Histórias Cruzadas
15 Eu não posso fazer isso!
Notas iniciais
— Como assim? – Ele repetiu a minha pergunta, dando de ombros. – Não que não ache você atraente, porque eu acho. Bastante. Mas, também está bem resolvida, sem romantismo e fantasias, não seria do tipo que botaria tudo a perder por um momento de luxúria. Então, não preciso me preocupar em conquistá-la, posso ficar aqui aproveitando meu uísque e essa bela vista, calmamente, sem nenhuma máscara ou a ansiedade da conquista – explicou-me com tranquilidade.
Eu abri e fechei minha boca sem conseguir falar nada, completamente abismada.
Como assim eu não valia a pena de ser conquistada? Espera aí, o que estou pensando, eu não queria ser seduzida por ele? Ou queria? Então, por que estava ali naquele apartamento? Talvez, estivesse passando uma mensagem errada, de uma mulher louca para me atirar um uma aventura antes de casar e ele estava me dizendo que não está a fim.
— Espera aí! Por que você acha isso de mim? Acho que eu sou uma mulher frígida, que só estou interessado em uma aliança e uma marido! – Minha voz saiu áspera e exaltada, Olivier me olhou com um misto de surpresa e escárnio e isso me deixou ainda mais sobressaltada.
— Vocês latinas são muito temperamentais – Seu tom era irritantemente calmo.
— Você já disse isso antes!
— Por que está tão zangada? Por que eu disse que não quero nada com você?
— Não é nada disso. – Tentei disfarçar, sem sucesso.
Olivier me olhou de maneira divertida, fiquei ainda mais zangada, meu rosto queimava, precisava sair dali, estava pronta para levantar, quando em um movimento rápido e suave, ele se aproximou, segurou meu rosto entre suas mãos e encostou seus lábios nos meus. Arregalei os olhos, assustada, mas não me afastei, pelo contrário me aproximei mais dele e fechei meus olhos.
Eu gostei daquilo, parecia que já vivi algo semelhante mais de uma vez, havia algo de familiar naquele beijo, a maciez dos seus lábios, o gosto do uísque, suas mãos decididas que descem pelo meu pescoço e seguram minha nuca, trazendo-me mais para perto. Minhas mãos deslizam pelos seus ombros e envolve seu pescoço e nossas bocas se abre, sinto sua língua ao encontro da minha, seu gosto. Deveria ter me sentido culpa, mas não me senti, a não ser o meu ventre queimando de desejo, minha pele ficando arrepiada, o couro frio do sofá contra as minhas costas, quando ele me pressiona mais e mais, e suas mãos quentes avançam descendo pelos meus braços. Nunca perdi o controle daquele jeito. Não podia fazer isso, mas já estou fazendo e não consigo parar. Meu corpo deslizou pelo sofá e estou deitada debaixo dele, sinto seu peso sobre o meu corpo, ardia de desejo, como nunca aconteceu comigo antes, é ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. Queria tocá-lo, sinto sua pele fria e lisa nas minhas mãos, meu pé desliza pela sua perna comprida.
— Achei que não estivesse interessado – murmurei junto aos seus lábios, olhando nos seus olhos, que brilhavam de desejo de uma maneira que nunca vi, ele deu um sorriso torto.
— Eu menti para ver sua reação – E antes que eu falasse algo mais, colou seus lábios nos meus outra vez. Não podia nem colocar na conta da bebida, pois, dessa vez, estou bem lúcida e consciente do que fazia. Então, dei um pulo e o empurrei para que saísse de cima de mim.
— Eu não posso fazer isso! É um erro! Estou noiva, preste a me casar com um homem bom, não posso fazer isso com Samuel — Olivier me encarou, um tanto decepcionado. – Preciso ir! – disse, aflita, arrumando a minha roupa, pego minha bolsa e sai o mais rápido que posso do apartamento dele.
Ganhei a rua, o ar frio da noite me envolveu, arrepiando minha pele quente, andei apressada, procurando por um táxi, mas, no fundo, desejava que Olivier viesse atrás de mim. Estava assustada comigo mesmo por fazer algo parecido, beijar um estranho com tanta paixão e desejo, como nunca fiz ou senti antes, era uma sensação inexplicável e irracional.
Olhei para trás, sou invadida por vontades contraditórias, pois queria muito que Olivier estivesse ali, ao mesmo tempo, que queria nunca mais vê-lo. Por sorte, um táxi passou, fiz sinal, ele parou, disse o meu destino para o motorista e entrei no conforto do espaçoso carro aquecido, não podia o conflito entre os sentimentos de tristeza, medo e vergonha.
Ao chegar no meu quarto de hotel, fui direto olhar o meu telefone deixado lá. Havia muitas mensagens da minha mãe e, principalmente, de Samuel, que parecia bem preocupado. Isso aumentou ainda mais minha culpa por tê-lo traído daquela forma, mesmo sendo somente um beijo. Tenho uma imensa necessidade de falar com ele, ouvir sua voz, dizer como gosto dele.
Ele atendeu nos primeiros toques.
— Gisele, onde você estava? Telefonei para você a noite toda! Estava preocupado – Seu tom era de irritação.
— Desculpe, Samuel. Mas, meu telefone descarregou e por isso deixei no quarto, quando fui ao jantar.
— O que está acontecendo com você, Gisele? Você está tão desatenta durante toda essa viagem, nem parece a mesma.
— Você acha?
— Sim, eu acho. Você parece outra mulher, não a minha noiva tão atenta e zelosa.
— Desculpa-me, eu terei mais cuidado da próxima vez.
— Eu espero, detesto mulheres relapsas e descuidadas – Samuel me repreendeu, considerei que essa seria a pior hora para ele fazer isso, pois, precisava que ele dissesse que me amava e sentia a minha falta, no entanto, esse não seria Samuel.
— Eu prometo que isso nunca mais irá acontecer. Sinto muito sua falta – falei, em um tom meloso, querendo que ele diga o mesmo.
— Eu também, querida. Estou louco para você voltar, para que possamos começar logo os preparativos do nosso casamento. Quero que seja uma festa memorável, para impressionar a todos.
— Mas, por que toda essa pressa, acabamos de ficar noivos?
— Já falamos sobre isso Gisele. Sabe como será importante para mim na empresa, ser visto como um homem casado e sério, ajudaria muito na minha ascensão. – Eu havia esquecido que tudo com Samuel deve ser planejado e calculado, ele gostava de impressionar, principalmente, os seus superiores.
— Falaremos sobre isso quando voltar – encerrei o assunto, não quero me decepcionar ainda mais, no despedimos e desligamos.
Eu deitei na cama e encarei o teto, rebelde, minha mente voltou para algumas horas atrás, quando estava nos braços de Olivier, sentindo como nunca me senti antes. Pensava nos seus olhos azuis e profundos, olhando-me cheio de intensidade e desejo, fechei os meus e adormeci.
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