Histórias de um Tweet
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“Achei uma nota do Império russo no closet da minha mãe?” — @deputadajuicy
(Retweet): “A espiã russa PQP” — @edineiamacedorr
São Petersburgo, 1979. Eu estava na cafeteria próxima ao prédio do Jornal, havia passado mais de vinte minutos que o café estava depositado na minha mesa, e pelo tempo, o líquido já tinha se esfriado muito. Mas eu não tinha atenções para ele. Meus dedos reviraram a colherzinha na xícara, enquanto eu olhava de soslaio para um casal sentado próximo de mim, uns 5 metros, que ria com felicidade. Rir em meio ao caos do país, mas ali eles se permitiam. O homem usava um terno engomado e uma pasta depositada em seu colo com uma corrente atada ao pulso. A mulher ao lado, visivelmente desconfortável, ria para acompanhá-lo. Decidi levar a xícara aos lábios, e fiz uma careta ao sentir o café ralo e frio.
— Mantenha contato visual, Ptitsa — A voz escoou do comunicado em minha orelha esquerda, estridente, mas em som que somente eu podia ouvir.
— Estou fazendo isso, Intellekt — Respondi baixinho com os lábios escondidos pela xícara.
— Não se deixe distrair pelas pessoas na rua, pelos garçons, pelo casal. Foque na maleta. — A voz respondeu de volta.
Afirmei positivamente com a cabeça enquanto recostava as costas na cadeira, um braço passando pela alça da minha própria bolsa. Do alto, vi o franco-atirador — um pequeno pontinho preto oculto atrás de uma cortina de uma janela suja, no alto do prédio aos pedaços de frente a cafeteria. Os transeuntes passavam. Uma caminhonete apitou uma melodia metálicas do hino nacional, e meus olhos voltaram a atenção ao casal. Mas o homem da maleta já havia desaparecido.
— Merda! — Urrei em bom português, e me levantei da cadeira, correndo para a mesa onde estava o casal. Ainda podia ver os cabelos loiros da mulher ao vento, em pelo vento virando o beco atrás da mesa. Joguei algumas moedas para o garçon e me pus ao encalço dos meus alvos, eles não podiam escapar de jeito nenhum.
Minha mão já havia ido em direção da pistola guardada na bolsa, mas mantive ela oculta enquanto corria. A Inteligência zumbiu alguma ordem no comunicador e eu apenas ignorei, aos passos rápidos tentei alcançar a mulher até a encurralar em um beco sem saída. Ergui a arma e agarrei seu casaco em a mão livre. Seu rosto estava lívido como mármore e ela tremia erguendo os braços.
— Quietinha, não grite — Ordenei. — Para onde foi o homem que estava com você?
— Oh, tenha misericórdia! Eu tenho um filho pequeno em casa! — A loira guinchou e eu apenas repeti a ordem de forma mecânica. — Não posso, não sei! Juro, não sei! Quando dei por mim, ele já tinha me empurrado da cadeira e fiquei tão assustada que corri!
— Não grite! — Pus a mão na sua boca e o cano da pistola em sua testa. — Fale baixo. Agora me diga, quem e você e como você conhecia aquele homem e quem é ele. Depressa!
A mulher parecia tremer um pouco menos e abaixou os braços ao sentir a arma na pele. Ela balbuciou mais algumas palavras antes que eu olhasse para trás. Não havíamos sido seguidas, e o único barulho que se ouvia era a melodia ruidosa o hino nacional que vinha das caminhonetes.
— M-meu nome é Isadore. Isadore Tchekhov. Sou uma aeromoça da Flightex Linhas Aéreas — A loira disse com voz fraca. — Aquele homem, bem, juro por tudo que é mais sagrado, conheci hoje pela manhã, no avião de volta de São Petersburgo. Não sei o nome dele, errr… Kurzmin, algo assim. Ele me convidou para tomar um café quando aterrissamos, e bem, ele parece ser um homem rico, disse ser dono de fazendas e uma vinícola, que estava a caminho de Stalingrado para receber uma encomenda de itens de um curador de um museu, fiquei interessada nele, e… e…
— Muito bem — Eu disse e abaixei a pistola. Deixando-a livre, a mulher arfou como se um leão tivesse a soltado de seus dentes e escorregou para o chão, choramingando. Eu me agachei para ela, e vi algo em sua bolsa: uma nota. Era um papel timbrado, um típico papel-moeda, e tomei a liberdade e puxá-lo para mim. Tratava-se de uma cédula peculiar: era uma nota do Império russo, de 500 Rublos. Ergui a nota aos olhos dela.
— Onde conseguiu isto?
— Oh, ah, é dele! — Isadore Tchekhov balbuciou um tanto espantada, como se lembrasse da nota. — Ele me deu no avião, enquanto falava da sua coleção! Para ele não parecia nada, mas essas coisas do Império são tão raras, o governo nos obriga a detestar tudo sobre os Romanov e o Império! Eu pedi e ele me deu. Ah, pode ficar, por Cristo, não o quero mais!
A mulher tentou colocar-se em pé, tropeçando nos próprios saltos enquanto a agarrava a cerca atrás de suas costas com os dedos, desajeitada e correndo para longe de mim. Meus olhos ainda estavam fixados na nota quando um zumbido me despertou dos sentidos.
— Você vai deixar uma testemunha fugir — A voz estridente e masculina disse em meu ouvido. Suspirei, e guardei a arma na bolsa.
— Intellek, não adianta, ela não é nosso alvo, era apenas uma distração. Perdi o paradeiro do Curador, mas ao menos temos um nome agora. — Virei os calcanhares e caminhei de volta a estrada principal. — Pesquise por um tal de Kurzmin. Pode ser que o Curador tenha inventado este nome ao flertar com a aeromoça para ter a facilidade de carregar a mala consigo no voo de São Petersburgo, mas precisamos tentar qualquer pista.
— Positivo, Ptitsa.
(...)
Era noite, e um jovem cavalheiro se levantou da cadeira para me cumprimentar quando passei. Ele cheirava a perfume amadeirado, bem masculino, e tinha um forte sorriso estampado ao me ver. Sua mão direita estava agarrada a uma maleta, e a esquerda me indicava a cadeira, de modo que afrouxei as plumas do meu xale branco ao me sentar, ainda em contato visual com tão belo homem. Trajava um terno suit peculiar, com listras verticais cinzas e uma gravata vermelha. A roupa mais diferente que poderia se encontrar em um dos poucos restaurantes de São Petersburgo finos onde os “ricos” — ou seja, a parcela da população que não morria de fome nas ruas, podia apreciar uma refeição requintada.
— Aceita um cigarro? — O homem ofereceu e eu acenti, ele colocando o objeto em minha boca e trazendo a chama de um isqueiro de prata para perto. O isqueiro tinha entalhes curiosos, com um sol poente em sua lateral. O sol poente dos revolucionários criminosos da Dobrodetel.
Baforei uma lufada de nicotina e sorri para ele.
— Nós não não nos conhecemos, senhor — Disse para ele, acentuando o “senhor” em português claro.
— Oh, uma brasileira! Que alegria — Ele simulou e puxou minha mão enluvada para um beijo em seus lábios. — Fazia tempos que eu não vejo alguém da América Latina. Continente maravilhoso.
— O senhor me conhece?
— Ainda não tive esse prazer! — Ele riu. — Me chamo Alexei Kurzmin. Sou um “colecionador”, por assim dizer. — E colocou um cigarro em sua própria boca, acendendo-a também. Gesticulou para o garçon algo, sem nunca largar a maleta. — Estou em São Petersburgo à negócios. E a senhoria?
— Sou uma cantora lírica. — Eu disse com o tom mais gracioso que eu pude, enfatizando um sotaque. — Estou em uma turnê pela Europa pelo o Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
— Oh! Uma cantora! Brilhante! — Ele gracejos. — Diga-me, no Brasil ainda faz muito calor?
— Como um forno! — Ri e ele riu comigo.
— Que inveja! — O garçon trouxe um vinho e nos serviu, e Kurzmin levou uma taça para mim. — E qual seria o ar da sua graça, minha dama? Claro, uma mulher tão bela como você deve ter um nome igualmente muito belo. Você parece ser o tipo que para multidões só para apreciá-la.
— Muita gentileza sua, senhor Kurzmin. Eu me chamo…
“Vitoria Médici” A voz eletrônica sussurrou em meu ouvido.
— Vitória Médici.
As horas foram se passando muito lentamente, os músicos tocaram uma valsa e Kurzmin me convidou para uma dança, na qual eu aceitei. Brevemente ele se separou na maleta, mas sempre ficava de olho nela da pouco distância de sua cadeira, ao mesmo tempo que olhava para mim com um olhar galanteador e pervertido. Eu sorria e agradecia seus muitos elogios, quando falava dos meus cabelos negros, do meu vestido verde, dos meus lábios vermelhos. Tudo eram elogios sobre minha beleza e eu correspondia aos seus encantos, deixando-o acreditar em sua lábia. Não demorou para que após a sobremesa ele me convidasse para o seu apartamento. E tão rapidamente quanto o táxi podia, eu já me encontrava na porta de um quarto de hotel luxuoso para os padrões russo, de número 15.
— Fique à vontade, minha querida. Vou só trocar de roupa. — Ele disse ao abrir a porta para mim.
Ainda eu estava sorrindo quando fechou a porta do banheiro. Corri para as longas janelas francesas, vi na escuridão do vigésimo andar uma luz vermelha, de longe. Era o franco-atirador a postos. Me virei, e comecei a estudar o lugar: estava em uma saleta anexada a um bar, com quadros de arte na parede de surrealismo, alguns de Goya e outros artistas que eu não identifiquei. No chão tapetes persas e um sofá longo de cor cobre, no bar taças de Bourbon. Tateei um dos quadros, a procura de uma vazão. Ao lado uma estante de livros, e passei os dedos até tocar em um vão de cerca de 4 centímetros, ao lado de um volume velho de Tostói. Era uma tranca. A porta do banheiro se abriu.
— Gostaria de beber alguma coisa?
Kurzmin saiu do banheiro, trajado apenas com uma toalha na cintura, mostrando o peito nu e musculoso, secando os cabelos com os dedos e ainda segurando a maleta. Respondi que sim e ele se dirigiu para o bar, depositando a mala na madeira enquanto enchia um copo para mim de bebida. Eu o olhava, com os lábios mordidos. Me debrucei no bar, deixando o decote à mostra, sorrindo travessa para ele.
— As brasileiras são lindas mesmo. Quem sabe eu não visito o Brasil para comprar alguma peça de arte? — Kurzmin disse lentamente, bebericando seu próprio copo.
— Seria ótimo. Precisamos de mais cavalheiros como… você. — Respondi. Brindamos e me virei de volta para a extensão da sala.
Meus pés me levaram à enorme janela, vi de baixo os poucos transeuntes naquele horário. Mas foi com leve rubor que senti o gélido do cano em meu pescoço e abri o punho, deixando tanto o copo como o líquido alcoólico cair no chão. Fiz sinal de sensação imediata.
— Muito bem, gracinha. Agora vire-se devargazinho.
Obedeci. Meu alvo apontava um revólver Lupper P010, que brilhavam ainda do lustre apesar de antigo, e exibia marcas do sol negro em seu cano. Meus olhos correram de adrenalina pelo apartamento e mirei na minha bolsa. Minha própria arma ainda estava lá.
— Agora — Ele Kurzmin começou a passar a palma em meu corpo, procurando algo, revistando meu vestido curto das coxas até os seios, até agarraram meu pescoço e deslizar os dedos pelos meus longos cabelos. — Vai me dizer quem enviou você. Foi o governo Americano? É uma espiã britânica? Pois duvido que vou cair nesse seu sotaque falso sul-americano. Fale agora!
Abaixei os braços apesar dele ainda pontar a o Lupper para mim.
— Encontrei com Isadore Tchekov, a aeromoça que você flertou, e junto dela a nota de 500 Rublos. Tenho certeza que de onde veio a nota, há muito mais. Onde está o tesouro roubado do cofre do Kremlin, Kurzin?
— Então foi você que me seguiu do aeroporto até aquele café, não é? — A voz do homem se tornou ríspida, e por um momento perdeu a compostura rígida da abordagem. Ele segurou o Lupper com as duas mãos agora e aproximou mais o cano até tocar minha testa. Eu ainda mostrava uma expressão impassível.
— Responda! Quem te enviou?!
— A própria Intellekt russa. Mas já sabemos bem, quem você é. Você não é nenhum espião, Kurzmin. Nem ao menos um colecionador. E uma mula de artefatos da Segunda Guerra, ou melhor, um ladrão famoso. E agora, te encontramos.
— Não antes de que eu te mate. — Respondeu com um grito o homem e engatilhou a arma.
Antes que ele piscasse, chutei seus braços. O som da bala assobios o ambiente, mas o tiro acertou a janela. O barulho do vidro quebrando-se. Kurzmin uivou de dor, e tentou agarrar-me, mas eu já tinha me atirado para o sofá e pego minha própria arma da bolsa. Mirei nele. Com os olhos esbugalhados, o belo homem me olhava assustado.
— A senha da maleta. — Me limitei a dizer.
— Não…
— É simples, senhor Alexei Kurzmin. Você me dá a senha da maleta e eu pego o que tem dentro dela e desapareça tão rápido quanto você aquele café. Podemos fazer com que você cumpra seu regime como domiciliar, desde que, claro, compere com a Intetellek. — Sentei-me confortavelmente no sofá agora, cruzando minhas longas pernas para ele. Um misto de nuvem nos olhos do homem passaram, e um misto de horror com sedução parecia tomar seus sentidos. Ele ergueu os braços.
— Senhorita. Você mesma disse. Sou apenas uma mula. Eu mesmo não faço idéia do que tem naquela mala, que fui obrigado a carregar faz dois meses, em uma corrente, que eu só tiro para tomar banho.
— Acredito em você, benzinho. — Disse, ronronando. — Eu quero saber quem é o comprador.
— Não posso dizer.
— Vai me dizer. — Engatilhei a arma.
O tempo pareceu congelar. Não tinha a voz no comunicador da Intellekt me dando instruções, e eu sabia de no prédio em frente o atirador estava a postos, caso algo desse de errado. Mas Kurzmin não podia morrer antes de revelar o comprador e o que tinha na maleta, e como ela foi removida do Kremlin. O que antes parecia confusão, agora um misto de pânico tomou o belo e forte homem, e ele se ajoelhou no carpete. Eu ainda mirava entre seus olhos. Mesmo assim, sua voz estava firme quando disse:
— Eu só sei que o que tiver na mala, pode trazer uma guerra para os USA ou para a União Soviética, ou ambos. Eu estava esperando o contato de uma outra mulher para entregar a maleta. Só disso que eu sei!
— Eu sei também disso. — E rapidamente, atirei na válvula do umbral da janela, fazendo a cortina cair e cobrir a longa janela e atirando também na lâmpada do teto.
A sala ficou inteiramente escura subitamente, um umbral que mal se via qualquer coisa. Ouvir a respiração atordoada de Kurzmin e me levantei do sofá, indo rapidamente para ele. Pus um dedo em seus lábios trêmulos. Mesmo na escuridão, podia sentir seu olhar penetrado em mim e eu vi acima de sua cabeça a luz vermelha da mira do atirador, caçando por todos os lados a nossa localização. Aproximei a boca no ouvido de Kurzmin e assoprei sensualmente minhas palavras:
— Eu sou a mula. Sou uma dupla espiã. Estou aqui para levar a maleta. — E passando os dedos na sua pele suada, fiz dois toques da saudação secreta dos Dobrodetel em seu pescoço com três toques. Ele arfou. E na escuridão, de mãos dadas, corremos engatinhados para a saída, com a maleta nas mãos e vários Rublos nos nossos bolsos, agora na escadaria para o subsolo, onde meu carro nos esperava.
Era hora de irmos completar a missão, rumo ao Brasil.
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