Foi numa noite em crise que Maria se perguntou o motivo de não ser que nem seus heróis. Estava jogada no chão em prantos, a garganta doía de tanto gritar, o joelho escorregou nas próprias lágrimas e seu pai estava de pé ao lado com a mão estendida. Na palma havia várias pílulas.

“Tome, vai te fazer bem.”

Ele disse e ela só pensou o quão irônico era ter uma paixão descomunal por shounens e não conseguir superar a si mesma como seus heróis. Por conta de tais heróis até entrava em cada discussão besta só para defendê-los.

“São apenas personagens.”

Eram o que diziam, mas para Maria eram apenas as pílulas que faziam bem. Parava seu tempo para destrinchar cada história, cada personagem. Pensava por que se identificava tanto com aquele mundo masculino de porradaria e homens sensíveis. Maria até achava às vezes que homens não deviam ser tão ruins assim e até mesmo desejava ser um.

Um universo em que as coisas só faziam sentido ali, tudo era caricato e tudo muito colorido. Tão obstinados e desenvolvidos. Maria se perguntava quando chegaria o seu arco de amadurecimento, quando superaria seus medos, quando pararia de se achar um peixe fora d’água e quando pararia de tomar as pílulas más.

Era um mundo fantasioso, mas havia sabedoria. Ela memorizava quotes que ensinavam mais e a curavam mais. Nenhum psicólogo, psiquiatra, padre ou pastor a entenderia tão bem quanto aqueles personagens burros, aproveitadores, pervertidos, excêntricos, narcisistas, mas, acima de tudo, amigos fiéis.

Sonhava em fazer uma história, montava arquétipos, queria espalhar a mesma sabedoria, queria que o coração de quem que estivesse lendo se aquecesse e quem sabe chorasse.

Maria chorava muito. Ela queria suar o tanto que suavam, gritar e liberar uma aura amedrontadora, socar na cara dos problemas, ser o protagonista que chega na hora certa para salvar uma pessoa. Ela queria estar numa dessas histórias, envolvidas por amigos fiéis.

Maria gostaria de ser um herói também.

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