Histórias Cruzadas
56 E agora o que quer fazer?
Fiquei olhando para a cara daquele cretino, só queria que ele fosse embora e me deixasse em paz, mas, acho que isso não ia rolar, ele ia continuar pegando no meu pé.
— Então, vamos comer alguma coisa? – ele me perguntou, mais uma vez. Bem, pelo menos, podia ter uma refeição grátis, não comia há desde aquela manhã, meu estômago estava reclamando há horas, afinal, se aquele cara me devia algo, pelo menos, poderia pagar o meu jantar. Assim, sacudi a cabeça, afirmativamente. — Ótimo! – Ele deu um sorrisinho imbecil. – Podemos ir.
Vacilante, eu olhei para trás para me despedir dela, enquanto o cara passou a mão sobre a pedra do túmulo, quase como um carinho, fiquei com tanta raiva que poderia socar aquele nariz em pé dele, mas me segurei, apertei minhas mãos com tanta força que doeu.
— Há alguns restaurantes aqui perto – ele continuou a falar, enquanto caminhávamos até o portão e saíamos na rua. – A propósito, caso não saiba o meu nome é Olivier.
— Não, eu nunca soube – menti, pois já havia ouvido o nome dele, algumas vezes, mas, gostei de ver o ar de decepção no seu rosto. — Minha mãe nunca me disse o seu nome.
Olivier! O príncipe Olly, o personagem, o príncipe espacial, que minha mãe inventou para justificar o sumiço do meu pai, que se tornou uma série de livros infantis bem famosa.
— Ela teve os seus motivos.
— Sim, teve. Você é inglês?
— Sim, sou. Moro em Londres – Merda! Ainda tenho sangue inglês.
— Eu avisei a Jean-Pierre, que achei você.
— Por que fez isso?
— Porque ele estava muito preocupado.
— Ele falou algo sobre Louis?
— Louis?
— O velho que eu ajudei.
— Parece que o estado dele é estável. – Fiquei feliz, pelo menos, o velho estava vivo.
— Que tal aquele ali? – Ele apontou para um lugar cheio de frescura, com toalhas brancas e taças.
— Não, eu prefiro aquele – e mostrei um bistrô mais simples logo em frente.
— Certo, pode ser aquele.
O lugar tinha um aspecto antigo, que eu nunca escolheria se não fosse para contrariá-lo, fiquei incomodado quando sentamos à mesa e ele ficou olhando para mim, como um certo interesse. A atendente veio com os cardápios. Pedimos a mesma coisa, filé, fritas e salada, para ele, cerveja e, para mim, um refrigerante.
— Você não se parece com a sua mãe.
— Eu sei todo mundo fala isso – Agora, só faltava ele falar que eu parecia com ele, mas, felizmente, não disse nada.
— O tempo passa rápido. Quantos anos você tem?
— Quinze.
— Eu tinha a sua idade quando conheci sua mãe.
— Eu prefiro não falar sobre isso.
— Tudo bem, não vamos falar. Mas, o que você e aquele senhor estavam fazendo tão longe de casa?
— Ele procurava pelo filho dele.
— Em um antro de drogados. Coitado!
— Não, ele acha que o filho passou por um buraco de minhoca, uma espécie de portal tempo-espaço, e desapareceu há muito tempo. Ele pensa que, naquele lugar, haveria um portal, pois se concentra as energias negativas da cidade.
— Que loucura! E o que aconteceu com o filho dele?
— Ninguém sabe, saiu para uma viagem e, simplesmente, desapareceu – dei de ombros. – E você, por que está aqui?
— Como eu falei, Sarah me pediram para mim e Jean-Pierre cuidarmos de você.
— Eu não entendo nada. Como minha mãe podia ter feito isso?
— Há algum tempo, quando você foi quase preso, ele me ligou e pediu que eu ajudasse você. E eu ajudei.
— Eu não sabia disso – Fiquei confuso.
— Não deu tempo de contar para você.
— E como você soube que eu sumi?
— Quando você sumiu do hospital, Jean-Pierre ficou muito preocupado, ligou para mim e me pediu ajuda.
— Como ele tinha o número do seu telefone?
— Provavelmente, foi sua mãe que deixou com ele. Ela me deixou uma carta contando tudo sobre você.
— E você estava na Inglaterra? – Ele respondeu que sim com a cabeça. – E como chegou aqui tão depressa?
— Eu estava no aeroporto, quando Jean-Pierre me ligou – Eu o interroguei com o olhar. – Estava me despedindo de uma amiga.
A comida chegou quando o prato foi colocado na minha frente, senti o cheiro bom da comida e meu estômago se contraiu de fome, por isso, parei de falar e comecei a comer depressa.
— Calma rapaz! A comida não vai fugir! – Olivier brincou, eu olhei para ele com cara feia e continuei comendo.
— A sua amiga era a moça do cemitério e da praça? – Eu fiquei curioso, ele concordou com a cabeça. – Ela é sua namorada?
— Agora, acho que é.
— Mas, ela foi embora.
— Ela precisa resolver umas coisas no país dela, antes de ficarmos juntos.
— E se ela não voltar?
— Eu vou atrás dela, já cometi muito erros na vida, por isso, perdi muitas pessoas que amava.
— Como minha mãe?
— Como sua mãe e como você.
— Mas, você não pode me amar, nem me conhece.
— Eu poderia, se me der uma chance. – Ele olhou direto nos meus olhos.
— Não, ninguém me ama, por que você me amaria? – Eu sustentei o olhar.
— Como assim ninguém ama você? Jean-Pierre e sua avó e deve haver um monte de gente que gosta de você.
— Sou só problemas para Jean-Pierre e minha avó não gosta de mim. Ela falou que eu me pareço com você, egoísta e irresponsável – A cara dele foi de choque, então ele se restabeleceu.
— Ela disse isso?! Ela devia estar zangada com você. Muitas vezes, as pessoas dizem coisas sem pensar em um momento de raiva que, realmente, não são verdades. – Ele ficou em silêncio alguns instantes. – Eu também achava que ninguém gostava de mim, quando tinha a sua idade, por isso vim para aqui, para fugir da minha casa, ficar longe dos meus pais e conheci sua mãe, foi uma das épocas mais felizes da minha vida até...
— Até eu acontecer.
— Não foi culpa sua, mas minha, eu que não era maduro bastante para enfrentar a situação, por isso fugi mais uma vez, mas não fugirei de novo, mesmo que você não queira, eu estarei aqui para ajudá-lo, David.
— Eu não sei se quero isso. Você não pode surgir desse jeito na minha vida e querer fazer parte dela.
— Não quero ser o seu pai, pois esse papel é de direito de Jean-Pierre, mas, posso ser seu amigo.
— Eu preciso de tempo.
— Você pode levar o tempo que precisar. E agora o que quer fazer?
— Eu não sei.
— Eu levo você para a casa da sua avó, Jean-Pierre o espera lá.
Dito isso, ele pediu e pagou a conta, saímos do restaurante ao anoitecer e as luzes dos prédios já começavam a serem acesas, as ruas se enchiam de gente voltando para as suas casas. Ele acenou para um táxi, entramos, continuamos o caminho quase em silêncio, eu pensava nas reviravoltas da minha vida, como aquele estranho do meu lado era o pai que não me quis e, por muito tempo, nem sabia da minha existência, enquanto eu imaginava mil histórias a seu respeito.
O carro parou em frente à casa da minha avó, o lugar que vivi uma boa parte da minha infância, onde minha mãe nasceu e cresceu. A porta se abriu e minha avó apareceu através dela.
— David! – disse, relaxando aliviada. – Graças a Deus! – Ela me abraçou apertado, quase não podia respirar.
— David! – Jean-Pierre surgiu e, também, me abraçou, estava ficando envergonhado, pois sabia que Olivier assistia todo aquele melodrama. – Obrigado, Olivier — Ele estendeu a mão para o outro homem.
— Não fiz mais que minha obrigação – Olivier respondeu.
— Vamos todos entrar – minha avó convidou.
Notas finais:
O tempo aplacou minha dor e a transformou em doces lembranças. Eu continuei morando com Jean-Pierre e o ajudei a cuidar da minha irmã Cecília, até ficar adulto.
Apesar de ter prometido a minha mãe, Jean-Pierre demorou muito tempo para se recuperar da sua perda e se relacionar com alguém, novamente.
Devo confessar que eu e Olivier não ficamos de boa, assim, de imediato, levou um bom tempo para um se acostumasse com o outro. Atualmente, temos uma relação cordial. A namorada dele, Gisele, voltou e eles estão juntos, mas não pensam em se casar ainda.
Continue visitando os Fraser, tomava já com Celine e ouvia Louis falar de suas teorias malucas. Até as suas mortes, Louis ainda tinha esperança de encontrar seu filho e Celine continuou rezando, mas nunca souberam do verdadeiro paradeiro de André.
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