História do Pertencimento
1 Retrato
Notas iniciais
Retrato.
Pois num auto retrato, se me retrato, já não sou mais eu.
E me sou assim: mais moça, mais boba, mas dona de mim.
Acentuadas rosáceas; se não trabalhasse ao sol não seria assim.
Redondo o rosto. Redondo a expressão; sempre doce demais, sem demais explosão.
Nessa cara tem olhos miúdos e belos ao sol. Um nariz, uma boca que prende como charuto o prendedor do lençol.
Comprido comprimento médio de cachos que não cacheiam, mas ficam assim hora parcos hora esvoaçantes.
Não tenho mais idade, mas ainda assim as pernas e joelhos num ralado sem fim.
Pano simples é o que há para vestir, doado da vizinha da tia do Alcir.
Vestido curto, quase mostrando o joelho. Pai finge que não vê, a prioridade é o fedelho.
Não ligo, nem tô!
Até que um dia Pietro vem e me chama de flô.
Aí passa a roupa, passa a juba, passa mamona na boca para dar uma cor.
Fico boba, fico triste, querendo um vestidinho que nem existe.
Mas passa, mas foi, como nuvem bonita que só se vê e se vai.
Mas que conversa, Jesuzinho! Fiquei de olhar no fogão o porquinho.
Fale com o autor