História De Amor

8 A Hora da Verdade


Notas iniciais
Bem pessoal, peço desculpas pela demora. Espero que gostem do capítulo, amanhã vou tentar postar o próximo.
Este também é narrado pelo Shun e em terceira pessoa. Ah sim, neste também revisei só com uma passada de olho, qualquer erro ortográfico ou algo que incomode durante a leitura, podem me alertar que eu prometo corrigir, sugestões também são sempre bem vindas.
Boa leitura e obrigada ♥

Sem acreditar no que seus olhos lhe mostravam, Ikki simplesmente paralisou. A ficha ainda não havia caído. Sua cabeça analisava cada palavra lida, tentando assimilar o que estava escrito naquelas mensagens. Respirou fundo voltando em um súbito para a realidade. Esfrega as mãos no rosto de maneira perturbada, afinal sentia-se incomodado com o que descobriu. Tomou em um gole só o que ainda restava de café na xícara, deixando a peça sobre a cadeira ao lado. Pensativo, nem reparou na volta de Freia que ao perceber a mudança repentina no garoto se aproxima dele.

-Senhor Amamiya, tudo bem? –pergunta abaixando-se um pouco para observar Ikki mais de perto, já que este se encontrava encarando o chão.

-Claro. Tudo certo. –responde nervoso. –Obrigado pelo café. –agradece entregando a xícara para a loira.

-Se não estiver passando bem pode falar. –avisa a garota virando-se para levar o objeto de porcelana de volta ao seu lugar.

-Eu to bem sim. –continua afirmando.

-Já volto então. –diz sorrindo, fingiu que acreditou para não aborrecer o menino, mas sabia que algo aconteceu e o estava deixando chateado.

Novamente se entrega aos seus pensamentos, sabendo que agiu errado por invadir a privacidade de Shun, porém também não acha certo o seu irmão ter escondido o relacionamento com o loiro.

-Aquele loiro de farmácia me paga. –resmungou baixinho, olhando para cima e fechando os olhos na tentativa de se acalmar, imaginando como estaria a sessão do mais novo com o psicólogo.

Entro na sala pouco iluminada, sinto o mesmo cheiro de antes, agora tinha certeza do que era. Não eram produtos de limpeza e sim o aroma de incenso que estava espalhado por todo o canto. Fecho a porta atrás de mim e me deparo com a figura de um homem tomando chá sentado em uma poltrona bem na minha frente.

-Sente-se Shun. Prazer em conhecer. –me cumprimenta sorvendo a bebida.

-Olá, prazer é meu. –respondo me acomodando no assento.

-Tome. –fala enquanto me serve. –Beba este chá. Sinta-se a vontade.

-Obrigado. –agradeço, pegando o pires com a pequena xícara.

-E então o que trás você aqui? –questiona, me olhando com toda a atenção.

-Eu tenho passado por alguns problemas. –digo olhando para baixo, sentindo-me constrangido.

-Você não quer me contar quais? –pergunta de uma maneira muito natural.

-Eu... tenho me sentido... sozinho. –falo com um pouco de vergonha, não gosto de tocar nesse assunto, mas agora é hora de crescer.

-Por que você pensa assim Shun? –continua, agora já conseguia o olhar de frente.

-Bem, eu perdi os meus pais em um acidente de carro há algum tempo e desde o ocorrido eu tenho me sentido sozinho. –conto isso quase chorando, tudo volta como um flashback em minha mente.

-Nesse caso é causado por um vazio? –tenta compreender, estendendo o corpo levemente para frente, como se quisesse me encarar.

-É. Exatamente. Meu irmão faz tudo por mim e eu só sei errar. Eu não sei o que fazer direito. Algumas coisas estão melhorando, mas eu tenho medo que seja apenas uma fase. –explico fazendo sinais com as mãos, enquanto falo.

-Escute Shun. Errar é perfeitamente normal, se não errar, então não é humano. Ainda não sei o que você quer dizer com “errar”, mas vamos desenvolvendo ao longo da conversa. – diz voltando a sentar escorando as costas no móvel.

-O vazio me incomoda e eu tenho feito coisas que me arrependo. –digo tentando fazê-lo entender o que significa o meu “errar”.

-Que tipo de coisas? –pergunta normalmente.

-Cortes. –respondo logo, antes que me faltasse coragem.

-E por que você faz isso? –indagou imediatamente.

-Para me sentir melhor, trocar a dor emocional pela física. –tento justificar meus atos.

-E a sua dor começa a voltar assim que os machucados começam a cicatrizar. Não é mesmo? –interroga como se soubesse do que estou falando.

-É. –respondo sem graça.

-Você disse que está passando por uma fase boa. Falou que tem medo também, mas a vida é feita de fases. Altos e baixos. Idas e Vindas. –fala fazendo-me abrir os olhos.

-Eu sei. Só ainda não tinha pensado nisso. É difícil. –realmente ainda não havia pensado dessa forma.

-A perda nunca é fácil. Entenda que se você está aqui é porque tem alguém que realmente te ama e que se preocupa o suficiente com o seu bem-estar. Não apague as lembranças de seus familiares. –aconselha servindo mais um pouco de chá.

-Queria tê-los de novo. –confesso baixinho.

-Shun, já ouviu o ditado: “Sempre depois da tempestade vem o sol?” –relembra essa frase que por muito tempo tinha esquecido.

-Já sim. –eu já tinha escutado, mas acredito que nunca apliquei a minha vida.

-Então o que acha de pensar sobre isso? –me propõe.

-Eu acho que já sei o que pensar. Eu sempre vou amar meus pais e sei que em algum lugar eles olham por mim. Isso nunca vai mudar e se agora está escuro, mais para frente vou achar uma saída. –sorrio agradecido.

-A sua luz no final do túnel ao que me parece já está iluminando seu caminho. –continua a falar positivamente.

-Eu também acho que sim. –concordo ainda sorrindo.

-Podemos fazer o seguinte, encerramos está sessão por agora e semana que vem quando voltar eu quero que você me apresente Shun Amamiya. –diz levantando-se para se despedir.

-Como assim? Me apresentar? –questiono confuso.

-Gosto de saber quem são meus pacientes. –fala indo em direção a porta.

-Mas eu não entendi. –digo ainda sentado, vendo ele caminhar pela sala.

-Pense. Quem é você? –responde abrindo a porta.

-Ta bem. –levanto e sigo para a fora. –Então tchau, até semana que vem. –me despeço abanando para ele.

-Até Shun. –sorri acenando discretamente de dentro do cômodo, fechando a porta em seguida.

Sigo pelo corredor até chegar à recepção encontrando meu irmão sentado com os olhos fechados, deve estar cansado depois do longo dia. Trabalhou e quando chegou não descansou nada, apenas se arrumou e veio me acompanhar.

-Ikki voltei. –anuncio meu retorno, cutucando ele no ombro, fazendo-o dar um pulo, parecendo assustado.

-Ah é você Shun. –diz após ser despertado da sua linha de pensamentos.

-Tudo bem mano? –pergunto ao perceber certa estranheza.

-Tudo sim, vou ali marcar a próxima consulta e já venho. –fala rumando até o balcão onde se encontrava a menina.

Meu irmão com certeza não está passando bem. Parece nervoso com alguma coisa, como se algo o incomodasse, até mesmo derrubou sua carteira no chão ao puxá-la do bolso e já ia saindo sem o recibo. Damos adeus para Freia e pegamos o elevador, chegando ao subsolo, onde ficava o estacionamento.

-Irmão tem certeza que ta tudo certo? –não escuto resposta alguma até entrarmos no carro.

-Shun eu preciso falar com você. –responde muito sério.

-O que foi? –pergunto assustado.

-Você não tem nada para me contar? –diz olhando para mim, dando a entender que eu sabia do que se tratava.

-Ah sim, a consulta com o Mu foi muito legal, ele me fez abrir os olhos para muita coisa mano. –tento desconversar.

-Eu quero muito conversar com você sobre a primeira consulta. Mas antes eu quero saber outro assunto. –fala ele indo direto ao ponto.

-Então pode falar. –digo sem ter o que responder, só me resta entender o motivo de Ikki estar tão sério.

-Por que o seu colega Hyoga tem te mandado aquelas mensagens? –questiona sem rodeios.

-Você mexeu no meu celular? –pergunto incrédulo, pois nunca pensei que meu irmão invadiria minha privacidade.

-Sim e quero explicações para aquilo. –fala virando-se totalmente para mim.

-Eu... gosto dele. E ele... parece gostar de mim. Você não deveria ter mexido no meu telefone, eu não mexo nas suas coisas. –continuo sem saber o que dizer ou o que pensar direito.

-Isso não vem ao caso. Shun é sério. Eu não vou com a cara dele. –balança a cabeça negativamente.

-Como pode não gostar dele sem nem conhecer? –realmente nunca consegui entender isso.

-Não vou com a cara dele e pronto. E você só o conhece há uns quatro dias, não é uma vida inteira. –retruca o mais velho já demonstrando irritação.

-Não é motivo o suficiente. –repreendo já começando a me exaltar.

-Você não vê que ele só quer te usar e depois jogar fora? Fica falando de amor a primeira vista, é só papo e você ta caindo. –grita ao me alertar que pode acontecer.

-Para Ikki. –respondo também gritando.

-Não paro. Você sabe que só quero seu bem. –continua, agora com a voz menos alta.

-O problema é porque ele é um menino. Não é mesmo? –acredito esse ser o motivo de tanto incomodo da sua parte.

-Não tem problema ser um garoto. Só não quero que você se machuque. Não quero que ele te use de brinquedinho e depois passe por você sem nem te olhar. Entenda que só quero o melhor para você meu irmão. –fala pegando em minha mão, do mesmo modo que fazia quando éramos menores e eu tinha medo do escuro, Ikki sentava ao meu lado, segurando ela até eu pegar no sono.

-Você pensa mesmo que ele vai fazer isso comigo? –já tenho lágrimas nos olhos.

-Eu não sei. Sinceramente to apenas apostando nas possibilidades. Ta bem, você venceu. O meu santo não bate com o dele. Não há motivo concreto para eu não gostar dele. Só é difícil ver o meu irmãozinho crescer. Você é tudo que eu tenho e não me perdoaria se permitisse alguém te machucar. –termina de falar e me abraça forte.

-Eu entendo. –digo assim que ele me solta de seus braços, ainda com os olhos lacrimejando.

-Me perdoa por ter mexido no seu celular. –se desculpa me entregando o aparelho.

-Eu não tenho o que esconder de você. Fui bobo. –digo admitindo o meu erro, mesmo que tenha sido por medo da sua reação, que por sinal, não foi das piores.

-Eu fui um idiota te falando tudo isso. Esquece tudo que eu disse. Vamos para casa? –estava arrependido, sentiu que as palavras dele me machucaram, odeio brigar com meu irmão, mesmo que seja apenas uma simples discussão passageira.

-Vamos sim. –concordo colocando o cinto de segurança.

Durante todo o percurso de volta mal nos falamos. Acredito que pelo clima criado anteriormente. Meu irmão parecia não querer me olhar e quando o fazia era por poucos instantes. E eu rezando que os sinais de trânsito estivessem todos verdes para chegar logo em casa e cortar a tensão que ainda encontrava-se dentro do veículo.

Finalmente chegamos. Eu desço apressado, não suportava mais aquela atmosfera pesada sobre mim, abro o portão enquanto Ikki guarda o automóvel na garagem. Adentro na residência e subo para meu quarto, jogando-me em cima da cama, só pensava em relaxar e refletir sobre o que Mu me disse. Pego um dos meus travesseiros e escoro a cabeça nele. Em pouco tempo a quietude é rompida pelo meu mais velho abrindo a porta sem bater, aproximando-se de mim com a cabeça baixa.

-Não fica chateado comigo. –pede mostrando tristeza no tom de voz.

-Eu não to chateado com você. –sei que ele me falou tudo aquilo apenas querendo me proteger.

-Mas parece. –fala ainda com a cabeça baixa, sentando na cama.

-Só to pensando nas coisas que o psicólogo me disse. –respondo também sentando.

-E o que ele disse? –pergunta tentando puxar assunto.

-Eu te conto pela manhã. –acredito que se contasse neste momento, ele nem prestaria atenção.

-Ta certo. Não ta com fome? –indaga preocupado, pois já era tarde e ainda não tínhamos jantado.

-Não mano. Só cansado. –só queria deitar e dormir mesmo.

-Se sentir fome ainda tem o resto de pizza na geladeira. –avisa com uma voz mais animada.

-Ta bem. Vou me trocar para dormir. –falo enquanto abro o zíper da jaqueta.

-Sendo assim boa noite. –me dando um beijo na testa.

-Boa noite. –desejo para ele, vendo-o sair do meu quarto.

Ikki desce para a sala, pega o seu celular e manda um sms para Esmeralda.

“Ta acordada?”

Ela responde:

“Sim, algum problema?”

Ikki retorna:

“Preciso conversar com alguém.”

Esmeralda aceita:

“Em vinte minutos estou ai.”

O menino agradece:

“Obrigado, vou te esperar ali fora.”

Assim que termina de digitar, abre a porta e vai em direção ao portão, ainda com o seu aparelho telefônico em mãos, olha para janela de Shun e o quarto está escuro, pelo jeito o caçula havia ido dormir. Clica em lista telefônica e seleciona Hyoga, não importava o que Shun pensaria depois, apenas queria defendê-lo e precisava conversar seriamente com o russo.

-Alô? –atende depois de umas três chamadas.

-Hyoga?

-Sim. Quem fala?

-É Ikki, irmão do Shun.

Continua...

Notas finais
Obrigada pela leitura ^.^
Beijinhos e boa madrugada ♥