História De Amor
4 O Início
Notas iniciais
Obrigada pela atenção.
Boa leitura :D
Meu irmão me abraça forte contra ele, não consigo olhar seu rosto, estou tão envergonhado, ele diz que precisamos conversar, mas eu não quero, eu só quero sumir, tudo que eu mais quero é fugir, não dele, mas de toda essa confusão que estou causando. Embora acuado, ainda sim concordo em conversar sobre o assunto, devo isso a ele e sei que é o melhor para mim. Chega de fugir. Preciso encarar o problema, então sacudo a cabeça positivamente.
Ikki faz um carinho no meu cabelo, não conhecia esse lado mais carinhoso dele, na verdade eu nem sabia que existia, ele é sempre tão reprimido com seus sentimentos.
–Shun, eu tenho medo de te perder. –volta a falar comigo, em um tom baixo, apenas para eu ouvir, mesmo que não tivesse ninguém mais para escutar a nossa conversa.
–Me perdoa Ikki. –respondo tentando me desculpar por todos os meus erros.
–A culpa não é sua. A culpa é toda minha, eu deveria ter percebido antes, fiquei só trabalhando e esqueci que você é diferente de mim, muito mais sentimental. O coração de pedra aqui sou eu, mas nunca imaginei que você chegaria a esse ponto meu irmão. –fala me apertando mais em seus braços.
– Só queria que a dor passasse e a culpa não é sua... fui eu quem agiu errado –digo chorando mais.
–Foi um momento de desespero. Mas por que não me falou? Por que Shun? –pergunta se desvencilhando do abraço, olhando para mim.
–Porque você tem problemas maiores e eu sei que não sou o único que sofre pela mãe e o pai. –respondo entre soluços.
–E você acha que eles gostariam disso? –diz pegando no meu braço e puxando a manga da camiseta, deixando expostas as marcas. –Nossa Shun... –depois de vê-las seu rosto tem uma expressão de espanto.
–Eu sei. –digo puxando meu braço.
–Vamos vencer essa dor juntos, ta entendendo? –fala colocando as mãos em meu rosto, me fazendo encará-lo. –Você nunca mais vai precisar disso para se sentir melhor, eu to aqui. Promete para mim que nunca mais vai se machucar. Você é tudo que eu tenho.
–Eu prometo Ikki. –agora eu o abraço ainda chorando.
–Te amo. –me fala novamente afagando meu cabelo.
–Eu também. –respondo sentindo aquele carinho gostoso. Ficamos em silêncio, meus olhos começam a pesar aos poucos, até que finalmente caio no sono.
O mais velho percebe que seu caçula dorme. Ajeita cuidadosamente ele na cama, o cobrindo e dando um beijo em seu rosto, desejando boa noite baixinho para o outro não acordar. Volta para a sala, pegando um copo e uma garrafa de Whisky, essa é a sua maneira de relaxar. Toma um gole, sentindo a bebida forte descer por sua garganta, pendendo a cabeça para trás, escorando no sofá, pensando em como faria para ajudar seu irmão. Não tem dúvidas que procuraria ajuda psicológica, mas ainda sim precisava de algo mais, mas não sabe o que ainda.
Continua a beber por mais ou menos 20 minutos, pronto para levar o copo mais uma vez até os lábios, é interrompido pela campainha. Levanta pensando em quem seria àquela hora, abrindo a porta se depara com a sua vizinha loira, carregando com ela uma bandeja com cupcakes.
–Oi Ikki. –cumprimenta esboçando um pequeno sorriso no rosto.
–Oi Esmeralda. Pode entrar. –o menino havia se esquecido que a garota prometerá retorno.
A menina entra e se senta a pedido dele, entregando os bolinhos, o mesmo agradece e oferece uma bebida a ela que recusa. Os dois conversam por um tempo, Esmeralda o aconselha a não beber, pois assim como Shun se auto-mutila e não trás resultado. A bebida também não traria a solução. Então guarda tudo em seu devido lugar e volta a sentar-se. Ela pede para ver o irmão mais novo, indo até o quarto dele com Ikki, chega de mansinho e beija seu rosto também, o outro observa seu gesto.
Sem dizer nada, retornam para o cômodo debaixo, sentam-se mais uma vez no sofá.
–Obrigado pela sua atenção Esmeralda.
–Eu já disse, gosto de vocês, não precisa agradecer. –responde encabulada, arrumando uma mecha do cabelo.
–Só tenho a te agradecer, mal nos conhecemos e você ta aqui preocupada com meu irmão. –diz passando olhando o jeito delicado dela.
–Eu me apego rápido as pessoas e pare com isso de mal nos conhecemos. Não soa bem, mesmo que seja verdade, além do mais eu quero conhecer sua família. –fala sorrindo.
–Você já conhece. Só tem eu e o Shun. –abre os braços como se estivesse mostrando algo.
–Eu entendo, também só tenho meu pai. –continua olhando Ikki sentado no mesmo móvel que ela.
–Também perdeu sua mãe? –pergunta curioso, querendo saber mais da garota.
–Posso dizer que perdi. E vocês perderam seus pais muito cedo?
–Faz pouco tempo. Tudo muito recente, por isso o Shun ainda ta tão afetado. –explica sentindo vontade de voltar para a bebida.
–E você não? –questiona tentando olhar os olhos do mais velhos que viajava encarando o tapete.
–Também, mas eu preciso ser forte. –respira fundo, voltando a falar. –Preciso cuidar do Shun, ele é tudo que eu tenho. –para por alguns instantes e retoma o diálogo. –To preocupado com ele, não sei como agir. –agora passa a mão no rosto demonstrando sua inquietação. –Vou procurar um psicólogo, mas vá que não seja o suficiente. Shun é carente, eu sinto isso, ele é um menino tão gentil e doce, mas leva essa solidão de mãos dadas com ele.
–É difícil mesmo Ikki, sobretudo em uma cidade nova. –consola ele, colocando a mão em suas costas, se aproximando. –E você já deu o primeiro passo, procurar ajuda, mas ainda sim acho que ele precisa ver que tem mais pessoas além de você que estão dispostas a amar ele. –sorri e diz de um jeito meigo. –Corrigindo além de você e eu. Algum amigo quem sabe.
–Na antiga cidade ele não tinha muitos amigos, pegavam no pé dele. E aqui ele tem um colega, mas não sei se são amigos. –justifica virando-se para a menina.
–Eu não me importo de ficar com ele durante a tarde. E também não precisa ser a tarde toda, não seria justo tirar o espaço dele. –se oferece na tentativa de ajudar seus novos amigos.
–Tem razão. –responde vagamente, cortando o assunto, seguido por um silêncio repentino.
–Eu acho melhor eu ir agora, ta ficando tarde e você precisa trabalhar amanhã. –desculpa após perceber que o menino parecia precisar de um tempo também, pede um pedaço de papel e anota seu telefone. –Qualquer coisa esse é o meu número, só ligar e num pulo to aqui. –termina se levantado e caminhando até a porta, acompanhada por Ikki.
–Pode deixar e valeu de novo. –fala vendo ela saindo pelo portão.
–Então até amanhã. Boa noite e quem sabe outro dia assistimos ao filme. –acena indo para sua casa.
–Claro, vamos sim. Boa noite. –tranca o porta e pensa: “Ela é demais!”
Apaga as luzes e vai para o quarto, depois de tudo só queria sua cama, tentar dormir um pouco, já tinha algo em mente para o dia seguinte. Troca de roupa, escova os dentes e deita sobre o colchão macio, demorando em pegar no sono, sua cabeça não parava de pensar, os pensamentos se tornavam combustível para a insônia, resultado: dormiu somente pela madrugada.
O alarme toca avisando que era um novo dia, Ikki tinha dormido pouco e não queria acordar, então o desliga, enfiando a cabeça no travesseiro, abafando os xingamentos ditos por ele. Sai da cama e vai em direção ao banheiro, passando pelo quarto de Shun e dando uma olhada no menor que ainda dormia, o mais velho considera isso bom, não vai mandá-lo para escola hoje. Pensou que não seria legal depois de um dia turbulento como o anterior. Arruma-se fazendo o mínimo barulho possível para não despertar o pequeno.
Sai com cautela, deixando seu irmão aos cuidados de Esmeralda, sempre disposta a ajudar. Pega o carro e segue para a escola, primeiramente com a intenção de justificar a falta do mais novo e depois pedir ao diretor uma recomendação de um bom profissional, afinal sendo docente há tanto tempo, provavelmente saberia indicar um bom especialista.
Estaciona o veículo perto da instituição e desce caminhando até ela. Entra indo pelo corredor até a sala de Camus, porém escuta vozes e imaginando que estivesse ocupado dá uma pausa, parando em frente à porta. Observa todos os adolescentes passando e se lembra dessa fase, relembra quando fugia de casa a noite, voltando pela madrugada, fizera isso tantas vezes que desconfiava que sua mãe soubesse, ela sempre dizia: “Boa noite filhote e toma cuidado. Não durma muito tarde.” Ela se retirava dando uma piscada de olho. Sorri ao recordar. De repente seus pensamentos são atrapalhados por vozes altas que vinham do gabinete.
–Por que você é assim? –uma voz grossa dizia, de adulto com certeza.
–Para de fingir que se importa, quando não dá a mínima. Eu não gosto de você. –responde uma voz de menino, um aluno.
–Hyoga, você precisa me entender.
“Hyoga? Onde já ouvi esse nome? Ah sim, o macarrão sem molho, colega do Shun.” — pensa fazendo uma careta.
Aproxima-se mais para ouvir melhor, ficou curioso sobre o que discutiam, parecem tão íntimos. Já quase escorava a orelha na porta quando alguém fala com ele.
–Bom dia senhor, deseja alguma coisa? –fala uma moça tocando-lhe o braço, chamando sua atenção.
–Bom dia. –cumprimenta um pouco sem graça. –Eu vim para falar com o diretor Camus, ele se encontra?
–Claro. Vou verificar se ele está ocupado. –diz ela batendo na porta e abrindo a mando do homem. –Camus, um pai de aluno está aqui para falar com você. Peço para ele aguardar?
–Pode deixá-lo entrar Pandora. Meu assunto aqui já terminou. –responde a moça, olhando para o loiro que estava sentado em uma das poltronas da sala.
–Pode entrar senhor, desculpe fazê-lo esperar. Aceita alguma coisa? Água, café, chá? –pergunta gentilmente.
–Muito obrigado, mas eu estou bem. –agradece.
–Sendo assim, com licença. –fala caminhando pelo corredor, com uma pasta na mão, aparenta ser muito séria e responsável.
–Toda.
Ikki entra na sala e dá de cara com o menino russo, que lhe cumprimenta, porém o assunto dele era com Camus, este pede para Hyoga se retirar, porém antes de sair o menino pergunta.
–Você é o irmão do Shun não é mesmo?
–Sou sim. –responde de modo seco.
–Por que você ta aqui? Não vi ele hoje. Ta tudo bem? –questiona demonstrando uma ponta de preocupação.
–Hyoga, o senhor Ikki está aqui por algum motivo importante, depois que resolvermos você pode falar com ele. –interrompe Camus.
–Nem tanto. –é tudo que responde o irmão mais velho.
O loiro escuta a resposta já saindo da sala, mas conhecendo Camus, sabe que ele não é de fechar a porta, então se senta ali fora para escutar a conversa, não sabe o motivo, mas ficou preocupado com a resposta que recebeu.
–Então bom dia, pode se sentar. –convida educadamente.
–Bom dia. –responde se sentando. –Eu vim falar do meu irmão, justificar a falta dele.
–Tudo bem. –diz o diretor pegando um caderno e anotando a data. –Qual o motivo?
–Ele não ta passando bem.
–Entendo, o senhor trouxe algum atestado médico? Ou algo assim?
–É que ele ainda não foi ao médico, quer dizer foi, mas não no certo.
–Desculpe, mas eu não compreendo. –diz intrigado.
–Eu vim pedir ajuda. –indo diretamente ao ponto.
–Pode falar, estou aqui justamente para ajudar. O que ele tem? –pergunta atenciosamente.
–O Shun ta passando por uma fase difícil. E eu não sei como ajudar direito, queria saber se o senhor pode me indicar um bom psicólogo.
–Claro posso sim, mas do que se trata? Perdoe a minha intromissão.
–É que perdemos nossos pais há pouco tempo e ele não tem aceitado bem, nunca me falou nada, sofreu calado e tem tomado atitudes agressivas contra ele mesmo.
–Entendo perfeitamente, infelizmente esses casos de cutting tem aumentando. –responde, anotando em um papel algo e entregando a Ikki. –Mas aqui está. O nome dele é Mu, é grande amigo meu e sei que ele pode ajudar e lembre-se que nesta escola todos somos amigos, qualquer coisa é só voltar que vamos auxiliar no que pudermos.
–Obrigado, mas e sobre a falta dele?
–Eu deixo justificada e depois ele pode copiar o conteúdo passado em aula dos colegas. Ele é um menino inteligente, um dia em casa não vai impedi-lo de tirar boas notas.
–Sendo assim, mais uma vez obrigado.
–Imagine, sou eu quem agradece a confiança.
Ao se despedir do homem, vê o garoto dos olhos azuis sentado em um banco bem próximo a sala que conversavam, provavelmente escutou alguma coisa, mas Ikki nem fez questão de saber se ouvirá ou não. Apenas passou por ele dizendo:
–Vai para aula moleque. O sinal já tocou.
Hyoga não responde a provocação, observa se afastar um pouco e levanta caminhando até ele.
–Espera.
–O que foi? –surpreendeu-se ao ver o menino se dirigindo a ele.
–Eu ouvi sobre o Shun.
–E o que tem?
–Eu... bem... –baixa o olhar e continua. –Eu posso ver ele?
–Pode. –responde dando as costas.
–Mas eu não sei onde fica. Você pode me dar o endereço?
–Anota ai.
O loiro tira um caderno anotando o endereço que Ikki lhe passa, agradece e vai correndo para a aula, estava atrasado e queria copiar tudo para depois emprestar a seu colega, a qual já considerava amigo.
–Só o Shun mesmo para gostar desse menino tão estranho. –resmunga saindo da escola.
Entra no carro, pegando seu celular e ligando para Esmeralda, perguntando por Shun, a garota responde que ele ainda estava dormindo e que ela tinha preparado o café da manhã dele e assim que acordasse levaria no quarto.
–Você não existe. –elogia o menino.
–Pare com isso. –diz rindo –Como foi na escola?
–Foi tudo bem. Eu não vou almoçar hoje com o Shun, vou usar meu horário para procurar esse psicólogo que o Camus me recomendou.
–Sem problema eu fico com ele.
–Obrigado. Ah Esmeralda vai ir um amiguinho do Shun ver ele hoje.
–Nossa que bom Ikki. Aposto que o Shun vai ficar contente.
–É eu também acho que sim. Mas agora eu vou desligar, não posso me atrasar para o trabalho, embora queira ficar ouvindo você o dia todo.
–Então, até depois. Beijinhos. –se despede sentindo-se encabulada.
–Beijo. –desliga encantado pela moça, mas segundo ele, não é hora de pensar em namoro, tem coisas mais importantes para fazer. Depois desse pensamento, respira fundo e segue para o emprego.
Já eram quase onzes horas e preocupada Esmeralda deixa a revista que está lendo na mesinha da sala, subindo as escadas, para verificar e ter a garantia que estava tudo bem com o menino que dormia. Meio desajeitada abre a porta, fazendo um pequeno barulho com a maçaneta, acordando Shun.
–Bom dia. –diz ela baixinho.
–Bom dia. –respondo esfregando os olhos. –Que horas são? –pergunto confuso, percebendo que o sol brilhava lá fora.
–São quase onze horas. –fala se aproximando e sentando ao pé da cama.
–Não acredito que perdi aula. –digo desapontado.
–Olha, seu irmão pensou ser melhor você descansar hoje e amanhã você vai pode ir, aproveite hoje para descansar a cabeça.
–Ta bem. –eu concordo com um sorriso, meio sonolento ainda.
–Eu vou ir buscar o seu café, já venho. –anuncia saindo do quarto.
Saio da cama, procuro outro pijama e roupas de baixo limpas, pego minha toalha e rumo ao banheiro para um bom banho. Sinto-me um pouco cansado, Esmeralda e Ikki tem razão, melhor mesmo ficar e me fortalecer. Tirar o dia de folga. Só dessa vez não vai fazer mal. Termino e me visto dentro do toalete, afinal não é educado desfilar pelos corredores só de toalha com uma moça em casa.
Volto ao meu quarto e tenho uma surpresa muito boa, encontro uma bandeja de café da manhã sobre minha cama, com um bilhete, foi Esmeralda quem deixou ali para mim. Pego o papel que dizia o seguinte:
“Shun, eu espero que você goste do café que preparei com carinho para você. Seu irmão infelizmente não vai vir almoçar conosco, mas eu te faço companhia, gosto muito de você e do Ikki. Fui ajudar meu pai e não me demoro, logo estou de volta, não se preocupe com nada, deixe tudo comigo. Beijos. Amamos você (Ikki e eu).”
Chego ao final da mensagem com um sorriso bobo no rosto. Essa garota é muito especial, espero que o Ikki não brinque com ela, como costuma fazer com as outras. Tomo o café e levo a bandeja até a cozinha, lavo a louça, guardo e decido ler um pouco, gosto de escutar música, mas não estou muito a fim. Além do mais já faz um tempo que não pego meu livro, nunca fiquei tanto tempo enrolando em um mesmo enredo, enfim hoje o termino.
Pego ele na minha mochila que estava jogada em um canto do cômodo. Deito e leio muito, me perco na leitura, esqueço tudo que vivi ontem, deixo as tristezas de lado, mergulhando em uma nova realidade, nossa como eu amo ler. Perco a total noção do tempo, quando menos espero ouço Esmeralda a me chamar:
–Shun! Shun! Você está ai em cima?
–Sim Esmeralda, já to descendo. –grito em reposta a ela.
Vejo a menina arrumando a mesa para o almoço enquanto desço as escadas, o cheiro da comida dominava a casa. O aroma é tão bom quanto o gosto, a garota loira cozinha muito bem, ela faz tudo isso por mim e eu quase não a conheço, então quando nos sentamos para comer, resolvo conversar com ela.
–Está melhor? –me pergunta pegando no meu ombro.
–To sim. Acabei dormindo ontem e sem querer dei bolo em você e no Ikki. –digo colocando a mão na testa, balançando ela, mostrando minha confusão.
–Sem problemas, assistimos ao filme em outra ocasião. –fala sorrindo.
–Mas me conta, ficou sozinha com meu irmão ontem?
–Fiquei sim, conversamos um pouco.
–Sobre? –pergunto curioso.
–Sobre vocês. Seu irmão te ama muito.
–Eu amo muito ele. E não conversaram sobre você também?
–Eu não falei muito sobre mim. Não me sinto muito a vontade sabe. É difícil.
–Tudo bem, não precisa dizer nada.
–Mas eu quero, eu gosto de dividir com alguém.
–Queria ser como você. Para mim é difícil conversar sobre mim com os outros, tenho medo do que vão pensar.
–Só as pessoas que não gostam de você vão pensar mal, não sobre isso, mas sobre tudo. Então, é só saber com quem falar.
–Não tinha pensado nisso.
–Eu entendo você e o Ikki em parte.
–Como assim? Também perdeu alguém?
–Mais ou menos. Sabe Shun, meus pais se separavam quando era muito nova e eu nunca me importei da minha mãe sair com outras pessoas. Aceitava bem, não tem nada de errado tentar ser feliz. Mas ela cometeu um erro, se apaixono pela pessoa errada. Ele parecia tão legal, mas depois que se casaram, tiro a máscara. Nojento, mal educado, machista e acima de tudo mau.
–E por isso você não quis ficar com eles?
–Foi um motivo a mais. Eu aguentei bem até por ai, mas ele começo a tentar me tocar, eu falei para minha mãe e ela não acredito. Disse que era implicância porque eu não gostava dele. E ele disse que era só carinho, mas não era, ele tento uma vez e eu fugi e bati nele com um vaso, quebrei na cabeça dele, foi merecido. Depois de tudo eu resolvi que viria morar com meu pai, aqui eu tenho respeito, amor e carinho. Sinto falta da minha mãe, porque eu sei que ela não é uma má pessoa. Mas com ele lá, eu não volto mais. –após terminar encara o nada, parecendo relembrar os momentos.
–Eu sinto muito. –falo tocando em sua mão.
–Eu sentiria se ainda estivesse lá. –faz uma piada com o ocorrido.
Continuamos conversando e comendo, depois do almoço ela disse que deixava tudo organizado, contudo não permiti fazer sozinha e ajudei. Em seguida fui para o meu quarto, Esmeralda disse que logo voltava, só daria uma forcinha para o pai no restaurante e em instantes retornaria.
Pego meu celular e os fones de ouvido, começo a escutar as músicas que há tempos não ouvia com atenção, quando colocava para tocá-las na maioria das vezes era só para fazer barulho, já que estava em outra dimensão. Tão concentrado com o som alto vindo do aparelho em meus ouvidos que nem ouço as batidas na porta do meu quarto. Quando dou por mim é Esmeralda que havia voltado, pedindo licença abrindo a porta, mas não totalmente, apenas o suficiente para ela colocar a cabeça e falar:
–Shun você tem visita.
–Visita? –pergunto espantando, quem poderia me visitar?
–É sim, um amigo seu está aqui embaixo, encontrei ele lá fora, procurando por sua casa.
–Você pode pedir para ele subir por favor? –ainda continuo sem saber quem é, não lembro de nenhum amigo que tenha feito e que viria me ver.
–Posso sim, vou fazer um lanchinho para vocês enquanto conversam.
–Não quero me aproveitar da sua boa vontade. Você deve ter muita coisa na sua casa para fazer.
–Eu vou fazer o lanche e depois eu vou para casa, afinal agora você já tem uma ótima companhia.
–Obrigado Esmeralda, nem sei como te agradecer. –sorrio agradecendo a bondade da garota.
–Você já me agradece muito, sendo tão gentil.
Sorrio mais uma vez e espero ansioso para saber quem é. Escuto batidas na porta, e respondo que pode entrar. Quando ouço a voz pedindo licença, fico sem palavras. Será que é verdade? É ele mesmo? Ao vê-lo tive a confirmação bem diante dos meus olhos.
–Hy-Hy-Hyoga? O que faz aqui?
–Vim ver você, mas se vim em uma hora ruim, posso voltar depois. –responde ameaçando ir embora.
–Não, só fiquei surpreso. –continuo o olhando em pé bem na minha frente.
–Você não foi à escola hoje. –caminha até mim.
–É... eu... não tava me sentindo bem. –fico vermelho, baixando a cabeça enquanto falo.
–Melhorou? –pergunta, sentando na minha cama, de uma forma natural, como se já fosse de casa.
–Sim. –digo nervoso pela sua proximidade.
–Escute Shun... eu meio que ouvi, a conversa... do seu irmão hoje... com o Camus. E fiquei sabendo.
–Ta. –interrompo chateado.
–Quer dizer, eu vim conferir se era verdade. –acho que ele também está nervoso e por isso está se atrapalhando para falar.
–Todo mundo vai reparar em mim, quando eu for para escola com mangas curtas. –falo demonstrando tristeza.
–São tão visíveis assim? –sua expressão mudou, sei que ele esta a me encarar, mas eu não quero erguer a cabeça, vou dá de cara com ele.
–São.
–Posso perguntar por que?
–Já perguntou. Eu sinto um vazio dentro de mim, desde que perdi os meus pais, eu já tentei a todo modo preencher, mas não tenho tido resultado. Dói e eu me sinto um lixo.
–Você sabe que não é isso que deve pensa.
–Como você sabe? Não me conhece a tanto tempo assim.
–Seus olhos me disseram.
–O que? –incrédulo viro meu rosto em sua direção, ficando cara a cara com ele.
–Eu sei que parece estranho, mas quando eu te vi pela primeira vez, eu gostei dos seus olhos. –começa mostrando inquietação. –Eles dizem muito de você, mostram que você carrega tristeza... e ao mesmo... doçura e timidez. É gentil e por alguma razão, eu sinto que você não faria mal nem mesmo para uma mosca. Não são qualidades para se sentir um lixo. –termina pegando na minha mão.
–Obrigado Hyoga, significa muito. –correspondo o gesto.
–Eu tenho algo para te dizer...
–Pode falar.
–Antes eu posso ver? –fala apontando para meu braço.
–Claro. –começo a puxar as mangas soltas do pijama, deixando à mostra as cicatrizes.
–Me permite? –pede para fazer algo, mesmo não sabendo o que é, concedo.
Minha surpresa e espanto foram quando o russo puxou meu braço, levando aos lábios a região do meu pulso, beijando. Arregalo os olhos, voltando a cabeça para baixo, escondendo o pimentão que estou.
–P-po-por que fez isso?
–Para sarar logo. –responde se aproximando mais de mim.
Meu coração bate forte, não sei o que está acontecendo, sinto um friozinho na minha barriga que congela o corpo todo, minha respiração está ofegante, por alguma razão, eu estou muito nervoso.
–Por que você se senti um lixo? –não hesitou em me perguntar.
–E-eu me sinto... sozinho, como se ninguém pudesse me ajudar... co-como se eu atrapalhasse todo mundo. –respondo gaguejando e com muitas pausas, sentia vontade de chorar, de rir, de tudo, uma estranha mistura de emoções.
–Mas você me ajudou, lembra? –faz um carinho em meu rosto com o polegar.
–Lembro.
–Não é inútil...
Eu sinto a mão dele passar sobre o meu rosto, chegando até o meu queixo, erguendo-o, fazendo-me olhar para ele.
–Shun. Eu não te acho inútil... –volta a dizer o mesmo de antes.
–Eu sei, obrigado.
–Na verdade eu te acho... –aproxima mais seu rosto do meu, já posso sentir sua respiração, o seu hálito fresquinho, o seu cheiro e quando eu pensei que ele completaria a frase, apenas senti seus lábios tocarem os meus...
Continua...
Fale com o autor