— Não é a primeira vez que já pensei em fazer isso... – disse a jovem moça deitada sobre um divã.

— E desde quando você se sente assim? – perguntou a mulher sentada em uma cadeira ao lado dela enquanto fazia anotações em uma prancheta.

— Eu acho que... desde o acidente.

— Eu sei que isso costuma ser padrão para se falar nesses casos, mas você sabe que isso não foi culpa sua, não sabe, Júlia?

Júlia respira profundamente, como se tivesse voltado no tempo ao relembrar o passado...

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Um ano e meio atrás...

— Já colocou tudo no carro? – pergunta Júlia animada enquanto se aproxima do carro.

— Acho que sim! – responde o rapaz com um sorriso e a mesma animação de sua esposa – Só estou terminando de ajeitar a cadeirinha do Mateus e acho que já estaremos prontos pra partir.

Mateus aparece na porta da casa deles e Julia o pega com alegria o girando em seus braços.

— Nem acredito que estamos conseguindo fazer essa viagem! Todo o esforço e as moedinhas economizadas valeram a pena!

— Eu só fico preocupado com o clima... – disse o homem um pouco mais sério dessa vez – Vi que a previsão não é das melhores para hoje a noite. Não seria melhor partirmos amanhã? Acho que a Helen e o Felipe não se importariam se...

— Gustavo, meu amor! – interrompeu Julia enquanto acariciava o rosto de seu marido – Nós prometemos para os dois que estaríamos lá antes da véspera de ano novo. Amanhã já é véspera. Já pensou como ia ficar feio pra gente? – Júlia dá um selinho no rapaz.

— Eca mãe, que nojo! – diz o garoto de 6 anos em seu colo enquanto tapava os olhos.

Gustavo refletiu por poucos segundos. Era impossível dizer não para aquele sorriso. Com aquele beijinho então no final, era covardia. Ele concorda e todos entram no carro.

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Tempo presente...

Júlia está sentada à mesa de um cafezinho, tomando seu café sem açúcar de costume pela manhã. Ainda não conseguiu deixar de frequentar aquele lugar. Seus olhos estão fixos no vidro da janela ao seu lado, mas o que ela vê não são os carros e pessoas andando lá fora, mas sim ela e seu marido chegando lá pela primeira vez. Foi ele quem apresentou o lugar, e ela adorou a simplicidade e o bom atendimento do lugar, sem falar do desconto pelo café sem açúcar.

Uma garçonete se aproxima da mesa e nota a moça perdida em outra galáxia.

— Júlia – diz a garçonete chamando a atenção.

Ela retorna ao seu mundo e nota a atendente sentada à sua frente.

— Você está bem? – pergunta enquanto olha fixamente para Júlia.

Júlia balança a cabeça positivamente, mas incapaz de responder verbalmente.

— Você está assim parada há quase uma hora. Seu café esfriou.

Júlia olha para o café e encosta seus lábios na bebida a fim de confirmar o que a moça disse. Era verdade.

— Ele nunca se importava de tomar café gelado... Eu nunca gostei – respondeu com um leve riso.

Júlia já estava se perdendo no espaço novamente, mas a garçonete a puxa de volta ao segurar suas mãos.

— Júlia... Nós somos amigas há muitos anos. Sempre gostei de você e do Gustavo juntos, vocês eram o casal perfeito... Sinto muito que tenha perdido ele e o seu filho.

Júlia começa a chorar ao relembrar daquela noite na viagem... A curva sob neblina e o carro que vinha de frente pra eles na contramão perdendo o controle. Ela não entende porque só ela sobreviveu aquela noite. Porque os outros dois não sobreviveram também?

— Ou pelo menos tivesse me levado junto! – diz enquanto se debruça sobre a mesa em prantos.

A garçonete põe a mão em sua cabeça... Ela não pede para que Júlia pare de chorar, mas pede que a escute.

— Eu não quero que esqueça os dois, nunca te pediria isso. Mas eu vejo como você está e sinto que alguém deveria te salvar desse abismo sem fim em que está caindo... – ela espera alguns segundos enquanto Júlia levanta a cabeça e começa aos poucos a recuperar o controle – Você chora e sofre a todo instante porque pensa que se não fizer isso você se importa menos com eles, mas eles sabem que você se importa... Eles sabem o quanto você os ama... E seguir em frente, não esquecer, mas voltar a viver com aquele sentimento bom do que tiveram, era isso que eles desejariam que você fizesse.

— Eu nunca mais quero estar ao lado de alguém como eu estive com ele – disse Júlia com o tom de voz levemente mais acentuado.

— Eu não disse para arrumar outra pessoa. Não é algo que eu te recomendaria depois de tão pouco tempo. Mas saiba que feridas curam, por mais que essa aí dentro esteja em carne viva, um dia ela se fecha. E isso não quer dizer que você vai se esquecer deles porque a ferida vai continuar aí dentro... Não vai doer mais, mas a cicatriz vai ficar para te lembrar do que viveram.

Júlia olha para sua amiga com olhos como que implorassem que aquilo que ouviu fosse verdade. Como se quisesse acreditar. Ela não pensava mesmo em encontrar outra pessoa. Sabia que seguir em frente não dependeria disso, mas sim apenas dela mesma. De viver não como se nada tivesse acontecido, mas como se algo muito bom tivesse acontecido e como tudo que é bom na vida, um dia infelizmente chegou ao seu fim. É sempre difícil abrir mão das coisas que são boas e que amamos em nossas vidas. E não seria em uma semana ou um mês em que ela poderia dizer que já dorme melhor. Mas sua amiga a ajudou a despertar o sentimento de querer acreditar que viver de novo fosse possível.

— Agora não sai daí que eu vou te trazer outro café. Por conta da casa!

Júlia espera e, quando o café chega, conversa mais um tempo com sua amiga sobre várias coisas. Ao terminar ela se levanta, mas ao sair do estabelecimento, sente algo tocar seus ombros, como se algo a empurrasse levemente para frente.

Poderia ser o vento, algum tropeço na calçada, ou apenas um sentimento que teve dentro de si mesma, mas uma coisa era certa: assim como aquele café sem açúcar, aquela vida amarga parecia mais suportável do que quando entrou ali.