Histórias sem fim
2 Invisible
Notas iniciais
Olá, me chamo Max e irei contar minha breve história.
Nasci em 15 de agosto de 1999, na Louisiana. Meu pais são pessoas adoráveis, tenho vários amigos e amo ir ao colégio todos os dias. Bem, nem tudo é verdade, mas vamos por partes. Há 2 anos vinha lutando contra uma doença rara que é conhecida como ‘Doença de Coats’, ela atinge a visão prejudicando o desenvolvimento dos vasos sanguíneos e algumas coisas que eu nunca entendi bem, por esse motivo eu não frequentava o colégio, estudei esses dois anos e meio em casa. Não irei dizer que é de um tudo ruim, pois eu acordava tarde, quando não estava me sentindo bem ia pra TV assistir a filmes e comer pipoca, mas sentia falta de muitas coisas que não poderia ter a não ser que fosse pra um colégio de verdade, amigos. Bem, eu não tinha amigos, sempre fui muito tímido e isso fechou muitas portas na hora de me comunicar com os meninos do meu bairro, por isso eles eram apenas ‘vizinhos’ e tenho certeza que me tinham como o estranho do bairro. Tinha uma amiga chamada Gina, era estudava comigo no meu antigo colégio, antes de eu parar para me tratar, mas depois que eu sai perdemos o contato. Mamãe me disse uma vez que ela tinha ido pra outro estado, o pai dela tinha recebido uma oferta de trabalho longe e foi embora.
Bem, agora que resumir meu passado, está na hora de irmos para o futuro. Tenho 14 anos, sou magro, cabelos pretos, lisos, olhos castanhos claros, pele branca, não muito alto e uso óculos. Digamos que eu não sou a pessoa mais atraente do mundo, mas levo a vida como posso. Depois desse tempo afastado do colégio decidir que era hora de tentar novamente e encarrar o colégio, quero contato, acordar cedo, caminhar até o colégio e quem sabe fazer amigos.
Bem, era 14 de fevereiro, meu primeiro dia de aula, bem, o primeiro dia de aula de todos. Acordei cedo como de costume (mamãe me ensinou a acordar cedo para que eu pudesse me responsabilizar por meus atos futuramente) me arrumei, tomei café da manhã e fui para o colégio, meu pai iria me deixar lá, apesar de que ele fica a 5 quadras da minha casa, não é problema nenhum ir andando. Chegando lá logo vi que estava lotado, afinal, era um grande colégio. Desci do carro e fui andando em direção a entrada, tinha pessoas de todos os tipos, branca, preta, de cabelos vermelhos, verdes, altas, magras, velhas, novas, enfim, era um mundo totalmente diferente. O corredor era enorme, maior que o da minha antiga escola, tinha armários para todos os lados e o corredor ainda se dividia em um + bem grande, onde no final de cada ponta tinha outro corredor cheios de portas, onde eram as salas. Enquanto caminhava notava um ou outro olhar mais nada de mais, continuei andando até ouvir no auto falante que ia ter comitê de boas-vindas no auditório central.
O auditório central era maior do que eu esperava, era provavelmente composto por umas 1000 cadeiras dispostas em fila igual cinema, em decrescente, fantástico. Sentei em uma cadeira próximo ao meio e esperei. Bem, foi uma chatice só. Eles falaram que era um prazer ter todos aqui, que é mais um ano de vitorias, blá, blá, blá. O mais interessante foi quando ele falou das atividades extracurriculares, esportes e eventos, como o baile de boas-vindas que seria dali a um mês. Até ai tudo bem, mas foi a partir disso que as coisas começaram a dar totalmente errado pra mim. Na hora de sair uma multidão se aglomerou no corredor do auditório, estava calor e muitos reclamavam da lentidão, foi ai que eu fui empurrado com muita força, acredito que não tenha sido de proposito, mas machucou legal, pois fui arremessado nas cadeiras a direita e bati as costas caindo no chão, meu óculos voou não sei pra onde e eu provavelmente gritei. Tentei me levantar mas não conseguir, só sentia as pessoas passando por mim como se eu fosse invisível e não me ajudarem, sem contar que eu estava praticamente cego, pois não enxergo nada sem os óculos. Tateei um pouco e conseguir acha-los, me levantei e curvado um pouco sai do auditório rumo a sala de aula.
Como tinha perdido bastante tempo, acabei chegando atrasado a minha primeira aula no meu primeiro dia no meu novo colégio, arg. Bati na porta da sala 115 e todos olharam pra mim, provavelmente corei na hora. A professora era uma senhora já, acho que tinha seus 40 e tantos, me deu bom dia e mandou eu entrar, mas não sem antes me dizer o nome e de onde eu vinha (colégio). Sentei em uma cadeira nos fundos e assistir a aula calado.
Era 14:30, hora do intervalo. Fui a cantina e escolhi meu lanche, coloquei uma maça e um pouco de purê e batatas, me virei e comecei a andar até uma cadeira em uma mesa que ainda estava vazia, pouco antes de chegar duas meninas passam correndo por mim e se sentam na mesa, alegando estar ocupada. O mesmo se repetiu para todas as mesas que eu tentava chegar. Eles apenas faziam de conta que eu não existia. Como não tive opção fui até um canto do pátio e no chão coloquei minha bandeja e comi, calado, observando enquanto eles riam, comiam, se divertia. Juro, pela primeira vez naquele dia, eu queria apenas desaparecer daquele lugar e nunca mais voltar.
E assim terminou o meu primeiro dia de aula, sem amigos, sem diversão e com um tombo nas costelas que ainda doí. Acho que não tive sorte, acho que acontece com algumas pessoas. Fui caminhando pra casa devagar enquanto no fundo o sol encobria meus passos. Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto, não estava afim de falar com ninguém, apenas de ficar sozinho. Mamãe veio mais tarde me chamar para jantar e perguntar como tinha sido meu primeiro dia de aula, eu não sei se foi o momento ou o fato de eu ser muito conectado com minha mãe, mas eu apenas a abracei e chorei em seu colo. Ela não perguntou mais nada.
No outro dia, eu não estava com o mesmo animo da manhã anterior, mas continue a fazer o ciclo café da manhã-escola que eu pretendia fazer o resto do ano. Hoje, decidir ir caminhando, não estava afim de chegar cedo e é bom para conhecer a vizinhança. E assim eu fui, caminhando, sozinho. Pude observar enquanto andava milhares de pessoas, um homem passeando com seu filho, a moça que estava correndo com fones de ouvidos, o casal apaixonado, o garoto e o seu cachorro e muitas pessoas indo para escola, mas o que mais me chamou a atenção e que eu era o único andando sozinho.
Cheguei no colégio e fui ao meu armário, tinha pego o cadeado no dia anterior e já poderia utilizar assim como a maioria das pessoas ali. Ele ficava no lado leste bem lá no fundo, acho que a preferência e pelos os que ficam no começo. Não me importo. Coloquei os livros que não ia usar lá e peguei o de ciências. Me dirigir para a sala de aula e antes que essa fosse vista três caras se colocou na minha frente me impedindo de passar, tentei dar a meia volta mas fui empurrado pro canto por um deles. Eles apenas zombaram de mim, dizendo que meus óculos pareciam quem nem os do ‘viadinho do Harry Potter’ e que meu cabelo era igual ao do Justin Biba e me falaram que eu até que era um viado apresentável e que qualquer dia desses dariam um trato em mim. Fiquei apavorado e não disse nada, apenas abaixei a cabeça e esperei calado. Depois de um tempo eles foram embora, mas não antes de revirarem minha mochila e pegarem o dinheiro do lanche. O mais incrível é que o corredor estava cheio e ninguém pareceu se importar comigo.
Assistir a aula tranquilamente no fundo da sala novamente, ninguém falava comigo e eu não tinha vontade de falar com ninguém. Na hora do almoço não esperei ser rejeitado em todas as mesas, apenas peguei minha bandeja e sentei no chão novamente, mas decidir me levantar e procurar outro lugar, pois os valentões que tinham me ameaçado estava vindo em minha direção e eu não estava afim de ter outro encontro amigável que nem aquele. Acabei parando em uma cabine no banheiro, de certo modo ali era o pior melhor lugar onde eu podia almoçar em paz.
Na hora da saída no saguão de entrada tinha umas meninas entregando panfletos e com placas de ‘Não ao Bulling’, no panfleto tinha dicas de como evitar e a quem procurar, além de um numero de contato com um nome escrito a caneta rosa ‘Laís’. Amassei e coloquei na mochila e fui pra casa.
E assim se passou a minha primeira semana, todos os dias indo comer no banheiro, todos os dias sendo ameaçado pelos valentões, todos os dias sentando no fundo da sala e todos os dias sem amigos. Acho que esse é o preço que você paga por não ir para o colégio na idade certa. Em um desses dias enquanto estava indo ao banheiro entrou um menino muito mais velho e não parava de olhar pra mim, ele tinha um olhar maligno e malicioso, tive medo e sair antes dele, mas agora sempre que encontro com ele em algum lugar, sinto como se ele me observasse, sei lá, acho que é só psicose da minha cabeça, ou talvez não. Não importa agora.
Passaram-se um mês, o baile e amanhã e eu não estou afim de ir, talvez seja porque levei uma surra semana passada porque disse que não ia dar o dinheiro do lanche e tentei correr. Isso tinha virado um costume, todos os dias quando eu chegava e ia pegar meu material em meu armário vinha um ou dois dos três valentões e me obrigavam a entregar o dinheiro do lanche, é claro que eu passei a esconder uma parte se não eu nunca comeria, mas mesmo assim isso estava enchendo o saco, até que esse dia tentei correr, um deles me puxou pela gola e eu caí no chão sentado, eles me puseram de pé e me deram um soco mudo no estomago, fiquei sem ar. Eles puseram os braços em volta do meu pescoço e me arrastaram para o banheiro, pediram o dinheiro de novo, me recusei de novo, levei um soco na boca, já estava quase começando a chorar e ameacei gritar, foi ai que eles me arrastaram para uma das cabines, abriram a tampa do vaso e mergulharam minha cabeça nele, tinha mijo e a agua estava totalmente amarela, um gosto amargo subiu pela minha boca, meu óculos caiu no chão e deu vontade de vomitar. Comecei a chorar e entreguei o dinheiro do lanche, mas não foi o bastante, levei um muro no estomago e um chute. Caí no chão e foi lá que fiquei o resto do dia. Quando cheguei em casa corri para o banheiro, tomei um banho bem tomado, não que adiantasse àquela altura, deitei na minha cama e chorei a noite inteira. O que eu tinha feito para merece aquilo?
Por esses motivos decidir não ir ao baile, seria apenas mais uma oportunidade para ser chocalhado que nem um bobo da corte. Decidir ficar em casa e estudar pra prova na segunda. Eu tinha começado a praticar voleibol, mas não estava gostando, tinha uns meninos que nunca me passavam a bola, a única hora que eu conseguia pegar nela era na hora do saque que era obrigatório para todos. Isso foi me entristecendo mais ainda.
Em um desses jogos de vôlei acabei batendo sem quere na boca de um colega do time, começou a sangrar e como é em um colégio, começou a encher de gente ao redor, o menino que se chama Lucas não pareceu se incomodar no começo, mas com a chegada de mais e mais pessoas e essas a incitarem por uma briga, dizendo que não era pra ele deixar barato, ele começou a me olhar de um jeito ameaçador. Eu realmente fiquei com medo, mas como o professor estava lá e disse que não tinha sido nada mais que um pequeno corte, o jogo continuava.
Passaram alguns dias, isso ocorreu na terça e na sexta teria outro jogo de vôlei. Confesso que nem me lembrava mais do acontecido, mas o Lucas sim, e quando se é influenciado por seus amigos, você pode cometer coisas terríveis. Bem, o jogo foi tranquilo, só que como a quadra é em céu aberto e tinha chovido durante a manhã, estava com algumas poças de lama na lateral, enquanto jogávamos, percebi que alguns dos jogadores do meu time tentavam de derrubar de modo a aparecer acidental, eles se seguravam em mim e me empurravam ou colocam o pé para mim cair, dito e feito, não demorou muito e plaft, caí na lama com tudo, não lembro muito mas sei que meu rosto de peito ficaram completamente melados de lama. O professor pediu para mim se retirar enquanto todos do meu time e do time inimigo, sem contar a plateia que era pouca riam da minha cara, ele disse que tinha um chuveiro no provador e que eu tomasse um banho e esperasse o fim do jogo. Fui tomar banho. O provador estava vazio e tomei meu banho tranquilamente, durante ele entraram alguns garotos e vieram em direção a parte dos chuveiros, sabendo exatamente o que procuravam apontaram pra mim e começaram a rir, disseram que como eu era muito brigão e que gostava de bater nos amigos dele, eu iria ter que pagar. Um deles (eram dois) pegou o celular e começou a apontar a câmera pra mim, enquanto me fotografava pelado, quando eu me liguei no que estavam fazendo era tarde demais, eles já estavam saindo. Troquei de roupas e fui pra casa, não sabia o que esperar, apenas esperei.
O que posso dizer que aconteceu? Apenas o pior dia da minha vida. Começou quando acordei, tomei meu café da manhã normalmente e segui para o colégio. Era uma manhã de segunda feira. No caminho já pude perceber algo estranho, todos que estavam indo para o colégio, todos mesmo, não paravam de olhar pra mim e rirem, sem se importar se eu estava gostando ou não. Pela primeira vez não me sentir tão invisível assim, apesar de querer.
Entrei no colégio e eles riam como tivessem dito a melhor piada do mundo, eu estava começando a ficar vermelho e com muita, muita vontade de sumir. Enquanto caminhava devagar para o meu armário um garoto me para e começa a tirar onde, falando ‘E ai, gostosinho, pronto pra brincar?’ em tom provocante, enquanto outros riam mais ainda, depois disso não pararam de chover piadas, ‘vem brincas aqui comigo’ ‘num é que ele é gato’ ‘viadinho’, até então eu não sabia o que tinha acontecido, até que vi colado em uma das paredes minha foto pelado com frases em balões, frases provocativas e que se alternavam por cartaz, não sei o que eu fiz, mas acho que sai correndo pelo colégio o mais rápido que pude, mas claro, alguém colocou o pé e eu caí com tudo, que nem uma bola de boliche, me levantei chorando e continuei correndo. Parei em uma sala com um cheiro forte e cabos de vassoura, era um armário pra ser mais exato, entrei, me abaixei e chorei o dia inteiro, enquanto ouvia do lado de fora o barulho de crianças sorridentes e de pessoas passando.
Na hora de ir embora esperei que praticamente ninguém mas no colégio estivesse ainda e fui embora, correndo e com a cabeça baixa para ninguém me ver. Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto, tranquei a porta e me joguei no chão. Me levantei alguns minutos depois, peguei um papel e uma caneta e chorando e então escrevi.
‘Olá mamãe e papai, eu sei que vocês estarão tristes quando lerem isso mais eu realmente não queria que fosse assim. Desde que comecei a estudar meu ‘amigos’ tem me tratado diferente, me xingando, me agredindo, me humilhando. Eu não sei o que fiz de errado e a alguns dias eu comecei a me queixar do porque eu ainda existir, assim como muitos deles insistem em dizer. Eu sou um fardo? Eu tenho certeza que sim, e hoje eu decidir acabar com isso, pois não quero trazer mais sofrimento para ninguém, e não quero sentir mais dor, isso doí, doí muito.
Espero que vocês fiquem bem e que nunca se esqueça de mim, eu sei que eu dei um pouco de trabalho mas eu sempre tentei ser o melhor filho do mundo, e eu tenho certeza que vocês foram os melhores pais dos mundo. Queria ter um irmãozinho para que ele pudesse reconfortar os corações de vocês, mas não tenho. Diga a vovó e ao vovô que eu amo muito eles e que queria comer os bolinhos dela mais uma vez, diga a ela pra deixar um pouco pra mim. Sobre meus amigos da escola, não diga nada a eles, eles são estrupidos demais para se importarem comigo. E por favor, deixem o Ted sempre comigo depois que eu me for.
Eu amo muito vocês. Me perdoem. Adeus.”
Depois disso esperei meus pais irem dormir. Quando era mais ou menos umas duas da manhã fui até o banheiro do corredor, abrir o armário e peguei uns três potes de comprimidos que encontrei. Levei para o meu quarto e tomei o máximo que conseguir, não sei para que era nem como eram, apenas tomei. Alguns minutos depois me deu um sono. Eu lembro de ter deitado, pensado na mamãe e no papai e dormido, mas não lembro de ter acordado.
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