Histórias Cruzadas

3 Não posso acreditar


— O senhor está em Paris?! – Minha voz saiu aguda e esganiçada.

— Sim, tinha um negócio aqui, por isso vim direto – Ele me explica com uma velada rispidez, parecia estar perdendo a paciência comigo. – Mas, em alguns dias estarei de volta a Londres.

— Alguns dias?! Eu não tenho alguns dias! – Quase gritei ao telefone, seguiu-se um profundo silêncio, pensei que ele houvesse desligado.

— Senhorita, não sei como poderei ajudá-la. Estarei de volta a Londres em cinco dias. – Sua voz soou profunda e soturna.

— Eu também não sei. Acho que terei que esperar – Eu me esforçava para não chorar. – Obrigada. Boa noite – desliguei, zonza.

Respirei fundo e disquei o número de Samuel, já que deveria estar acordado, pois a diferença de fuso horário era de duas horas para menos. Ele me atendeu com um tom alegre, eu fingi, da melhor maneira possível, que estava tudo bem. Contei-lhe sobre a minha viagem, claro que não falei nada a respeito do anel desaparecido, e ele me falou do progresso do seu trabalho, nos despedimos e desligamos, depois, fui tomar um banho, mesmo a água quente não me relaxou. E, deitada na cama, revirei por um longo tempo, insone, imaginando todas as possibilidades, desde as mais otimistas, onde tudo acabaria bem e eu teria o meu anel de volta, até a mais terrivelmente pessimista, Samuel descobria o meu erro, me odiaria e me abandonaria.

Quando o dia começou a raiar, ainda sem conseguir pregar os olhos, tomei uma decisão radical. Eu iria à Paris para pôr fim definitivamente na minha agonia. Poderia ir de avião, seriam apenas algumas horas de viagem, valeria a pena para ter minha paz de espírito de volta. Se ocorresse tudo bem cedo, deveria estar de volta à noite, para o jantar com a família dos noivos e não precisaria de levar bagagem.

Pulei ao amanhecer da cama, determinada. Logo bem cedo, já estava na recepção do hotel, arrastando a mala de mão do senhor Thomas atrás de mim, pegando todas as informações que precisava com a simpática atendente, que me orientou da melhor maneira possível como chegar a Paris. Então, comecei minha empreitada, primeiro de metrô e trem até o aeroporto. Não foi difícil conseguir um voo para Paris e antes das nove horas da manhã, pisava em solo francês. Novamente, de trem e metrô, cheguei ao meu destino, quando sai para a luz do dia, sob uma constante chuva fina, com o céu nublado, um tanto ansiosa de como seria recebida e arrependida de não ter telefonado antes, pois, quem sabe, ele poderia não estar no hotel, mas já havia chegado até ali, e não tinha mais volta. Na recepção do hotel, informei-me sobre o senhor Olivier Thomas.

— Sim, ele é nosso hóspede – o rapaz confirmou. – Posso telefonar para o quarto dele agora, se a senhorita quiser? – ele questionou e eu confirmei com a cabeça. Após vários toques, minha respiração ficou em suspense até ele recolar o fone no gancho. – Infelizmente, o senhor Thomas não atende, talvez, ele não esteja no seu quarto nesse momento, senhorita – finalizou, e meu coração afundou em desespero.

— Eu posso esperar por ele aqui? – Apesar de não ter a mínima ideia de quanto tempo ele poderia demorar não queria perder a viagem. Virei-me para ir em direção a um dos sofás da recepção e quase esbarrei em um homem alto, bem vestido e bonito, que saía do elevador, usando um elegante terno e gravata escuros. Olhamos um para o outro, por alguns instantes, aí, eu o reconheci do avião, apesar da mudança radical das roupas, os cabelos bem penteados e a barba feita, fazendo-o parecer uma outra pessoa.

— Senhor Olivier Thomas?

— Sim – ele respondeu, percebi no seu olhar que ele me reconheceu, também.

— Sou Gisele Fabbrini, a dona da outra mala. Eu trouxe a sua para desfazermos a trocar – disse, animada. Ele me fitou com indiferença com seus olhos azuis.

— Lamento, senhorita, mas, agora, tenho um compromisso para qual já estou bastante atrasado – ele falou, sem demostrar emoção na voz.

— Só serão apenas alguns minutos, senhor Thomas – insisti, um tanto exaltada.

— Já disse que estou muito atrasado, senhorita. Eu não posso agora, fica para mais tarde – ele continuou andando em direção a saída e eu andei ao lado dele, na esperança que ele se apiedasse de mim e muda-se de ideia.

Considerei que, pelos seus trajes e seu semblante, deveria ser compromisso importante, como uma reunião de negócios ou algo parecido.

— Mais tarde?! Eu preciso voltar para Londres! – quase gritei, ele parou, olhou para mim com um ar resignado e deu um longo suspiro, imaginei que tivesse o convencido a voltar atrás.

— Vamos fazer o seguinte, senhorita Fabbrini, venha comigo, farei o que preciso fazer e quando voltarmos, desfazemos a troca. Eu, realmente, não posso me atrasar mais – Ele estava irredutível, seu olhar era duro e inflexível, assim percebi que seria melhor não o perder de vista até ter minha mala e meu anel de volta.

— Tudo bem – concordei, conformada.

Deixamos a outra mala, no guarda-volumes, logo na entrada do hotel, e ganhamos a rua. Para minha alegria, a chuva fina cessara, mesmo assim, o céu continuava nublado e cinzento. Tomamos um táxi na rua, bem na entrada do hotel, não entendi o que ele disse ao motorista, um muro de silêncio constrangedor se instalou entre nós, eu não sabia o que falar, sem coragem de perguntar para onde iriamos.

O meu silencioso acompanhante olhava fixamente para a janela ao seu lado, mas não admirava a paisagem que passava rapidamente por nós, perdido em seus pensamentos, ignorando-me totalmente. Aquela situação me deixava muito desconfortável, enquanto o táxi cruzava por muitas ruas de Paris, rumo ao seu destino desconhecido para mim.

Eu nunca estive na tão famosa cidade-luz antes, então aproveitei cada migalha de paisagem que conseguia capturar através da janela ao meu lado, parecia uma criança deslumbrada com a visão das pontes, construções e monumentos, virando a cabeça para todos os lados para não deixar nada escapar. Foi quando o meu vizinho de banco me notou, olhando-me pelos cantos dos olhos com uma expressão estranha.

— Você nunca esteve em Paris antes? – Enfim, ele indagou, sem emoção na voz.

— Não – reiterei sacudindo a cabeça

— É uma bela cidade – declarou, em um suspiro, em tom nostálgico. – Eu morei aqui, há muitos anos atrás – confidenciou.

Silêncio.

— Aquele anel deve ser muito importante para você vim correndo até aqui, tão apressada – ele considerou, com a voz séria. Epa! Então, ele andou xeretando a minha mala e encontrou o anel, mas não podia reclamar pois eu fiz o mesmo com a mala dele.

— Sim, é o meu anel de noivado – revelei. – Tive medo de perdê-lo, se isso acontecesse, não saberia o que dizer para o meu noivo.

— Se ele a ama, com certeza, compreenderia.

— Eu não sei, não quero testar essa hipótese – retruquei, com um sorriso triste.

— Por que ele não está aqui com você? – Ele estava sendo muito enxerido.

— Ele está ocupado com o trabalho, eu vim para o casamento de uma amiga em Londres. – Estava me explicando demais.

— Deveríamos ficar a maior parte do tempo junto das pessoas que amamos, para não nos arrependemos depois – ele refletiu e estava achando aquela conversa um tanto lúgubre demais para mim.

— Quando dá! – rebati, dando de ombros.

Foi quando o carro parou, o motorista avisou que chegamos ao nosso destino e o senhor Thomas pagou a corrida, e eu observava a rua de paralelepípedos silenciosa e quase deserta, não havia nenhum edifício em volta, para um possível encontro de negócios.

— Que lugar é esse? – indaguei, quando saiamos do carro, mas minha pergunta foi respondida quando vi o portão de entrada. – Isso aqui é um cemitério! – Não podia acreditar.

— Sim, o cemitério de Montparmasse – explicou de modo casual.

— E o que estamos fazendo aqui? – Estava totalmente pasma.

— O que se pode fazer em um cemitério? Estamos indo a um enterro – ele me comunicou sem alterar a voz, passando pelo portão.