Histórias da Ilha
1 A Lula Rancorosa
Existe um momento na vida de todo pinguim em que ele olha em volta e se pergunta: como é que eu fui parar aqui?
No meu caso, a resposta veio de cabeça pra baixo, amarrado pelo pé no mastro de um navio pirata, com um tentáculo do tamanho de uma casa passando tão perto do meu bico que eu senti o cheiro. Lula gigante, pra quem nunca teve o desprazer, cheira a maresia e a mau humor.
E o pensamento que me atravessou ali, girando na ponta da corda enquanto um pirata corria do tentáculo com a elegância de uma mesa sendo empurrada morro abaixo, não foi vou morrer. Foi pior:
por que é que eu fui acenar?
A culpa, como quase tudo de errado na minha vida até ali, era de uma ostra.
***
Bom. Antes, eu morava sozinho num rochedo cinza no meio do mar. Tão sem graça que nem nome tinha. Os meus dias eram todos iguais, e o evento da semana era o vento mudar de direção. A minha única vizinha era uma ostra, na poça ao lado, e foi com ela que eu peguei o costume mais inútil da minha vida: acenar.
Bom dia, ostra. Boa noite, ostra.
A ostra nunca acenou de volta. Ostra não tem braço. Eu sabia disso, mas acenava mesmo assim. Por dois anos? É. Dois anos.
Até que, num dia qualquer, uma vela preta apareceu no horizonte. E eu, por puro hábito de quem só tinha uma ostra pra cumprimentar, fiz a coisa mais idiota e mais inteligente da minha vida ao mesmo tempo:
Acenei.
O navio atracou na minha pedra com uma manobra que eu hoje sei ser proibida em qualquer porto decente. Bateu de lado e parou no susto. De dentro desceu um pinguim vermelho, de barba preta, chapéu velho e a voz mais alta que eu já ouvi sair de um ser vivo. No ombro dele vinha equilibrada uma bolinha vermelha e peluda, de olhos enormes, um puffle chamado Yaar, que me encarou com muito mais educação que o dono.
— ARRR! Me diz uma coisa, garoto! — gritou, sem se apresentar. — Esse rochedo tem algum tesouro?
— Não.
— Comida boa?
— Não.
— Alguma coisa interessante?
— Eu. E olhe lá.
Ele olhou pra minha pedra inteira, o que levou meio segundo, porque não tinha muito o que olhar. Depois me encarou:
— Garoto… você tá preso aqui ou escolheu isso?
Eu abri o bico e não saiu nada, porque, sinceramente, nunca tinha me ocorrido que havia diferença. O pirata sorriu daquele jeito de quem acabou de adotar um problema.
— VOU PARA A ILHA — berrou, já virando as costas. — Lugar onde acontece tanta coisa ao mesmo tempo que ninguém consegue ficar entediado nem pagando. Tenho vaga no convés. Paga nada, come mal, trabalha muito.
— E por que eu aceitaria isso?
Ele apontou pra minha pedra.
— Porque a alternativa é isso.
Eu subi naquele navio tão rápido que esqueci de olhar pra trás. Até hoje não olhei.
Tá bom. Tá bom. Olhei uma vez. Do convés, pra acenar pra ostra. Ela não acenou de volta. Claro. Mas, pela primeira vez em dois anos, eu não levei pro pessoal.
***
Descobri no primeiro dia que navio é basicamente um monte de cordas e madeira que querem a sua morte. Puxei algo errado: a vela caiu. Puxei a outra: a vela subiu comigo junto, e eu fiquei pendurado feito uma bandeira enquanto o Rockhopper — nome que ele me disse depois de contar toda a história da sua vida e como ele já havia navegado por todo o sete mares — ria sentado no chão, batendo a nadadeira na madeira, sem mover um músculo pra me ajudar.
— Você é o pior marujo da história do mar! KAUKUAKUA.
— Me DESCE daqui, ô barbudo!
— Marujo de verdade desce sozinho! E você já é marujo, não foi o que me disse ontem?
Bufei.
Desci sozinho. Caindo, mas desci.
À noite ele abriu a carga do porão pra comemorar minha promoção de "desastre ambulante" pra "quase tripulante": dezenas de barris de refrigerante rosa, doce que nem mel, gaseificado que nem vulcão. Bebida oficial da Ilha que ele estava me levando, e contrabando favorito de todo pirata que se preze.
— Regra número um, rapaz — disse, me passando um caneco. — Nunca, JAMAIS, chacoalha o barril. Isso tem mais pressão que gêiser. Já vi barril chacoalhado arrancar escotilha.
Guarda essa informação.
***
A lula apareceu no terceiro dia, bem na hora em que tudo ia bem demais.
Primeiro foi o cheiro. Aquele mesmo: maresia e mau humor. Depois o mar do lado do navio parou de se comportar como mar. Ficou liso. Depois borbulhou. Depois inchou, devagar, como se alguém estivesse enchendo uma bexiga gigante bem debaixo de nós. E o navio parou.
— Ah, não — disse o Rockhopper, e a barba dele murchou junto com o sorriso.
— "Ah, não" o quê?! — perguntei, com aquela calma gostosa de quem ainda não viu o problema.
Aí eu vi o problema.
Subiu um tentáculo, do tamanho de uma casa, grosso como o mastro, cheio de ventosas e se enroscou no navio com a delicadeza de quem vai esmagar alguma coisa. Subiu outro. E então, bem perto demais, surgiu um PAR DE OLHOS enormes, que varreu o convés, passou pelo Rockhopper, passou por mim… e voltou pra mim, com aquela cara de quem abre a geladeira de madrugada e encontra exatamente o que queria.
Eu nunca tinha sido olhado como sobremesa antes. Não recomendo.
O Yaar, esperto, se enfiou dentro do chapéu do Rockhopper na mesma hora. Puffle é pequeno, mas não é bobo.
— ELA TEM IMPLICÂNCIA PESSOAL COM ESSE NAVIO! — o Rockhopper gritou, disparando pro leme e derrapando no convés molhado de barriga.
Pisquei.
— Foi um mal-entendido! Há quinze anos! Envolveu a minha âncora e a cabeça dela! EU JÁ PEDI DESCULPA! — uma pausa, enquanto um tentáculo arrancava uma tábua do convés e jogava no mar com desprezo. — DUAS VEZES!
— E não adiantou?!
— LULA NÃO PERDOA.
O resto virou caos. Foi tentáculo varrendo o convés, madeira rangendo igual porta de casa mal-assombrada, o Rockhopper agarrado no leme berrando ofensas marítimas que eu nem sabia que existiam, e eu, numa manobra que eu adoraria registrar oficialmente como "ato heroico em combate", fui catapultado pra cima e parei pendurado de cabeça pra baixo no mastro, balançando feito enfeite de árvore de Natal.
Que é exatamente onde essa história começou.
E foi de lá, de ponta-cabeça, com todo o sangue do corpo me escorrendo pra cabeça e o mundo de pernas pro ar, que eu enxerguei a única coisa que valia a pena enxergar: a escotilha do porão escancarada, e os barris de refrigerante rosa rolando soltos lá dentro, batendo de parede em parede a cada sacudida do navio. Batendo. Chacoalhando. Pressurizando.
A regra número um do Rockhopper acendeu na minha cabeça que nem letreiro.
— ROCK! OS BARRIS! APONTA OS BARRIS PRA ELA!
Um segundo de silêncio, o único silêncio daquela tarde inteira. Eu VI a ideia entrar pelo ouvido do pirata e acender ele todo por dentro, igual lampião.
— Garoto — ele gritou, já se jogando escada abaixo rumo ao porão —, se isso der certo, eu te dou metade do navio!
Bom.
Ele alinhou três barris bem chacoalhados na lateral do navio, mirou no olhão da nossa “colega de quarto” com a língua de fora feito quem vai dar a tacada decisiva na sinuca, e estourou as rolhas com uma pisada só.
Eu não tenho palavras à altura pra descrever o que três barris de refrigerante rosa pressurizado fazem com a dignidade de uma lula gigante. Mas foi feio. Tão feio que largou o navio de uma vez só e afundou pro abismo grudenta, espumando rosa, cheirando a festa de aniversário, pra nunca mais na vida encostar num casco marrom.
O navio disparou solto e eu continuava pendurado no mastro, girando devagar, pingando refrigerante.
— Metade do navio é meu — lembrei, lá de cima.
— Eu falei se der certo. Deu foi é MARAVILHOSO. Maravilhoso anula o acordo, é cláusula três de mar.
— Isso não existe.
— Existe sim. Tá escrito no contrato que eu não tenho.
Piratas.
***
A Ilha apareceu na manhã seguinte, saindo da neblina como quem abre uma porta.
Neve, uma montanha, um farol piscando, fumaça de chaminé e barulho bom: música, risada, centenas de pinguins deslizando morro abaixo e vivendo tudo ao mesmo tempo. Fiquei na proa de bico aberto, ainda meio grudento de refrigerante. O Yaar saltou na neve antes de todo mundo, quicando feito quem já estava em casa.
— Pode falar — disse o Rockhopper, orgulhoso. — Eu não prometi demais, prometi?
— Tem lula aqui?
— Não.
— Então é perfeito.
Atracamos, e tinha uma pequena multidão esperando. O navio do Rockhopper chegando é evento, isso eu aprenderia depois. Desci a prancha de pernas bambas, e a primeira coisa que me perguntaram, antes do nome, antes de qualquer coisa, foi:
— Por que você tá cheirando refrigerante?
E o Rockhopper, atrás de mim, gritou pra praia inteira:
— PERGUNTA PRA LULA! — e desabou na gargalhada de novo.
Eu fiquei. Claro que fiquei.
De vez em quando o Rockhopper me pergunta, meio cutucando, se eu não sinto falta do meu rochedo. Do sossego. Do silêncio de dois anos sem ninguém pra responder um aceno.
Aí eu olho pra Ilha, a bagunça, a neve, o cheiro de refrigerante que até hoje não saiu de mim, e lá no fundo do mar uma lula provavelmente remoendo a vingança e respondo a única coisa que faz sentido:
— Que pedra?
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