Havia perdido a noção do tempo, durante o meu longo período de internação, estava ciente que jamais voltaria para casa, a minha vida se tornou um sonho efêmero, nunca mais ouviria as risadas dos meus filhos, nem me deitaria ao lado de Jean-Pierre na nossa cama ou sentiria o doce perfume dos bolos de Francine recém-saídos do forno. A doença me consumia mais e mais, a cada dia, passava boa parte do tempo dormindo, um sono sem sonhos, sedada por fortes medicamentos, para suportar as dores que me afligiam. E em uma tarde, em um breve desperta, pressenti a presença de alguém ao meu lado, virei a cabeça lentamente na sua direção.

— Olivier? – Vi só um vulto indefinido, um fantasma, minha voz era só um sussurro.

— Não, mãe. Sou eu, David.

— David, meu amor – disse com a voz débil, quase sem folego, emocionada com a presença dele ali.

— Mãe, eu sinto tanto a sua falta, não quero que você morra – o meu menino chorava, junto a minha cama.

— Não, chore, meu filho. Eu não queria deixá-lo, se tivesse escolha, mas não tenho. Só quero que saiba que eu o amo muito, você foi a minha escolha, David.

— E agora. O que vai acontecer comigo? Vou ficar sozinho? Não tenho mais ninguém.

— Não, você tem Jean-Pierre, ajude-o com a cuidar de Cecília e tem os seus avós, que o ama muito, e ... – Deveria falar-lhe do seu pai, nesse momento? — Tudo vai ficar bem para você.

David segurou minha mão e ficou ali do meu lado até que mergulhei, mais uma vez, em um sono profundo. Essa foi a última vez que o vi, quando despertei, novamente, ele já não estava mais lá.

O mundo em minha volta estava mergulhado na penumbra, não tinha consciência do tempo ou dos vultos que se moviam em torno de mim, das vozes sussurradas e sons sem sentido, lutava apenas para respirar, puxar o ar que não preenchia os meus pulmões, mas, estava tão cansada, só queria descansar, que tudo aquilo terminasse para ter um pouco de paz, pelo menos, as dores cessaram por causa dos fortes analgésicos, já não sentia o meu corpo. Sabia que Jean-Pierre estava ao meu lado, percebia a minha mão na dele, segurando-me forte, como se não quisesse me deixar partir. Ouvia choros ao longe, talvez, minha mãe, meu pai. Por um breve espaço de tempo, lutei, tentando ficar lúcida e não afundar no confortável mundo da escuridão.

— Jean-Pierre – murmurei. – Eu te amo.

— Eu também amo você, Sarah. Sempre amei você, durante toda a minha vida.

— Tivemos tão pouco tempo. Desculpe-me por deixá-lo.

— Por favor, meu amor, não diga isso.

— Jean-Pierre, por favor, prometa-me que será feliz de novo, porque você merece.

— Por favor, Sarah.

— Prometa-me, Jean-Pierre.

— Eu prometo.

—Que horas são? — sussurrei

— Não sei, mas já está amanhecendo.

— Poderia abrir a janela, gostaria de ver o céu mais uma vez.

Alguns infinitos instantes se passaram e a tênue claridade do começo da manhã iluminou meu rosto, senti o morno calor do sol na minha pele, fechei os olhos, agora, só queria descansar.

Jean-Pierre

A branda luz da manhã que invadiu o quarto me ofuscou, fechei os olhos por um breve momento e quando os abri, vejo Sarah com os seus olhos fechados e expressão serena e, naquele momento, tive a certeza que o amor da minha vida havia partido. Uma dor intensa invadiu o meu peito, crescendo, não me deixou respirar, mesmo sabendo que isso aconteceria a qualquer instante, a constatação da realidade é terrível, pois, ainda me restava a esperança irracional de um milagre, mesmo sabendo que esse tipo de milagre não existe. Agora, só me sobrou essa dor tão imensa, que jamais acreditaria que poderia suportar. Cai de joelhos ao lado dela e segurei, com forças, sua mão ainda quente, como não quisesse deixá-la partir, em uma tentativa inútil de mantê-la comigo um pouco mais, enquanto o sol nascente entrava pela janela e iluminava o seu rosto.