colocou as mãos na cintura, fazendo sinal de negação com a cabeça.
–Poxa, então, deixa pra próxima. – Ela passou os olhos para o meu apartamento – Ta fazendo o que?
–Assistindo filme. – E por causa de você estou perdendo o filme na tv, valeu sua chata – Nada de mais. – Dei um sorrisinho.
–Bom, então vou indo. Aposto que vais se arrepender, Teresa. Vai ser muito foda. – Ela foi caminhando até a porta. Eu dando graças à Deus.
–Okay então, Mari. Divirta-se.
Me despedi e fechei a porta, ufa.Voltei ao sofá e o macarrão já estava frio e o filme ficou confuso. Espero que sua noite seja péssima, Mariana.
***
Quando o filme acabou, suspirei, levantei do sofá, me espreguicei e caminhei até a sacada. Observei as luzes lá em baixo. Sorri e disse baixinho:
–Quantos casais estão tendo orgasmo nesse exato instante?
Repeti a fala de Amélie em uma das cenas do filme. Que carisma.
O vento frio passou pelo meu corpo, me arrancando arrepios. Mas isso não me tirou dali. Pensei no dia de hoje, eu precisava de descanso. Muitas pessoas acham que eu poderia estar num tédio interminável estando sozinha num sábado. Elas que catem coquinho, eu heim. O importante é como eu sei aproveitar os momentos que me são dados, tenho certeza que estando aqui com filmes, músicas e as séries foi mais divertido que qualquer festa, passeio e shows que eu poderia ter ido hoje. Eu não estava para multidão hoje. Simples.
E para fechar a noite de vez, estou com vontade de assistir alguma saliência. De preferência na minha cama com meu brinquedinho preferido.
Bati palminhas alegremente.
Notas finais
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Lá no boteco, não
Telecoteco
No trio elétrico, não
Teatro, não
Não vou no esquema não
Nem no cinema, não
Em Ipanema, não
No circo, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Na padaria, não
Na academia, não
Periferia, não
No centro, não
No casamento, não
No lançamento, não
No movimento, não
Na praia, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
No restaurante, não
Roda gigante, não
No baile funk, não
No parque, não
Não vou na Lapa não
Na batucada, não
Na passeata, não
Nem no portão
Música: https://www.youtube.com/watch?v=SSOJfdSMPng
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