Querido diário. Cunegundes, batizaram-me. Na igreja lute­rana, Igreja da Paz. Nem somos vizinhos, é certo que fica um pouco longe, mas ou­vimos bem os sinos quando tocam, anun­ciando o fim do culto, por volta das onze horas. Uma luz em nossos ouvidos e es­tremecemos com o alento daquele estrépito alto e forte que se difunde pela cidade aos domingos de manhã. Conseguia ouvir até os ensaios do coral, mas não havia mais ousado co­mentar isso com ninguém; Papa, embra­veado, pro­ibiu-me. Podiam pen­sar que a filha dele fa­lava bi­rutices. Era engraçado, nin­guém ou­via, somente eu.

Completo hoje meus dezesseis anos de vida. Não um dia qualquer, mas um depois da terça-feira e dois dias antes da Ascensão de Cristo. São as minhas primeiras palavras. Palavras secretas vindas do meu coração. Adorei o presente. Trancada à noite, em meu quarto, enquanto pensava bem afim de não escrever bo­bagens, escrevia só coisas que fossem amáveis antes de co­locar algumas flores para serem esmagadas por suas páginas. Não queria deixar, de jeito ne­nhum, a tristeza entrar; por isso estavam bem chaveados. Querido di­ário, não fique triste nunca.

Papa sempre fora considerado um homem muito distinto em Joinville. Ele e os amigos gostavam das caranguejadas; o que era bem apreciado à mesa como acompanhamento certo para as cervejas tipo Pilsen sempre bem geladas naquelas noites quentes de verão. Fazia parte de um seleto grupo joinvilense, os quinta­feiri­nos do Zeppelin. Fa­lavam mais so­bre negócios, eram ho­mens empreendedores que gostavam de fala­r em alemão entre si, queriam de­senvolver a nossa querida ci­dade; gerar prospe­ridade para as pessoas. O co­mércio que fora herdado dos meus avós tam­bém prospe­rou muito nas mãos dele; por certo que até mais do que antes. O que aca­bou gerando riquezas, pro­porcio­nando-nos uma boa condi­ção finan­ceira, as­sim po­día­mos ter pequenos luxos den­tro de casa; um casarão impo­nente, com três carrões na gara­gem e la­deado por belas flores, como se suspirassem por al­guém, di­ziam as pes­soas na cal­çada. Suspiros que também só eu conse­guia ou­vir.

Temos muitos empregados na casa. Gosto mais da nossa cozinheira; com carinho rebatizamos ela de Baronesa. Uma morena bem dócil. Gosto, gosto, gosto muito dela e não somente por preparar escondido alguns quitutes fora de hora para as crianças. Gosto da Baronesa porque que acredita em mim. Acreditava ser pos­sível que eu ouvisse os ensaios do coral lá de longe. Dizia-me que não ouvia aquelas vozes distantes. Que já estava ficando surda. Baronesa era muito sincera, sempre havia sido.

Podíamos também ter aulas particulares de alemão; eu e meus dois irmãos menores. Um preceptor alemão muito engraçado que usava uma calça sem bolsos cor de burro quando foge e que Papa man­dou buscar em Baden-Württemberg na Alema­nha. Vivia em Ulm e disse que, ele e os amigos da Liga Estu­dantil, con­seguiram adquirir algumas valiosas pechinchas da biblioteca de Her­mann Eins­tein, pai de Einstein. Não atraves­sou so­mente a Alemanha, mas teve de atravessar o oceano, mesmo que en­joasse com frequência em alto mar, pois tinha medo de avião. Ele era bem garboso e se chamava Pangloss. Por opção não falava nada em portu­guês, nem bom dia. En­sinava-nos a falar, a ler e a escrever corretamente o alemão; as vezes “dava uma canja”, já que dominava bem o latim, o inglês e o francês. ”Bon­jour tristesse”, gosto muito do francês. Quero me casar com Cândido e morar em Paris, andarmos juntos de bicicleta na “Champs-Élysée” aos domingos pela ma­nhã. Amo, amo, amo muito Cândido. Queremos ter uma dúzia de filhos juntos. Pangloss já tinha certa idade quando se apresen­tou, mas ainda não che­gava a ser der todo senil. Pa­re­cia ser se­nhor de um castelo. Tinha andar de pombo, daque­les que ficavam no nosso te­lhado. Que engra­çado, lembro-me bem disso, muito pa­re­cido.

Também um oráculo como diziam todos na nossa família, consultando-se com ele; Papa e meu irmão mais velho traba­lhavam juntos naquele tempo, dividiam até o mesmo gabinete. Com a fala mansa dele e aquele olhar por sobre os óculos de leitura Pince-nez, respondia cada uma das dúvidas. Pelo vasto conhecimento que tinha ficou incumbido de for­mar uma bi­blioteca particular. Uma biblio­teca dentro da nossa casa; bem atrás da porta, logo ali ao meu alcance. Não somente amo livros como amo, amo, amo muito escre­ver. Que­rido diário sim eu quero, quero, quero muito ser uma escritora; pre­encher os espaços vazios nas estantes com a minha vasta tristeza.

Eu e meus irmãos não éramos autorizados a sair na rua para brincar, somente aos domingos podíamos abusar das brinca­deiras dentro de casa. Todos nos vestíamos solenemente para esse dia, as melhores roupas que Mama encomendava da cos­tureira. Nas palavras dela “Frau” Serafina era a melhor costu­reira da cidade. Quando a costura está pronta um menino vem até o nosso portão para entregá-la. Parece ser feliz, acredito porque quase voa na sua veloz bicicleta com um cruzeiro que ganhou de gorjeta no bolso. E foi desde então que passei a pensar na pos­sibilidade de também subir numa bicicleta e rodar pelo mundo afora. O que sabia do mundo lá fora se limitava, além do pátio do co­légio, ao que se via através das inúmeras janelas da nossa casa. Via as pes­soas, via as bici­cletas e via as flores do nosso jardim. Nosso jardim que lindo, lindo, muito lindo. Eu gosto de flores, lindas são as flores. Mama também gosta muito. Tem um ajudante para colocar tudo em ordem. Aju­dando a semear beleza, como ela mesma diz. Estão sempre semeando cores em volta da nossa casa.

Nosso preceptor nunca chegava atrasado, era um homem pontual; senão uma das características mais fortes dele. Trouxe-me, certa vez, um presente embrulhado num papel florido e colado com fita D... por todos os cantos; cheio de rosas estampadas em tons pas­tel, aque­las repolhudas cor-de-rosa que tanto eu quanto a mi­nha mãe muito amamos. Um livro em francês, um pe­queno livro, um li­vrinho de Voltaire com uma singela dedicatória dele; que com os raios mornos tocaram meu rosto. Os livros de econo­mia e história, os pe­sados to­mos e os compêndios em ale­mão, eram os preferidos de meu Papa, por sorte a mi­nha. Acaso en­contrasse Cândido escondido dentro de casa, não iria gostar de tal libidinagem: “Um dia, em que passeava nas pro­ximida­des do castelo, pelo pequeno bos­que a que cha­mavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o Doutor Pangloss que estava dando uma li­ção de física ex­perimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a senho­rita Cu­negundes tivesse grande inclina­ção para as ci­ências, ob­servou, sem respirar, as repetidas ex­periências de que foi tes­temunha; viu com toda certeza a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do de­sejo de se tor­nar sábia, e pen­sando que bem pode­ria ela ser a razão sufici­ente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.”

Querido diário, sinto-me menos ansiosa agora que a minha prima está prestes a chegar. Amanhã cedo, eu e a minha filha, ire­mos buscá-la no aeroporto Charles de Gaulle. Foi dela que eu ganhei o meu primeiro di­ário — o único que pos­sui um amor-perfeito seco marcando as suas páginas já ama­reladas pela passagem do tempo — e para quem também dediquei o meu pri­meiro livro de con­tos, num singelo agradecimento, por tudo o que havia recebido deles. “Tudo isso está bem dito... mas deve­mos cul­tivar nosso jar­dim”; hoje, rapidamente, faço minhas as be­las pa­lavras de Vol­taire no pe­queno livro que ganhei do meu profes­sor. Boa noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.