Historias de taverna
1 Reencontro
Notas iniciais
Sob os instrumentos musicais da taverna e o incessante lamurio dos bêbados, estava o antigo comandante de um heroico grupo, um senhor alto, de pele escura, cabelos grisalhos e corpo flácido, que entregou na mão dos civis a segurança de viver longe de feras e horrores abissais. O velho homem carregava um semblante sério, unindo o aroma de seu fumo, com o amargo de sua bebida.
Muitos se aproximavam dele, reafirmando a sua antiga glória, contudo, ele não se sentia confiante o suficiente para se assumir como herói, pois havia perdido muitos de seus aliados, que se sacrificaram para colocá-lo no pedestal em que ele estava.
— Eu nem acredito que está aqui! – Bradou uma voz grossa e ranzinza – Achei que tinha morrido!
O velho se virou, mas não viu ninguém, até o momento em que olhou para o chão, percebendo de que se tratava do seu antigo companheiro, Dorumbar, um anão forte de pelos ruivos.
— Nobre Dorumbar! – Festejou o senhor, levantando – não me surpreendo de vê-lo aqui.
— Swart, está pior a cada dia! – O pequeno tirava dois chifres de sua enorme bolsa de couro, estendendo um ao senhor – Vamos pôr o assunto em dia.
Os bardos pararam de tocar, e as conversas paralelas também pararam, o som da rustica porta se abrindo instaurou um incomum silencio.
— Esse é o nosso druida – Recepcionou Swart, vendo o pálido homem entrando majestosamente na taverna, com todos os olhares travados em seu esplendor – o bom e velho Volg.
— Finalmente! Graças a mãe natureza! – O enorme homem correu na direção de seus antigos aliados, dando um empolgado abraço, cobrindo os seus rostos com o seu enorme cabelo cor de mel. –
— Como está a vida de protetor? – Questionou Swart, arrastando a cadeira para Volg. – É um verdadeiro milagre tê-lo aqui.
O anão murmurava, incomodado com a presença do druida, dando encaradas e determinados goles em seu hidromel, tinha comportamentos impacientes, balançando as suas pequenas pernas que não alcançavam o chão e coçando a sua barba.
— Vejo que ainda não me perdoou pelo que foi feito – Volg sentia os olhares, e a sua áurea magica denunciava as intenções agressivas de Dorumbar, que o encarava com seus olhos tom esmeralda. – Aquilo não foi minha culpa, e você sabe disso não é Dorumbar?
— Tu achas que eu vou esquecer? – Dorumbar tirou de sua bolsa um colar, semelhante a que usavam a algumas décadas atrás. O colar era tecido por um fio magico, e preso em sua ponta, tinha uma gema de cor cinza. – Perdemos inúmeros companheiros por culpa de sua fé!
— O velho Swart e seus companheiros – Interrompeu uma majestosa mulher, que se aproximava da mesa, sua pele escura, vestes e armas não se deixavam enganar, era a mais conhecida ladina de todo o reino – Me juntarei a vocês.
— Ariam... – Swart evidenciou a sua confusão, pois não a via a décadas, mas ela não tinha mudado nada – por favor, sente-se, esses velhos começarão a contar histórias.
— Você lembra por que fomos até lá, não é? – O grande Volg encarava o anão, as suas faces estavam coladas e sempre recuavam para tomar mais um gole de hidromel. – A nossa majestade nos enviou!
— Errado! A Sua majestade! – Respondeu Dorumbar, apontando o curto e calejado dedo para o brasão estampado na roupa do druida. – Eu sou da terra da neve e trovão!
— Fomos pela aventura – Swart apoiou os seus braços sobre a mesa, chamando a atenção pra ele – Nem nos conhecíamos, vocês se lembram? A terra estava infértil, e eles sabiam de onde vinha a escassez.
— Os goblins – Completou Ariam, sorrindo – Eles plantaram em nossas colheitas pequenas sementes que secam a terra, tudo para lucrar com os vegetais de seu próprio povo.
— Os malditos goblins! – Dorumbar se empolgou, deixando um sorriso dourado escapar, quebrando a tensão outrora estabelecida – Aqueles desgraçados eram cheios de truques, lembro-me de suas engenhocas.
— Vocês lembram como confrontamos eles? – Volg sorriu, estendendo o seu copo para que pusessem mais – O Swart e a Ariam serviram de iscas, ficaram na frente da pequena fábrica até que fossem notados.
— Quando eles foram atacados, você fez um enxame de abelhas ataca-los – Aos poucos, Dorumbar se lembrava de algo, ou de um alguém, que estava perdido em sua memória, mas decidiu não dizer nada. – Até hoje não entendo como fez isso.
— Os pequeninos se irritaram, e todos saíram da fábrica – Ariam também lembrou de algo, e ficou evidente em sua face, contudo, algo a impedia de falar. – E foi nesse momento que eu entrei com o Swart. Saímos quebrando tudo que estava lá...
— Eles tinham também uma feiticeira, ela transformou as abelhas do Volg em simples folhas – Swart sorria, mas também compartilhava da confusão de seus companheiros.
Todos que estavam ouvindo a conversa deles se calaram, entrando na mesma confusão que os quatro estavam. Ouviam-se xicaras, o vibrar das cordas recém tocadas, e os barulhos externos provocados pelos ventos e ratos, mas nada foi dito sobre o assunto que todos estavam pensando.
O bardo voltou a tocar, e com a sua habilidade, transformou o silencio em uma música fina e introspectiva, fazendo os antigos heróis retornar para os seus tempos áureos, para buscar a resposta que todos procuravam
— Andem! Nos conte a sua história! – O jovem bardo tocava de forma cada vez mais intensa, e outros músicos seguiram o mesmo ritmo. Os bêbados continuaram quietos, sentando-se ao redor dos anciões, com os olhares perdidos, mas fixados em cada figura épica que estava a sua frente.
— Da parte mais baixa da fábrica, saiu a engenhoca mais ameaçadora deles – Continuou Swart, virando a sua cadeira para toda a taverna. – Um amontoado de metais, era como um lagarto enorme, mas revestido por placas, quando eu e Ariam vimos, nós tocamos que era perigoso demais.
— Sim, recuamos com as nossas faquinhas de ferro – A mulher tirou do seu coldre a espada que Swart usava, ela havia guardado durante anos, como uma recordação do que pra ela, foi a melhor época de sua vida. – Dorumbar não pensou duas vezes, e avançou na direção do ‘’monstro’’.
— É isso ai! – O anão fazia posições mostrando o seu braço forte, se gabando – Não hesitei em nenhum momento! Como um guerreiro deve fazer!
— Você vai contar a parte em que você tropeça e cai? – Questionou Volg, fitando os olhos furiosos de Dorumbar. – A besta foi derrubada graças a um feitiço, que sinceramente, não consigo lembrar quem canalizou.
Quando a conversa estava caindo no silêncio, o bardo trouxe mais uma de seu repertório, uma canção sobre viagens, cujo o toque era singelo, mas o volume oscilava, assim como as ondas.
— Esse rapaz sabe o que faz, você é bom nisso garoto! – Incentivou Swart, dando procedência a história – Quando trouxemos os culpados ao reino, foi nos dado muito ouro, e alguns privilégios.
— Nos ofereceram viagens para os vilarejos vizinhos, que ficavam em ilhas próximas – Acrescentou Volg, tirando um mapa e abrindo na mesa. No mapa, haviam todas ilhas do arquipélago, e coisas curiosas, como um vórtice e um símbolo de cruz na ponta esquerda. – Cada viagem, nos proporcionava mais desafios. Escolhemos a mais distante das ilhas.
— Eu me lembro de cada uma. – Dorumbar parecia reflexivo, abraçou o seu chifre e se encostou na cadeira, com os olhos fechados – Pegamos esse caminho por que queríamos ver o mar, seria uma experiencia única, viajar com... Amigos.
— No mar tinha todo tipo de criatura possível – A cada intervalo em suas falas, ela bebia um generoso gole de hidromel, um costume que nunca se apagou – Sereias, tritões, energias e até enormes baleias.
— Se esqueceu do enorme polvo! – Comentou Dorumbar, abrindo os seus olhos com medo – Uma enorme besta com tentáculos incrivelmente grandes, abraçou o nosso navio e por um pouco não viramos comida!
— Não exagere amigo – Ponderou Volg, mostrando no mapa o desenho do polvo – nós sabíamos que ele era um risco, e nem era tão grande assim, lembro-me que nesse dia a natureza nos salvou novamente, o grande polvo se acalmou sob a fúria da natureza, e voltou para o seu lar abissal.
— Quando embarcamos, estávamos numa sociedade completamente diferente – Swart apontou no mapa, o local mais distante do conjunto de ilhas, onde estava a cruz – Não haviam pessoas normais nas ruas, apenas monges, andando de um lado para o outro falando em línguas estranhas.
— Nos levaram para o palácio logo que chegamos – Ariam colocou uma moeda de ouro na mesa, cobrindo a cruz que estava no mapa. – E havia ouro nas escadas, nos cantos e nos pilares, só se viam pessoas quando elas saiam de suas casas para jogar seus pertences sob o grande palácio.
— Lá dentro, vimos algo que minha mente se nega a esquecer – Volg tirou de sua bolsa uma pequena folha áurea, que reluzia como ouro – Tinham várias criaturas de pé, protegendo uma enorme escultura, mais ou menos do tamanho de uma casa. Era majestoso, semelhante a um rei sentado no seu trono.
— Você pegou essa folha de lá, certo? – Swart suspendeu o colar que estava usando, mostrando uma folha idêntica. – Isso daqui estava espalhado pelos pés daquela enorme construção, a natureza havia tomado conta, correndo dos pés até a ponta da escultura.
— É sério que ninguém vai falar sobre os guardas? – Indagou Dorumbar, virando todo o chifre de bebida. – Aquelas criaturas eram bizarras, tinham a altura e o rosto de um humano, mas pés curvados como pássaros, suas asas viviam encolhidas, duvido que qualquer um daquelas aberrações saibam voar de verdade.
— Fomos chamados para uma celebração – Ariam ria de Dorumbar, enquanto ele ia cambaleando pegar mais hidromel – que na verdade era só mais uma tentativa falha de nos converter.
— Quando negamos, ofereceram a Dorumbar duas opções de armas – Volg pegou mais um papel de sua bolsa, e desenhou as armas oferecidas ao anão. – O primeiro, foi uma espada, o formato dela era algo muito nobre para o nosso guerreiro, ele escolheu um machado, quase do tamanho dele. Essa arma era tão bonita, completamente dourada, com desenhos que remetiam a terra natal dele.
— Era bonita sim, mas me trouxe problema – Dorumbar cambaleava de volta, trazendo todo o barril com muita dificuldade – primeiro eles me ofereceram, depois falaram o custo, eu teria que lutar contra alguma aberração daquelas, não neguei é claro, mas deveria.
— Acontece que o machado não era só uma ferramenta – Procedeu Ariam, olhando para todos na taverna – Ele era uma arma forjada pelas próprias criaturas, existia o encantamento nele, que não permitia que o pobre Dorumbar o largasse.
— A partir daí minha vida foi um verdadeiro inferno! – O velho anão estava com a voz oscilante, transparecendo a sua embriaguez — Dormia e acordava com aquele peso em minhas mãos, e só pra completar, eu perdi a batalha, aquela praga era muito rápida.
— A grande escultura, era na verdade o deus que eles cultuavam – Swart mergulhou o seu copo no barril que Dorumbar trouxe, e tomou muito rápido, para prosseguir a história – Tivemos que ir embora no mesmo dia, nos acusaram de heresia e fomos seguidos até o porto onde deixamos o navio, o que nos fez ir para um outro lugar.
— Correr foi a parte fácil, Swart e Ariam sempre foram bons nisso, eu me transformei no animal mais veloz que conheço, um canídeo das terras áridas – Enquanto Volg explicava, Dorumbar se enfurecia.
— Fale por si só camarada! – Exclamou o anão, batendo o seu chifre na mesa – Eu estava com o machado preso e equipamento pesado! Sem contar as minhas pernas!
— De lá fomos para uma ilha que muitos evitavam passar por lá – Swart apontou no mapa uma ilha dividia em duas, ligadas por uma pequena porção de terra. – O mar fica muito mais agressivo, e o vento bate forte sempre que alguma embarcação se aproxima de lá, e por isso muitos navios mudam o curso.
— De algum modo o machado de Dorumbar repeliu os ventos – Concluiu Ariam – Permitindo a nossa passagem.
— Quando cheguei, percebi que não sentia nada – Volg dava claro sinais de cansaço, mas permanecia ativo devido aos olhares fixados nele – minha áurea não foi invadida, nem senti as forças da natureza. Aquele era um local imaculado, a magia nunca havia chegado até lá, e a terra experimentou uma nova força quando Dorumbar firmou o machado no chão, devido ao cansaço.
O semblante do pequeno guerreiro transparecia dor.
— A terra ficou vermelha, como se todo feitiço oculto no machado se espalhasse – Dorumbar desatou em lagrimas, se lembrando do que aconteceu – As mesmas mulheres que nos recepcionaram e nos deram lar, se transformaram em criaturas medonhas, iguais aos guardas que me ofereceu o machado.
— Tivemos que matar cada uma delas – Ariam ficou cabisbaixa, e colocou a sua mão sobre o ombro de Dorumbar, que tomou mais bebida. –
— Eu sei o que quer falar Volg... – Dorumbar escondia o seu rosto, sentindo vergonha – Naquela noite eu...
— Te perdoei no dia seguinte – Volg segurou a mão de seu velho amigo, dando um aperto firme
— Eu senti que você não queria me matar, mas foi uma ordem dada pelo feitiço do machado.
— Continuem! – Exclamou o bardo, que tocava uma trilha mais intensa, transparecendo nervosismo – Estou sem tempo!
Swart sentiu que aquela voz era familiar, o que lhe trouxe a sensação de confusão que estava tendo no começo, e então decidiu continuar a história:
— Fomos para um reino que ficava próximo ao vilarejo onde houve essa desgraça. Na verdade, eram dois reinos vizinhos, um casal importante havia se separado, a mulher governava as terras do sul, e o rei governava as terras ao norte, estou confuso quanto ao nome dele...
— Swart você sente isso também? – Questionou Volg, sentindo-se observado e se vendo por uma outra perspectiva. – Será que...
— Esse tempo todo – Sussurrou Ariam
— Aquele que estava escondido em nossas memorias – Sussurrou Volg
— Era o nosso mago – Sussurrou Dorumbar
— Mintaka – Exclamou Swart, vendo tudo ao seu redor ficar cinza, com a exceção de seus companheiros e do bardo. – O rei cinzento nunca foi destruído.
— Socorro! – Exclamou Mintaka, o mago, usando a imagem do bardo que se esvaecia, sumindo com o vento.
Os aventureiros se levantaram, vendo todos que estavam na taberna congelados, olhando para o ponto em que eles estavam. Dorumbar saiu pelas portas da taverna, observando o céu, que agora estava opaco e cinza.
— Temos um trabalho a terminar – Determinou Swart, pegando a antiga adaga que Ariam tirou de seu coldre e dando um último gole no hidromel. – Vamos destruir o rei cinzento!
Os aventureiros saíram da taverna, convencidos a resgatarem o seu precioso amigo, e mais uma vez, machados, magias, adagas e os seus corações, encarariam a adrenalina novamente
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