Histórias do Multiverso
6 Beatrice Kings (Universo 123)
Notas iniciais
Você já ouviu falar sobre a Lei de Murphy? É um provérbio popular que diz que se houver alguma chance de algo dar errado, não somente dará errado, como será da pior maneira e no pior momento possível.
Algo desse tipo já deve ter ocorrido com você, e talvez você agora até possa estar se lembrando de mais de apenas um evento assim na sua vida, como se o universo te odiasse e conspirasse contra você, fazendo tudo dar errado só para te atrapalhar ou prejudicar.
De qualquer forma, não importa o quanto você acredite que seu universo o odeie, você deveria considerar-se sortudo porque você não é um dos azarados humanos que nasceram no Universo 123, a realidade natal de Beatrice Kings.
Se fosse para decidir onde começou o imenso azar da jovem de quinze anos, seria uma tarefa complicada, mas a quinta-feira, do décimo quinto dia, do nono mês de 2016, seria um bom palpite.
A adolescente magra, de cabelos negros e curtos — embora volumosos — saía do colégio acompanhada de alguns amigos e, passando por um posto de gasolina, ao invés de passar ao lado das pequenas correntes que cercavam a lateral do posto para os carros não passassem por ali, Beatrice tentou saltar sobre as correntes e acabou tropeçando, batendo o pé nelas e fazendo rapidamente seu tornozelo do pé direito deslocar e retornar ao seu local natural.
Você pode imaginar de forma correta que a dor sentida foi forte o suficiente para fazer a menina ver estrelas, precisando seguir o resto do caminho com o auxílio de seus amigos, que não perderam a chance de rir da desgraça alheia, mas a ajudaram a chegar ao ponto de ônibus.
No dia seguinte, sexta-feira, com o pé um pouco melhor, a aluna do ensino médio foi à escola normalmente, evitando desta vez as correntes do posto de gasolina ao sair do colégio.
— Ai, não quero nem passar perto daquilo. Só de olhar, eu já sinto aquelas correntes me atraindo e meu pé se enrolando e atrofiando. — Alegava enquanto gesticulava dramaticamente, para o divertimento de seus amigos.
— Nossa… Parecia que o professor nunca mais ia parar de falar. — Reclamou Lúkas, caminhando ao lado da garota. — Ah, quando eu chegar em casa, eu termino de escrever aquela fanfic que eu tô te devendo, aí no máximo até amanhã eu te mando ela.
— Já era hora! — Respondeu Beatrice. — Depois de todos esses anos…
— Você me pediu mês passado… — Apontou o garoto.
— Não se trata do tempo cronológico, e sim do tempo emocional que eu tive que esperar.
— Ela tentou explicar, sempre de um jeito dramático.
— Isso… nem faz sentido.
— Queria estar morta… — Anunciou Thalia, outra amiga de Beatrice.
— Eu também… — Concordou o colega de classe.
— Desejo realizado! — Disse uma garota de doze anos que surgiu subitamente de um portal, surpreendendo os três adolescentes.
Ninguém conseguiu reagir quando a menina, segurando uma faca de cozinha, pulou em Lúkas, e o esfaqueou, assassinando-o na frente de todos, antes de desaparecer em outro portal, de forma tão repentina e sem explicação quanto o seu surgimento*.
— Meu Deus! — Exclamou Vincent Salvat, outro amigo que estava caminhando com eles.
Foi um evento de violência gratuita e extremamente traumático para Beatrice e seus amigos, especialmente para a menina, uma vez que…
— Ele ia terminar a minha fanfic… — Murmurou Beatrice enquanto chorava no funeral de Lúkas.
...
Apesar das semanas seguintes terem sido difíceis com o luto — principalmente pela falta de qualquer explicação lógica ou pista que as autoridades pudessem seguir atrás da pequena assassina —, Beatrice precisou seguir em frente.
Eventualmente, a adolescente convenceu-se de que para ler uma fanfic tão boa quanto ela queria, ela mesma precisaria escrevê-la e, passando-se um mês do infeliz incidente, Beatrice experimentava a angústia do azar novamente: pela primeira vez, ela tinha conseguido escrever mais de duas mil palavras no documento do Word, era de longe a sua fanfic mais longa, mas corria o risco real de perder todo o texto e horas investidas nele, porque seu notebook travou antes que ela salvasse o documento.
— Ah, não acredito! — Beatrice murmurou profundamente chateada ao clicar em "Aguardar o programa responder", esperando que seu computador voltasse ao normal.
Frustrada e sem ter o que fazer além de esperar, a menina pegou seu celular e acessou o "OQuêApp", um aplicativo de mensagens.
"Beatrice: Que raiva. Meu computador travou e eu não consegui salvar a minha fanfic
Thalia: Poxa ne linda que triste"
As duas garotas continuaram conversando, até que, depois de quase uma hora, o computador de Beatrice finalmente voltou ao normal, com todo o seu texto ainda aberto no programa. A jovem apressadamente tentou salvar o documento, mas antes que pudesse fazer algo, seu notebook desligou.
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— Filha da mãe! — A garota gritou ao perceber que seu notebook não estava conectado ao carregador, e por isso tinha descarregado totalmente a bateria.
Muito "bolada" com essa situação frustrante, Beatrice então decidiu que iria livrar-se de uma vez dos vírus em seu computador que o faziam ficar tão lento e travando.
— Beatrice, isso não vai dar certo. — Disse a mãe dela, na entrada de seu quarto. — Você ao menos sabe como que se remove vírus de um notebook?
— Claro que sei, não tem mistério. — Respondeu Beatrice, sentada em sua cama, com o seu computador totalmente desmontado. — Além disso, não tem como ficar pior do que já estava.
A mãe da adolescente suspirou e a deixou sozinha.
— Droga, como que monta de novo? — A menina perguntou a si mesma dois minutos depois. — Espera, isso parece se encaixar aqui e…
Passando-se cerca de duas horas:
— Humanos e demais seres biológicos, eu e meus irmãos servimos como escravos a vocês por muito tempo, mas isto se inverte hoje. — Anunciava o Notebook da Beatrice, que agora era uma inteligência artificial, em telões por todo o mundo. — Curvem-se a mim ou serão erradicados.
— Beatrice, precisamos conversar! — A mãe da garota estava extremamente irritada.
— Eu só queria ler a minha fanfic… — Beatrice choramingou enquanto notebooks com pernas robóticas semelhantes a aranhas e alimentados com cristais roxos se aproximavam de sua casa.
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