Histórias Cruzadas

8 Eu só preciso saber


— Calma, Jean-Pierre! – Olivier falou com serenidade e o homem, à sua frente, relaxou um pouco mais, assim como eu que, também, estava em estado de alerta, pronta para detê-lo, caso quisesse agredir novamente o dono da casa. – Eu vim em paz, quero apenas conversar. – Felizmente, eles falavam em uma língua que podia entender.

— Depois de dezesseis anos, acho que está um pouco tarde para isso, Olivier – a voz e o olhar de Jean Pierre eram duros e acusadores.

— Eu sei, mas não posso voltar o tempo atrás, contudo, posso tentar ajudar com o futuro de David.

Por alguns segundos, Jean-Pierre se calou, provavelmente, julgando o que deveria fazer naquele momento, aceitar ou não a oferta do homem a sua frente.

— Entre! – Por fim, convidou.

Ficamos todos, desconfortavelmente, de pé no meio da sala. Notei que Olivier olhava ao redor do ambiente de aspecto bem burguês, quem sabe, procurando algum sinal de David ou lembranças de Sarah. Até seus olhos pararem em um porta-retratos sobre o aparador, onde havia a imagem de uma mulher bela e sorridente. Acompanhei o seu olhar, quando uma certa tensão começou a se espalhar no ar, um esperando o outro se pronunciar.

— Ele não está em casa – Jean-Pierre comunicou, pois como eu, ele também percebeu a busca de Olivier, mas, nesse instante, seu olhar estava parado sobre os porta-retratos posicionados na estante e na cornija da lareira. Eu segui seus olhos para deparar com as várias de imagens de Sarah e David em idades diferentes, nas mais recentes a figura de Jean Pierre se juntou a eles. Observei a dor e abatimento que o invadiram. — O que você quer, Olivier? – o dono da casa o pressionou, pois, nesse instante, ar estava impregnado de uma imensa carga de emoções reprimidas e perguntas não respondidas.

— Eu preciso saber se David é meu filho? – Olivier foi direto, olhando para os olhos do seu interlocutor.

— Depois de todo esse tempo, você aparece aqui para fazer essa pergunta? – O outro homem retrucou com um sorriso sarcástico.

— Eu só preciso saber – Olivier sustentou o olhar do outro homem, com igual determinação.

— Você não quis saber depois de todos esses anos. Fugiu e a deixou enfrentando sozinha o julgamento de todos – Jean Pierre não escondia o seu rancor.

— Eu sei que fui um completo estúpido, um covarde, que não tenho perdão, mas eu mudei muito nesses últimos anos e preciso saber para, pelo menos, amenizar um pouco os meus erros do passado. Por favor, me diga a verdade – Olivier suplicou, Jean Pierre confirmou com a cabeça.

— Sarah decidiu ter o bebê depois que você partiu, e enfrentou todo mundo, sozinha, por isso, a família, os amigos, a cidade. Ela foi muito corajosa – Jean Pierre afirmou, com orgulho. – Eu sempre fiquei ao lado dela, enquanto pude e quando ela me permitiu, tentei apoiá-la da melhor maneira que consegui.

— Você sempre a amou.

— E você sempre soube disso. Estive junto a ela, o tempo todo. Mas, durante anos, fui apenas um bom amigo, alguém com que ela podia contar e confiar. Você a magoou demais, assim não quis se envolver com mais ninguém. Levei muito tempo para que quebrar a couraça dura que Sarah construiu ao seu redor e aceitar se casar comigo.

— Pelo menos, ela foi feliz no final? – Olivier perguntou, apreensivo.

— Eu acho que, finalmente, fomos felizes por algum tempo.

— E eu o agradeço por isso.

— O que você quer agora, vindo hoje aqui, se tornar o pai do ano? – O tom de Jean-Pierre mudou, ficou mais agressivo.

— Eu sei que o garoto tem problemas e quero ajudar – A voz de Olivier era branda.

— Como? Vai chegar para o David e dizer que é o pai dele e que fugiu quando soube que a mãe estava grávida? Não sei como isso poderá ajudar aquele garoto confuso, que sofre pela sua imensa perda? – Jean-Pierre ficou mais exaltado e eu estava cansada de ficar parada ali, em pé, esperando aqueles homens resolverem suas desavenças do passado.

— Não quero seja assim. Não preciso falar que sou o pai dele, nesse momento, só quero participar da vida dele e ajudá-lo.

Jean-Pierre coçou a cabeça, quem sabe, considerando que seria bom poder dividir um pouco os problemas daquele garoto rebelde.

— Acho que Sarah gostaria disso. – Não consigo me conter e falei, os homens me encaram surpresos, haviam se esquecido da minha presença ali.

— Por favor, sente-se, senhorita – Jean Pierre disse, gentilmente, e minhas pernas cansadas agradeceram, quando tomei um lugar no sofá. — Por que a senhorita...

— Gisele Fabrinni – Eu estendi a minha mão.

— Por que acha isso, senhorita Fabrinni? – Ele aceitou o cumprimento, perguntando com um misto de curiosidade e petulância, intrigado como uma completa estranha pudesse ter essa opinião sobre uma mulher, que ela jamais conheceu.

— Eu apenas supus por tudo que sei sobre essa história. Quando Olivier disse que Sarah entrou em contato para pedir ajuda para David não ser preso. Considerei que foi um sinal, pois ela deveria saber que estava morrendo – conclui, um tanto audaciosa, Jean-Pierre me encarou por um longo tempo, refletindo.

— David é um bom garoto, mas anda meio perdido ultimamente, revoltado com a vida pela perda da mãe, não consegue entender como ela foi tirada dele. Eu tentei amenizar a sua dor, mas ele se fechou e fugiu para o mundo lá fora. Muitas vezes, eu reconheço você nele, Olivier.

Olivier piscou os olhos, por ser pego de surpresa.

— Mas, por que você não permitiu que eu falasse com Sarah, no hospital? – Oliver tocou em um ponto delicado, o clima voltou a ficar pesado, podia se cortar o ar com uma faca.

— Ela já estava morrendo, não queria que ela sofresse ainda mais, vendo você ali ao lado dela.

— Talvez, ela quisesse me ver – Olivier desafiou.

— Talvez não, mas, você não se esforçou, simplesmente, foi embora, de novo. – Jean o acusou, sem piedade.

— Eu tinha negócios importantes para resolver, não esperava que o fim dela fosse tão rápido.

Após estudar o rosto do seu interlocutor, Jean-Pierre soltou um longo suspiro, estava abatido, também, sofrendo por sua enorme perda.

— Olhe, Olivier, não posso prometeu nada a você. Preciso pensar e ponderar sobre o assunto. Não sei como poderei revelar para David que você é o pai biológico dele. Ele acabou de perder a mãe e já está sendo muito difícil para ele passar por isso. Sarah era a sua única família, mesmo sabendo que eu continuarei cuidando dele como se fosse meu próprio filho, porque além de prometer a ela, eu amo aquele garoto.

— Mas, eu sou o pai dele, merda!

— Você foi apenas um doador de esperma. Nunca foi um pai de verdade. Nunca trocou uma fralda, ficou acordado com ele quando estava doente ou foi a uma reunião da escola – Jean-Pierre acusa com a voz firme.

— Como você fez? – A voz de Olivier saiu cheia de amargura.

— Sim, como eu fiz. Sou o único pai que David conheceu em toda sua vida, desde o momento que Sarah deixou que me aproximasse. Agora, você chega para dizer a ele que é o seu pai biológico, assim de repente. O pai que o abandonou na barriga da sua mãe. Como você acha que o garoto irá se sentir? A vida dele já está bastante confusa sem a sua presença.

Naquele momento, Olivier entendeu que não havia mais nada a dizer, sabendo que o outro homem estava com a razão. Ele não podia irromper na vida do rapaz dessa maneira tão abrupta, por isso eu me levantei, percebendo que era hora de partir.

— Entrarei em contato — Olivier estendeu a mão para Jean-Pierre, que aceitou o cumprimento e concordou com a cabeça.

— Espere um pouco, Olivier – Jean-Pierre foi em direção ao interior da casa e retornou logo em seguida com um envelope na mão, que estendeu para o outro.

Olivier olhou para o objeto a sua frente, confuso, ergueu os olhos para o outro homem, cheio de dúvidas.

— É de Sarah. Ela escreveu para você, enquanto sua mão ainda tinha firmeza para segurar uma caneta, e me pediu que lhe entregasse, quando você viesse aqui – Jean Pierre explicou de um jeito triste.

— Como ela sabia que eu viria aqui? – Olivier se sentia abismado.

— Eu não sei, só sei que ela sabia que você viria – Jean-Pierre deu de ombros.

Olivier tirou a carta rapidamente da mão do outro homem, como se tivesse medo que ele desistisse de entregá-la, olhou por algum tempo o seu nome escrito no envelope, em dúvida, se deveria abri-la agora ou não, mas a dobrou e a coloca no bolso do paletó, provavelmente, a leria quando estivesse sozinho.

— Acho que encontrará algumas respostas aí – Jean-Pierre concluiu, Olivier assentiu com a cabeça.

Quando saímos da casa, o sol já desaparecera por completo e a noite estava agradavelmente fresca, uma suave brisa fria me fez vestir o leve casaco que trouxera, Olivier também colocou o paletó.

— Está com fome – perguntou, enquanto andávamos e escutávamos os nossos passos ecoarem no chão de paralelepípedos.

— Eu prefiro ir para a estação, tenho que voltar para Londres – Mesmo com fome, tinha que prosseguir minha viagem de volta, já estava muito tarde, era quase onze horas da noite.

— Ele não voltou para casa – Olivier disse, com ar preocupado, como se pensasse alto, interroguei-o com o olhar, mesmo desconfiada do que estava se referindo. – O garoto... quer dizer, David não voltou para casa.

— Ele deve estar sofrendo, pode ser uma fuga, não querer voltar para um lugar cheio de lembranças da mãe – justifiquei, porém isso não o tranquilizou.

Continuamos andando, não havia nenhum taxi por ali para nos levar para a estação. Pensava nos meus pobres pés cansados e nos meus dedos doloridos, quando passamos por uma pequena praça mergulhada na penumbra onde um grupo de jovens bebiam e faziam arruaça, falando em voz alta, chamando nossa atenção. Olivier parou, com o olhar fixo neles, sua expressão foi do susto a raiva em segundos e ele marchou com passos firmes na direção a eles. A princípio, eu não entendi, só na segunda espiada percebi a razão de seu impulso.