Hitobashira
17 Capítulo Dezesseis: Fantasmas sussurram canções aos mortos.
Notas iniciais
Capítulo Dezesseis: Fantasmas sussurram canções aos mortos.
“Eu não poderia encarar a vida sem sua luz.
Mas tudo aquilo acabou quando você se recusou a lutar!
Então segure sua respiração, eu não vou me importar.
Eu acho que fui bastante claro;
Você não conseguiria odiar o suficiente para amar.
Era suposto para aquilo ser o suficiente?
Eu só queria que você não fosse minha amiga
Então eu poderia te machucar no final.”
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“Ela nunca conheceu o amor. Em todos os séculos da sua existência, nunca tinha compreendido direito as palavras afetuosas cheias de carinho que lia nos livros quando era mais nova. Mas ali, olhando para o rosto sereno dele, ela quase podia compreender o que os livros diziam.
Espalhado pelos lençóis bagunçados, os cabelos dele pareciam se misturar com as cores negras dos travesseiros. O corpo dourado tinha as suas marcas aqui e ali. Um sentimento possessivo de satisfação se espalhou por sua mente.
Ele era dela, somente dela.
Quando os lindos olhos violeta se abriram preguiçosamente e um sorriso singelo brincou nos lábios dele, ela se viu inclinar, também sorrindo, e beijar delicadamente sua boca.
—Bom dia, minha Rainha. – a voz rouca dele a fez se arrepiar, Hayden era o único homem que tinha esse efeito nela.
Uma vozinha na sua mente quis alertá-la de que esse homem era perigoso. Que esse estranho sentimento que brotava no seu peito podia ser sua ruína no futuro. – Mas quando ele enroscou uma mão na sua cintura nua puxando-a para mais perto, todas as vozes silenciaram-se e ela apenas se deixou sentir.”
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Ela queria chorar. O desespero fazia com que seu estômago doesse e sua cabeça latejava.
—Você tem que continuar sem mim! – ela gritou para Balthazar.
—Não! Não vamos deixar você pra trás!
—Balthazar! Não seja um teimoso filho da puta! – ela encostou a testa na parede de rochas a sua frente – Você tem que tirar o Lázaro daqui e levá-lo a um médico. – ele grunhiu e ela escutou quando ele deu um soco na parede.
—Você não pode desistir! – seus olhos pinicavam com a vontade de chorar, ninguém nunca tinha se importado com ela desse jeito, e agora, esse estranho teimoso que cruzou o seu caminho não queria deixá-la para trás – Olhe ao seu redor! Procure uma saída! Se eu aprendi alguma coisa nesses anos em que estive em apuros, menina, foi que sempre há uma saída!!
Ela respirou fundo antes de dizer;
—O corredor chegou ao fim Balthazar. As rochas trancaram a passagem. – ela olhou para a lava quente e brilhante que se aproximava – Você tem que ir agora. Encontre a saída desse maldito lugar.
—Não vou deixar você!! Somos uma equipe! Não desista, droga!! Encontre uma saída! – o maldito homem não queria deixá-la.
Seria esse tipo de lealdade que eles estavam falando mais cedo?
Ela só tinha sentido esse sentimento com seus amigos nas cadeias Kenji’s.
—Acho que poderíamos ter sido grandes amigos.— ela sussurrou para a rocha úmida a sua frente.
—Sakura! Não desista! — ele gritou outra vez pra ela.
Seus punhos se fecharam. Ele estava incentivando-a. Não tinha a abandonado mesmo quando seria muito mais fácil seguir pelo corredor e encontrar a saída. Lázaro, seu melhor amigo, estava ferido e mesmo assim, Balthazar não a abandonou.
Ela tinha feito uma promessa a si mesma de que iria recomeçar. Essa era a sua segunda chance, era o seu bilhete de recomeço para uma vida melhor. Para ser uma pessoa melhor.
Ela encarou de volta o corredor cheio de pedras que ela tinha percorrido. A lava era uma gosma vermelho e laranja fluorescente se aproximando lentamente. O cheiro era horrível. Quase tão pior quanto o cheiro da sua antiga cela na prisão.
—Certo, seu bastardo teimoso! Vou dar um jeito! – ela gritou e começou a percorrer o caminho que tinha feito, tinha que haver alguma coisa que a ajudasse a sair daquela armadilha de rato.
Ela andou de volta pelo corredor duas vezes até que uma coisa estranha chamou a sua atenção; uma parede estava tão úmida que a água escorria por ela como um pequeno rio corrente, a lava estava quase a alcançando, mas a pedra estava fria ao toque, Sakura esfregou os dedos na água e cheirou, tinha um odor estranho, não era igual ao das outras pedras úmidas ao seu redor. Ela olhou para o teto, uma rachadura funda cortava o teto de um lado a outro, a lava estava quase aos seus pés, mas ela se esticou e tocou a rachadura; seus dedos voltaram frios e molhados.
—Mas que diabos?! – ela provou com cautela a água que escorria da rachadura; parecia que tinham colocado sal na sua boca. Ela se obrigou a dar um passo para trás enquanto observava a lava cada vez mais próxima. Um único pingo de água salgada despencou da rachadura e caiu na lava fervente aos seus pés. O instinto gritou na sua mente e Sakura deu meia volta e começou a correr para o fim do corredor como se o próprio diabo a estivesse perseguindo.
—Balthazar!! Corre!! Corre!! – ela ouviu ele gritar alguma coisa, mas não conseguiu entender. O som do teto se desmoronando atrás de si a deixou surda. Ela teve tempo de prender a respiração em um fôlego cheio de pânico quando uma enxurrada de água salgada a varreu pelo corredor de rochas pontudas. A força da água foi tão grande que a rodopiou e a fez bater de lado em uma das paredes, sua cabeça bateu com força em uma pedra solta que, assim como ela, era arrastada pela fria água salgada. Sua perna se arranhou em alguma coisa e a sensação era como se estivesse pegando fogo; ela tinha experimentado aquela mesma sensação antes, quando ficou aos cuidados do Capitão Rizem Brandston.
Ela bateu com força as costas na parede e a dor a fez gritar em baixo d’água. – Tudo ficou quieto por um minuto inteiro. Seu corpo parecia inerte e seu cabelo flutuava na frente dos seus olhos, fios rosas lhe tampavam a visão, mas ela viu com o canto dos olhos um vulto que, em seu íntimo, lhe era familiar. Seus braços e pernas pareciam mais pesados do que o normal e enquanto ela seguia a direção que o vulto parecia ter seguido, ela se sentia em câmera lenta. Olhou para baixo e a lava seguia o seu caminho implacável pelo chão do labirinto. Ela percebeu que conseguia distinguir cores; não estava mais no completo breu.
Ela continuou nadando, seguindo em frente, mas parecia surda e insensível para o que estava ao seu redor, parecia estranhamente surreal; ela sabia que estava ferida e que deveria estar no mínimo sentindo uma dor insuportável, porém, nada parecia doer em seu corpo. Ela viu a luz ficar mais clara e percebeu que estava onde o teto desabou, rochas estavam espalhadas para todos os lados e ela viu uma enorme abertura para cima. Começou a nadar mais rápido, ou tentou, mas seu corpo parecia ainda estranhamente congelado, duro e lento. Ela jurou que viu uma pequena sombra nadar pela abertura e sumir por ela.
Empurrando seu corpo para lhe obedecer, ela finalmente sentiu alguma coisa; pânico. Seus pulmões começaram a doer e era quase impossível refrear o instinto de respirar debaixo d’água, sua garganta doía e ela finalmente começou a se mover mais rápido, passou pela abertura entre as rochas e saiu para o que parecia ser o fundo de um rio, areia branca e água de um azul claro lhe davam boas vindas, ela lutou e agarrou o espaço a sua frente para se impulsionar mais rápido para cima, conseguia ver a luz do sol brilhante na superfície, seus braços se esticaram, seus pulmões arderam, e ela emergiu de dentro da água com uma tosse engasgada por busca de ar. Seu primeiro fôlego de oxigênio desceu rasgando pela sua garganta e ela se engasgou enquanto batia os braços tentando permanecer com a cabeça fora d’água.
Com os olhos lacrimejando pela água salgada que parecia lhe queimar os globos oculares, ela viu o que parecia ser terra firme há alguns metros de distância, nadando com cada resquício de força que ela tinha, Sakura começou a sentir as primeiras dores dominarem o seu corpo. Sua cabeça latejava bem acima da sobrancelha e ela sentia escorrer sangue por seu rosto, o arranhão na perna lhe ardia como o inferno e seu braço ferido tinha espasmos de dor que sacudiam seu corpo inteiro; ela conseguia sentir um hematoma enorme se formar nas suas costas e seus músculos dos braços e das coxas ardiam pelo extremo esforço físico.
Ela tocou alguma coisa afiada na terra a sua frente e se içou para cima, rastejando com enorme esforço para subir na ilha flutuante no meio do rio. Se deitou de costas, cuspindo água salgada e olhou para sua mão, onde um corte profundo fazia o sangue se destacar na sua pele pálida.
Depois disso, ela só lembra de sonhar com fantasmas.
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A minha visão estava embaçada, mas eu conseguia discernir duas formas a minha frente; uma era pequena, magra, com um fino cabelinho loiro, seu rosto era delicado e ela tinha pequenos olhos castanhos... Senti meu coração falhar uma batida e então recomeçar de novo freneticamente, estava completamente atenta as duas figuras na minha frente. Com a boca aberta e o coração parecendo saltar para fora do meu peito, observei com olhos arregalados a outra figura; esse era alto, tão magro que dava para ver o contorno dos ossos sob a pele, tinha cabelos compridos e de um castanho tão escuro que quase parecia preto; seus olhos tinham a mesma expressão pacifica da última vez que eu o vi.
Eu tentei falar qualquer coisa enquanto me sentava na cama de palha em que eu nem tinha me dado conta que estava deitada, mas a minha voz saiu falhada e eu gaguejei três vezes antes de perceber que eles estavam falando alguma coisa sobre mim.
—É ela! – disse a boca de Aísha, com uma voz que não era a dela.
—É ela mesmo. – respondeu Taiuky com uma voz completamente diferente da que eu me lembrava.
—Eu disse pra você que ela tinha retornado! – a garotinha idêntica a minha Aísha olhou com uma arrogância que ela nunca teve quando era viva.
—Sim, mas como eu ia saber que você não estava caducando outra vez?!
—Eu avisei que ela estava de volta!! – a voz esganiçada era infantil, mas não era de uma criança. Essas pessoas não eram os meus amigos.
—Quem são vocês?— eu perguntei ainda desnorteada, me sentia como se tivesse levado uma martelada no meio da testa.
—A rainha louca está de volta, ela pretende usar o seu corpo como receptáculo, e a sua grande pergunta é quem nós somos?! — o rostinho bonito de Aísha deu uma risadinha fina e boba — Não que seja uma grande surpresa. — disse ela revirando os olhinhos num gesto em que a minha menininha nunca antes fizera. – Não se fazem mais cérebros como antigamente.
—Há muitos e muitos anos que esperamos pelo receptáculo da rainha. — Taiuky falou em uma voz velha que parecia completamente errada com relação ao seu rosto jovem — A única grande surpresa é que o receptáculo claramente não está vazio.
—Ardiloso, o nosso Rei Prateado, não? — comentou a garota com o rosto de Aísha, seus olhos perdidos por um momento — Sempre com um Ás na manga. — deu uma risadinha meio louca.
Minha cabeça parecia estar sendo atingida por um martelo repedidas vezes. -Eu não entendo, quem são vocês e do que estão falando?!
—Do seu destino, é claro! — respondeu a criatura com o rosto de Aísha, como se fosse óbvio.
—Ou será do destino da rainha louca? — comentou a outra criatura com uma aparência assustadoramente parecida com a de Taiuky.
—Não, não. — respondeu a voz infantil e estridente da garotinha- Tenho certeza que se trata do destino dessa alma.
—Mas as profecias falavam sobre a rainha louca... – disse ele com um tom de incerteza na voz.
—Esperem! Do que vocês estão falando? Quem é essa rainha louca?!
—Oh docinho! – a garota com o rosto de Aísha pegou a minha mão de forma carinhosa — Não se preocupe com isso agora, estamos mantendo-a afastada da sua mente!
—Ela não irá ferir você enquanto nós a estivermos mantendo longe. — completou Taiuky com orgulho na voz.
—Quem são vocês? — eu suspirei cansada.
—Somos os espíritos ancestrais. — comentou Aísha ainda acariciando a minha mão.
—Eu não entendo. – franzi a testa, eu não conseguia pensar direito com a minha cabeça latejando sem parar.
—Simples, menina; somos os velhos espíritos dos ossos sangrentos! — comentou Taiuky como se estivesse esclarecendo tudo.
Eu podia sentir uma dor de cabeça eterna se enraizando no meu cérebro.
—Ossos sangrentos?
—Sim! A ilha em que você está dormindo agora! — respondeu ele energicamente.
Eu suspirei aliviada — Então isso é um sonho?
—Uhum... — disse-me Aísha — Um sonho lúcido. Mas não temos muito tempo para falar sobre isso agora, querido porque você não conta a ela aquilo que tínhamos de falar? Enquanto isso eu vou preparar aquele chá de ervas tropicais que eu estava querendo desde o século passado.
—Hey! Porque você não conta a ela o que precisamos falar enquanto eu vou preparar aquele pão de mirtilo que eu queria desde a década retrasada?!
—Não, não! Combinamos que você falaria com ela! – a garotinha colocou as mãos na cintura e encarou-o com uma expressão irritada no rosto.
—Blasfêmia!!!- a voz de Taiuky berrou — Nós dois combinamos de contar a ela juntos!
—Ótimo! Então eu conto a ela! — Aísha se virou para mim com uma expressão de completa fúria no rosto infantil.
—Jamais! – ele berrou outra vez e seu rosto começava a ficar vermelho — Eu é que vou contar a ela!!
—Ah é?!
—É! — respondeu ele com uma expressão insolente no rosto.
—Ótimo!! Então conte! – ela disse e virou as costas seguindo para o interior da cabana cantarolando uma melodia desconhecida.
Ele olhou para mim com um sorriso vencedor no rosto. Eu não estava certa de que ele tinha ganhado alguma coisa, mas enquanto ele recuperava a calma por uma discussão sem sentido que só fez a minha dor de cabeça triplicar, eu tentei entender onde diabos eu estava e quem eram esses dois pirados.
—Porque vocês se parecem tanto com os meus amigos?
Ele suspirou e olhou para a sua roupa como se estivesse desgostoso – Nós não temos uma forma definida, somos espíritos antigos, não precisamos nos preocupar muito com o físico, porém Ibbi achou que seria menos aterrador para você se parecêssemos mais familiares.
—Ibbi? – eu apontei para a garotinha com o rosto de Aísha que separava algumas ervas no minúsculo espaço da cabana.
Ele concordou com a cabeça – E eu sou Mao, muito prazer em conhecê-la finalmente Senhorita Sakura Haruno. – ele se curvou de forma respeitosa e depois se sentou em um dos banquinhos de madeira na minha frente.
—Temo que o que irei dizer-lhe não será de todo tranquilizador, mas você precisa estar atenta de qualquer maneira. — eu prendi a respiração enquanto encarava aqueles olhos tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes dos do verdadeiro Taiuky — A rainha louca não é a sua única preocupação, quando você entrou em Kandrákar e trouxe a rainha com você, outras criaturas, criaturas antigas e malignas, começaram a despertar.
—Assim como na profecia. — disse Ibbi trazendo uma bandeja com xícaras de cristais contendo um fumegante chá com um aroma tão forte que fazia o nariz doer.
—Eu não entendo o que vocês querem dizer. Eu não trouxe ninguém para Kandrákar, e o que é essa profecia? Isso tudo parece cada vez mais um sonho louco sem sentido!
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, até que Ibbi fixou os olhos em mim enquanto provava o chá fumegante.
—Você tem certeza de que não trouxe ninguém com você quando atravessou para esse mundo?
Eu abri a boca pronta para negar quando o olhar dela me deteve. Eu pensei por um minuto enquanto distraidamente assoprava o chá em minhas mãos. Eu lembrei da estranha sensação de flutuar no ar, então de repente pareciam que mãos firmes me puxavam para baixo, senti meu corpo se chocando contra algo macio e quente, me senti sufocada e meu estômago revirou, parecia que todo o meu corpo estava sendo enclausurado em um forno gigante e apertado. Foram horas de pânico puro e então um pensamento que não era meu, uma voz na minha cabeça que não era a minha; “Nada é comparável com a sensação de ter sua alma retornando ao seu corpo.”
—Calisto. – eu sussurrei e encarei os olhos frios dos dois espíritos a minha frente. Mao fez uma careta e concordou em silêncio enquanto Ibbi apenas me encarava.
—A profecia diz que o receptáculo da rainha louca retornaria para Kandrákar e mais uma vez o trono dourado seria mergulhado em sangue.
—Mas a profecia nunca disse nada sobre as criaturas que agora estão começando a despertar. – comentou Mao de forma pensativa.
—“E assim como a Rainha foi-se deitar para dormir o sono dos mortos, todo seu povo também sonha...” –recitou Ibbi com uma voz extremamente séria – Não é de se esperar que assim que a Rainha retorna do mundo dos mortos, as suas criaturas também irão acordar do sono profundo em que estiveram?
Mao abriu a boca para retrucar, mas eu o interrompi.
—Eu não entendo o que vocês estão falando! Achei que Calisto era apenas uma invenção da minha cabeça. – Mao se mexeu de forma agitada.
—Por favor, menina pare de falar esse nome. As criaturas verdadeiramente antigas têm poder até no próprio nome.
—Dizia-se antigamente que se você falasse o nome da rainha louca depois do pôr do sol, ela podia ouvir o que estava a ser dito sobre ela. – Ibbi comentou com a mesma dose de temor e admiração. – Era assombroso o que a 1ª Bruxa podia fazer.
— Primeira Bruxa?
—Um dos milhares títulos que a rainha louca ganhou durante o seu reinado. – respondeu Mao como se isso não tivesse importância alguma. – Agora menina, preste atenção; as criaturas que estão acordando não são todas pertencentes á rainha louca, alguns desses seres antigos irão, provavelmente, querer destruir você antes que a rainha consiga se apoderar do seu corpo. Você precisa tomar muito cuidado!
Ibbi concordou e bebericou mais um pouco do chá – Está se saindo muito bem, considerando as suas opções disponíveis. Não seria uma boa ideia tentar fugir, até porque se a rainha não se apoderar do seu corpo, os seus inimigos irão destruí-lo. Por isso continue tentando criar raízes na guarda do Rei Escuro, ele sempre protege o seu povo.
—Esperem um pouco! Vocês estão dizendo que a Rainha Louca, 1ª Bruxa, ou seja lá que nome tenha, é a Calisto? A minha alucinação que parece real, mas que eu sei que não é, porque isso não é possível! E então tem a porcaria de umas criaturas velhas que estão acordando do seu sono de beleza apenas para me matar? Ah, sim. Por causa de uma maldição antiga que diz que eu serei o receptáculo dessa tal rainha?! É isso?
—A sua alucinação, como você gosta de chamar, por acaso não sabe exatamente o que você têm que fazer e como fazer? Por acaso ela não estava com você quando misteriosamente você despertou em Kandrákar? Ou quem sabe não foi ela que deu a você certas... habilidades? Com o fogo talvez? Ou com aquela parte escura e sombria que habita nesse seu coraçãozinho pequeno? – Ibbi estava com os olhos cravados em mim. – Ela não é uma simples e mundana alucinação. Ela é a criatura mais manipuladora, ardilosa, maldosa e cruel que já andou sobre o nosso mundo. E agora, ela está tentando se apoderar do seu lindo corpinho para poder retornar ao poder. – o silêncio se instalou na pequena cabana, o chá parecia frio nas minhas mãos. Eu não conseguia perceber se a dor de cabeça tinha sumido ou se tinha se agravado. Estava entorpecida.
—Você pode negar, pode olhar para si mesma e negar que não sente o mal vivendo dentro de você? – Mao me olhou nos olhos — Olhe para o seu passado, não existe mesmo nenhum momento em que você sentiu que ela era má? Porque eu posso dizer isso a você com toda a convicção de um espírito antigo, menina; ela é o mal! E qualquer coisa (aparentemente) boa que ela tenha feito a você, não foi simplesmente pela bondade do coração puro que ela (não) tem.
Eu prendi a respiração. “- Você não sente o mal vivendo dentro de você?”. As lembranças me atingiram como um soco no peito; os padres me convencendo que eu era uma criatura demoníaca, os soldados-santos me dizendo o quanto eu não era humana, que o mal vivia dentro de mim. Eu não iria passar por isso de novo, mesmo que uma parte de mim concordasse com o que essas duas criaturas estavam dizendo, mesmo que uma parte minha visse a verdade de toda essa loucura, ainda sim, eu não iria me deixar levar. Calisto tinha sido muitas vezes cruel, falando coisas que me enchiam de medo e me magoavam, mas ela também foi a única que me fez erguer a cabeça e lutar pela minha liberdade.
Por causa dela Joan, Raik e Lauren tiveram uma chance de viver. Eu devia a ela pelo menos o pensamento da dúvida.
Respirei fundo, me concentrando em um pensamento fixo na minha mente; “Eu quero acordar! Eu quero acordar! Eu quero acordar!!”
—O que você está fazendo?! – a voz de Ibbi saiu espantada, ela olhou incrédula para Mao.
—Ela não pode fazer isso! – disse Mao com os olhos arregalados.
Eu fechei meus olhos me concentrando ainda mais nessas três palavras; “Eu quero acordar! Eu quero acordar!!”
—Ela está fazendo, Mao! Ela está nos despachando! – disse Ibbi como se estivesse em choque.
—Mas ela não tem poder o suficiente para isso... Ela é só um receptáculo! – a voz de Mao foi começando a se desvanecer, perdendo a força na medida em que as palavras que eu entoava na minha cabeça ganhavam mais intensidade.
—Não querido, ela é muito mais do que um fantoche nas mãos da rainha louca! – a voz de Ibbi tinha um tom diferente enquanto se apagava dos meus ouvidos; ela quase parecia esperançosa.
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Todo o meu corpo doía. O local em que eu estava era extremante desconfortável e parecia que espinhos me espetavam nos braços e nas pernas. A minha cabeça latejava como se fosse explodir. Abri os olhos e minha visão embaçada me deu um vislumbre de um céu azul escuro com nuvens cinza anunciando chuva.
Assim que as lembranças do meu estranho, louco sonho surgiram na minha mente, eu senti um calafrio que me fez estremecer. Sentei-me com dificuldade e finalmente pude observar o lugar em que eu estava; era realmente uma ilha. Uma ilha de ossos.
“... Somos os velhos espíritos dos ossos sangrentos!”
“... A ilha em que você está dormindo agora.”
Oh, merda.
Me levantei o mais rápido que as minhas feridas permitiram. O corte que eu tinha na mão já tinha parado de sangrar, a minha testa ardia onde tinha um outro corte profundo, minha perna estava arranhada, mas nada era tão ruim quanto o meu braço machucado.
Porra, eu estava ferrada.
Olhei para o chão aos meus pés com um misto de enjôo, receio, e incredulidade. Eu estava em choque. A ilha era completamente feita de ossos. O lugar era tão macabro que eu tinha medo até de olhar ao redor.
Eu respirei fundo, tentando me concentrar; eu precisava sair daqui. Eu precisava terminar esse maldito teste, encontrar Lázaro e Balthazar e recomeçar a minha vida.
“(...) quando você entrou em Kandrákar e trouxe a rainha com você, outras criaturas, criaturas antigas e malignas, começaram a despertar.”
“A rainha louca está de volta e ela pretende usar o seu corpo como receptáculo...”
NÃO!
Eu não posso me distrair com sonhos estúpidos agora! Eu preciso me concentrar em me manter viva. Depois, depois eu penso sobre tudo o que aconteceu. E sobre o que tudo isso significa. Até lá, eu tenho que sobreviver.
Com esse último pensamento reconfortante, eu começo a caminhar. Um pé na frente do outro, um passo de cada vez. Se eu apenas me manter em movimento eu não vou ter tempo para pensar em toda essa maldita loucura. Se eu continuar me movendo eu posso fingir que cada machucado no meu corpo não dói. Que o lugar em que estou pisando não é feito de ossos.
Ossos humanos.
Oh, meu deus! Eu preciso sair daqui. Esse teste já passou do limite. Não há saída desse maldito labirinto! Dessa maldita ilha de ossos!! Ryra morreu por nada! Koudy nem deveria ter vindo pra esse maldito lugar! Lázaro provavelmente está morrendo nos braços de Balthazar e...
Eu olhei para frente e um paredão de árvores altas e secas me dava boas vindas, eu acelerei meus passos mancos. Eu nem ligava se o lugar parecia macabro e sem vida, era terra firme a vista, terra de verdade, sem ossos sendo triturados a cada passo que eu dava, sem rostos conhecidos de fantasmas estranhos que não diziam coisa com coisa.
Finalmente.— Terra. Só terra. – eu inspirei profundamente, aliviada. Caramba, eu quase entrei em pânico.
Olhei ao meu redor, o chão estava sem nenhuma folha, ás árvores pareciam carbonizadas, mortas. Recomecei a minha caminhada em direção ao norte. Eu sabia que precisava subir até o topo da montanha, lá seria o local perfeito para observar o labirinto de cima e tentar achar a saída desse lugar. Enquanto eu mancava montanha acima eu só conseguia pensar no quanto eu estava cansada. Meus olhos pareciam prontos para se fechar, eu só precisava escorar o corpo por dois minutos em um lugar confortável e eu desmaiaria por horas, tenho certeza.
Um som distinto que eu só podia reconhecer como asas, veio de trás de mim: eu olhei para a árvore seca nas minhas costas e em um de seus galhos havia pousado um pássaro negro. Um corvo. Com incríveis olhos cor de lavanda... Um arrepio subiu pela minha espinha e eu me senti incapaz de desviar o olhar.
“(...) as criaturas que estão acordando não são todas pertencentes á rainha louca, alguns desses seres antigos irão querer destruir você!”
“Precisa tomar muito cuidado!”
Um som melodioso me despertou do transe que eu estava, o corvo bateu as asas negras e voou para longe. O som se repetiu e dessa vez foi seguido de um coral intenso de outros... lobos. Eram lobos uivando. Imediatamente as informações que li sobre Roke Thronnos me deixaram alerta. O som parecia vir de todo lugar da floresta, e só podia significar uma coisa; eles estavam caçando. A ansiedade e paranóia começava a tomar conta de mim. Eu precisava sair daquele lugar urgentemente. Nada resultaria bem depois de um encontro com uma alcatéia de lobos famintos e isso era exatamente o que eu não precisava agora. Não com essas feridas, sem nenhum apoio ou arma, mancando e com um braço inútil.
— Mais que merda! — Comecei a correr. As nuvens escuras deixavam a floresta ainda mais sombria, e enquanto a adrenalina me mantinha em movimento, o canto dos lobos parecia uma música melodiosa e assustadoramente bonita. Como um show antes do banquete.
As minhas costelas começavam a doer pelo esforço e minha respiração já estava ofegante, as árvores eram apenas vultos escuros que eu deixava pra trás, o suor escorria pela minha testa e eu sentia a roupa molhada e fria que grudava nas minhas costas.
Um pé na frente do outro, controlando a respiração, desviando de buracos e galhos caídos. Um pé na frente do outro. Um pé na frente do outro. Os olhos no caminho e a atenção ao meu redor. Um passo de cada vez. Respirar. Expirar. O canto dos lobos parecia mais próximo a cada minuto. Eu quase podia jurar que por um segundo ou dois eu vi um enorme lobo prateado correndo por entre as árvores...
Quase não consegui parar a tempo de evitar rolar barranco abaixo. Na minha frente, cerca de uns sete ou dez metros, havia uma porta enorme na encosta do barranco. Uma porta de pedra cinza com um desenho de um lobo uivando. Uma das saídas do maldito labirinto. Seria essa a certa? Mais para frente, um campo cheio de árvores se estendia por alguns quilômetros, mas dava pra ver ao longe, quase escondido por um muro camuflado com ramos, musgo e folhas verdes, um enorme portão negro com grades da grossura de um tronco de árvore. Seria esse, finalmente...?
Um grito rouco e agonizante explodiu no ar ao mesmo tempo em que eu via seis pessoas correrem desesperadamente por dentre as árvores. Os uivos dos lobos pareciam vir de todos os lados. Eu desci o barranco o mais depressa que eu pude e comecei a correr em direção a saída desse lugar. Só podia ser naquele portão. Tinha que ser naquele portão!
A esperança ardia no meu peito como um ácido correndo pelas minhas veias. Eu quase esqueci dos meus ferimentos e da dor de forçar o meu corpo até o máximo do máximo. Eu só pensava em chegar até aquele portão, com aquelas grossas barras de ferro que impediriam os lobos de me comerem viva. Que seria o fim desse fodido teste.
Um pé na frente do outro. Ignore o resto. Só corra. Preste atenção somente no seu objetivo. As pessoas ao seu redor não importam. Os gritos não te afetam. Os rosnados dos lobos, comendo os corpos dos infelizes que não conseguiram escapar a tempo, também não significam nada. Tudo o que importa é correr. É chegar até a saída. É vencer. Só isso importa.
“-A sua alucinação, como você gosta de chamar, por acaso não sabe exatamente o que você têm que fazer e como fazer?”
“Ela é a criatura mais manipuladora, ardilosa, maldosa e cruel que já andou sobre o nosso mundo.”
“(...) não existe mesmo nenhum momento em que você sentiu que ela era má?”
Eu tropecei no meio da floresta e rolei sobre a terra e folhas mortas no chão. O entorpecimento que me manteve surda enquanto eu corria se foi e eu podia ouvir, ver e sentir com clareza tudo ao meu redor. Era uma carnificina. Sangue, corpos e gente gritando histericamente. A alcateia estava tendo uma fodida festa. Eu podia ver pessoas correndo por entre as árvores, sendo perseguidas por enormes animais selvagens. Predadores e presas.
Eu me levantei do chão e vi quase que em câmera lenta um homem correndo desesperado na minha direção. Seus olhos castanhos estavam enormes com o pânico, seu corpo magrelo parecia ainda mais pálido que o normal e contrastava com os cabelos negros e sujos. Eu tive um minúsculo segundo para reconhecê-lo, e então cinco enormes lobos de diferentes direções saltaram em cima dele.
Enquanto eu corria em direção ao portão de ferro no final da floresta, eu ainda conseguia ouvir os gritos de Loki na minha cabeça.
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