Histórias Cruzadas

44 Uma difícil decisão


Voltamos para casa, tentando disfarçar todo aquele turbilhão de sentimentos devastadores que nos envolviam, sem saber por quanto tempo conseguiríamos esconder a verdade. Eu estava com muito medo do que o futuro me reservava e, principalmente, de não ter futuro, imaginava o que minha ausência significaria nas vidas dos meus filhos e de Jean-Pierre. Cecília era praticamente um bebê e David só tinha a mim, mesmo que Jean-Pierre gostasse muito dele, não era o seu pai, ainda tinha os meus pais que ficariam destruídos. E Jean-Pierre, tivemos tão pouco tempo realmente juntos, tudo não podia acabar assim dessa maneira tão terrível.

Quando o resultado definitivo da biópsia saiu, só confirmando o que já sabíamos, destruindo a nossa última esperança, fomos a um especialista para começarmos o tratamento, ainda não tinha coragem para contar ao meu filho.

Não precisei esperar muito tempo, pois David percebeu que algo estranho estava acontecendo, talvez, na minha expressão perdida ou pelas repentinas mudanças de humor de Jean-Pierre e seu ar soturno, e meu filho veio me procurar. Naquela manhã monótona, estava sentada no meu pequeno escritório, diante da mesa de desenho, quieta, olhando através da janela para as flores vermelhas das buganvílias, juntos ao muro da nossa casa, balançando com a suave brisa, observando minha vizinha, Celine, regressando do seu passeio matinal diário, com seu marido, ambos têm cabeças grisalhos, andavam com passos lentos, de braços dados, aquela cena me deu uma certa melancolia daquilo que não poderia ter com Jean-Pierre, imaginando se não veria meus filhos crescerem, quando ouvi a porta abrir, virei para trás e deparei com David, parado, me fitando de um modo estranho, enxerguei as dúvidas que o afligiam no seu olhar. Algumas vezes, quando eu olhava para o meu filho reconhecia o seu pai, Olivier, era como uma breve viagem no tempo, a volta a minha adolescência, e isso sempre me assustava, era como a presença vivida de um fantasma, que nunca me deixaria esquecer.

— O que foi, meu filho? — Ele permaneceu calado, seus olhos fixos em mim, percebi o seu medo, decidindo como começar. – Aconteceu algo errado?

Ele deu alguns passos para frente na minha direção, parou diante a mim, encarando-me.

— Mãe... – Incentivei-o com o olhar. – Você e Jean Pierre vão se separar?

— Não! Por que você pensou nisso, meu filho?

— Não sei – Deu de ombros. – Vocês dois estão muito esquisitos, ultimamente.

Percebi que aquela era a oportunidade para contar tudo o que estava acontecendo a ele.

— Não há nada de errado entre mim e Jean-Pierre – Senti sua tensão nele se esvair. – Porém... David, eu estou doente.

Ele arregalou os olhos, assustado, a verdade era pior do que esperava.

— Doente? Como assim doente?!

— Descobri um problema no meu pulmão.

— E é grave?

— Um pouco.

— Você vai morrer? – ele perguntou, tentando conter o choro.

— Não, meu filho. Só que terei que fazer um tratamento longo e difícil.

David ficou ali sem saber o que fazer, então, fui até ele e o envolvi em um abraço, como há muito não fazia. Nos meus braços, ele voltou a ser o meu menininho e choramos juntos.

Comecei o tratamento de quimioterapia, uma vez por semana ia ao hospital, com o passar do tempo, fiquei muito magra, fraca e meus cabelos caíram, deixando grandes falhas até ficar completamente careca, por isso, cobria minha cabeça com lenços alegres e coloridos para disfarçar minha condição, principalmente, para mim mesma ao me olhar no espelho. As sessões do medicamento me deixavam zonza, sem forças e muito enjoada. Na Cecília não entendia o que estava acontecendo comigo, na sua idade não compreendia porque sua mãe não brincava mais com ela, pois eu passava uma boa parte do dia na cama, tinha dificuldade de me alimentar. Jean-Pierre, Francine e até minha vizinha Celine cuidavam de mim. Foi nessa época que David passou a ficar longos períodos fora de casa, quase não o via mais, ele estava fugindo de tudo aquilo, assustado. Logo, depois começaram os problemas.

A primeira vez, foi um telefone da escola, a supervisora pedia para que eu fosse até lá, pois, David havia brigado com outros garotos, um deles acabou se machucando feio, cortando o queixo, precisou levar pontos. Mesmo não estando muito bem, consegui ir até o colégio para conversar com a diretora. Notei sua expressão de espanto e pena ao ver minha aparência macilenta e esquálida.

— Eu lamento ter pedido que viesse até aqui, mas precisamos conversar sobre o atual comportamento do seu filho, com brigas, fugas da escola, foi pego fumando escondido, anda displicente nas aulas. — Após um minucioso relatório do mau comportamento de David, o que me deixou assombrada, porque ele nunca havia agido daquele modo.- Se não houver mudanças nossas atitudes terão de ser drásticas.

— Senhora Margot, meu filho está passando por uma fase bastante ruim, por causa da minha doença e toda incerteza e insegura que essa situação traz.

— Eu entendo, senhora Laurent, sei como deve ser difícil, mas, também, entenda a nossa situação, não podemos aceitar esse tipo de comportamento, poderá ser mal interpretado pelos outros alunos.

— Eu e meu marido conversaremos com ele,

— Desculpe-me a pergunta, senhora Laurent. Mas, seu marido não é o pai biológico de David?

— Não, mas ele o adotou quando nos casamos.

— David nunca soube do seu verdadeiro pai? — Sacudi a cabeça em negação.

Sai daquela reunião muito pior do que eu entrei, imaginando se deveria contar para David sobre o seu verdadeiro pai, ou talvez, contar para Olivier sobre a existência de um filho, imaginei como ele reagiria àquela notícia, depois de tanto tempo, quando saiu da minha vida, sem olhar para trás.

Quando regressei para casa, Jean-Pierre estava lá, preocupado com minha saída, achei melhor relatar a ele sobre a razão daquela reunião.

— Eu preciso ter uma conversa muito séria com aquele garoto – Jean-Pierre não conseguia disfarçar sua irritação.

— Não, acho que não devemos pressioná-lo, ele já está sofrendo muito com essa situação.

— Você vai fazer com David, o mesmo que fez com Olivier?

— Como assim?

— Deixar que fuja das suas responsabilidades.

— Isso não é verdade! Ter o filho foi opção minha. E David é apenas uma criança.

— David é só um pouco mais novo do que você era quando o teve.

— Você está sendo cruel, Jean-Pierre.

Não tinha forças para discutir.

— Não, eu só não quero que a história se repita, que você sofra pelo filho como sofreu pelo pai.

— É diferente, porque David é meu filho, minha responsabilidade.

Sabia que Jean-Pierre tinha razão, mas ao mesmo tempo, não tinha ideia de como proceder, estava convicta que David fugia para o mundo exterior, para não enfrentar os problemas de dentro de casa, como seu pai fez, fugindo quando teve medo.

Uma noite durante o jantar, David chegou atrasado, não disse nada, somente sentou-se à mesa em silêncio, cabeça baixa para o prato a sua frente. Ele andava muito mais calado ultimamente.

O silêncio da mesa foi quebrado, quando notei algo diferente no seu rosto.

— David, olhe para mim – pedi com firmeza, ele hesitou. – David! – Ele ergueu a cabeça lentamente. – O que é isso na sua sobrancelha?

— Um piercing – Ele deu de ombros.

— Como conseguiu isso? – Jean-Pierre indagou, com um misto de preocupação e irritação.

— Um amigo colocou em mim.

— Você não sabe que é perigoso fazer isso sem cuidado! – o médico falou, David revirou os olhos.

— Foi numa boa!

Jean-Pierre ia dizer algo mais, contudo eu dei um leve aperto na sua mão e ele se calou, inconformado.

Foi nessa mesma noite que tomei uma decisão, entrei na internet e fiz uma rápida pesquisa sobre Olivier, pois nesses anos todos, eu me obriguei a não fazer isso, tenho que confessar que, curiosa, caí em tentação uma ou duas vezes, descobri que ele se formará e, atualmente, trabalhava para uma grande empresa de investimento, parecia bem de vida, não era casado nem tinha filhos, mas não estava interessada no seu dinheiro. Em seguida, iniciei uma longa carta para ele, contando a respeito da minha decisão de ter o nosso bebê e tudo que aconteceu depois que ele partiu, e depois de todo esse tempo, eu o perdoava por ter sido abandonada, pedia para ajudar Jean-Pierre, na criação de David caso algo acontecesse comigo, não porque duvidasse do meu marido, mas achava importante que pai e filho se conhecessem. Não sabia como nem quando entregaria essa carta, possivelmente, eu nunca saberia.