Notas iniciais
Mais um

Adentrando em seu dormitório, Hitler chacoalhou Eva até que ela despertasse. Conforme a meretriz loira ia se esticando e bocejando, ele vasculhou as gavetas para encontrar algum pano onde pudesse enrolar o corpo de sua pequena amada.

– O que você está fazendo? – Eva indagou esfregando os olhos remelentos.

– É a hora de executar nosso plano!

Enrolando a escova num largo lenço cinza, não precisou sequer explicá-la com delongas para que ela pudesse tirar suas próprias conclusões.

– Espero que você não esteja se referindo àquilo – ela ficou de pé num piscar de olhos, botando as mãos na cintura para acentuar sua pose autoritária.

Numa última advertência antes de sair, ele protegeu a escova num bolso da calça de seu pijama listrado. – Se você não quiser ir pode ficar aí sua leitoa prenha, mas não se esqueça de que nós temos um acordo.

Era tentador atacar o ditador, mas como consequência de sua pressão psicológica (e também por causa de seu bebê) Eva o seguiu com a empregada até o laboratório subterrâneo da casa do partido. Sua entrada era atrás de uma estante de livros empoeirados no porão; nazistas sempre foram geniais quando se tratavam de bases secretas no subsolo. Descendo dois pares de escadas até chegarem ao local apertado e de paredes sem reboco provavelmente radioativas, as luzes foram se acendendo pouco à pouco; desde o fundo onde jaziam as macas com cadáveres vítimas de experiências genéticas sem sucesso até onde os três estavam. Hitler avançou entre as máquinas e balcões repletos de tubos preenchidos com plasma e tocou o ombro de um homem corcunda que estava sentado em frente à uma tela da qual códigos morse surgiam. Seu nome era Bartholomäus, ele era o engenheiro-mecânico, alquimista e cientista oficial do partido, fabricava bombas e desenhava plantas de submarinos para investigar as bases da Marinha inglesa, americana e japonesa.

– Senhor – ele o chamou ofegante. Sentia um calor sobrenatural, como se o espírito da escova estivesse o excitando invisivelmente.

O homem albino girou na cadeira para encará-lo. Seus óculos escorregavam pelo nariz negroide. Seu cabelo era dourado como ouro. – Vocês deveriam estar dormindo. Não aprecio a interrupção de minhas mensagens secretas aos meus espiões na Rússia.

– Preciso de sua ajuda! Estou implorando! – Hitler se ajoelhou, cabisbaixo. –Preciso que você ressuscite minha escova!

Advertiu. – Sabe quais são as consequências disso?!

Transpirando a tensão por cada poro, Eva e a empregada assistiam a conversa há mais de cem metros de distância. Aquele lugar era de fato assustador e saber que muitas pessoa morreram nas câmaras de gás e mesas cirúrgicas não as tranquilizava. No auge do silêncio entre as alas subterrâneas ventiladas, podiam até escutar os gritos das almas perdidas que não conseguiram subir até o céu porque continuariam presas naquele inferno por toda a eternidade.

– Sim, eu sei Bartholomäus, mas tudo vale à pena pelo amor – Hitler ergueu a cabeça, seus olhos cintilando graças ao acumulo de lágrimas de solidão e dor. O mostrou o lenço.

Bartholomäus astutamente pegou o lenço e checou a escova cuja vida fora retirada, vagou até outra sala onde havia um aparelho que parecia uma espécie de agulha gigante. Centralizou a escova morta na maca metálica e deu a volta até o painel de controle onde apertou um botão vermelho e um relâmpago estourou da ponta do aparelho. Quando a branquidão se dissipou, uma mulher nua caiu aos seus pés, seu cabelo era loiro platinado e haviam sardas atraentes espalhadas por todo seu rosto queixudo e angelical assim como também elas estavam marcadas em seus ombros e em suas coxas finas. Antes de se aproximar de sua escova que havia se tornado uma humana, Hitler prendeu a respiração.

– Escovinha?! – perguntou desconfiado.

A escova se levantou do solo frio e cambaleou desacostumada a andar sob duas pernas. Tocando seus próprios seios cujos mamilos eram rosados, afirmou. – Eu sou... Humana.

– Você é a mulher mais perfeita que eu já vi — Adolf correu para abraçá-la forte. Finalmente a sentiria como uma humana, finalmente deixaria de transar pela bunda. – Estou tão feliz que você está de volta, agora poderemos ter uma vida digna juntos!

Enojada, ela se desviou antes que ele se encostasse, encontrando o olhar de Eva do outro lado do laboratório. – Meu amor!

Eva saltou assustada. – Você está falando comigo?

Num rebolado pecaminoso e com cheiro de paixão, a escova caminhou em direção à meretriz grávida. – Eu morri todos os dias esperando por você, querida não fique com medo eu te amei por mil anos, amarei por mais mil.

A escova havia se apaixonado por Eva. Teria o pesadelo de Hitler se tornado realidade? Trazer a escova de volta à vida em forma humana foi um erro irreparável? Hitler pensou sobre eliminá-la, mas partiria seu coração de novo, assim como o sentiu ser arrancado de seu peito durante os vinte anos anteriores. Ele fuzilou o cientista com os olhos, planejando levá-lo ao campo de concentração para morrer com os judeus; seria uma pena, pois perderia seu engenheiro mais leal e genioso.