Historias de amor

7 Um amor impossível


Notas iniciais
Muito perto de Emília, seu colega Jose era também um resignado no casamento. Pai de duas filhas vivia sonhando com o dia que elas estivessem adultas e se casassem, para que pudesse sair do lado daquela ciumenta imbecil que o atormentava falando burrice, sempre de mau humor. Se ele tentasse tomar um chope com os amigos, ela lhe negava amor quando regressava para casa. Não adiantava explicar nada, pois era teimosa e esperta em fabricar fantasmas ao redor dele. E depois o ameaçava com o divorcio por bigamia. Ele já estava CHEIO!

Emília dormiu chorando naquela noite, mais uma vez, pois sua vida era um pesadelo. Seu marido era um homem cruel e perverso, que a martirizava das mais diversas formas. Desde que casara, havia passado por muita coisa. Primeiro, foi à falta de amigos, pois ele afugentou todos os homens que conhecera antes e depois de casar. Seu ciúme era um tormento, sempre vigiando suas conversa como um espião em busca de um amante fictício. Para cúmulo, ameaçava-a de morte, e teve ocasiões em que apanhou com sadismo.

Ela pensava esperar com paciência seus filhos crescerem, e depois disso, quem sabe, tomar um avião para o outro lado do mundo e nunca mais ver o patife. Com sorte, um dia Deus lhe daria a graça da liberdade. Emília havia consultado advogado, em várias ocasiões, para se aconselhar sobre um divorcio. E sempre era a mesma coisa. Seu marido era um exemplo de homem, respeitado na sociedade, rico, generoso, fiel, bom pai, não havia nenhum motivo para solicitar um desquite. Ela podia tentar, mas, ficaria sem os filhos, sem pensão, pois com certeza ele ia levar testemunha falsa para alegar milhares de defeitos dela. Principalmente “desequilíbrio emocional”, dada às diversas crises depressivas de Emília, pois fazia vários anos que ela fazia tratamento com psicóloga para suportar essa união.

Muito perto de Emília, seu colega Jose era também um resignado no casamento. Pai de duas filhas vivia sonhando com o dia que elas estivessem adultas e se casassem, para que pudesse sair do lado daquela ciumenta imbecil que o atormentava falando burrice, sempre de mau humor. Se ele tentasse tomar um chope com os amigos, ela lhe negava amor quando regressava para casa. Não adiantava explicar nada, pois era teimosa e esperta em fabricar fantasmas ao redor dele. E depois o ameaçava com o divorcio por bigamia. Ele já estava CHEIO! Se ao menos ela fosse uma boa mãe, aí dava para ir embora antes. Mas, nada disso. Ela passava o dia em festas de amigas, seja jogando baralho, seja andando na rua para perder peso, ou na massagista, no cabeleireiro e as filhas ficavam sozinhas em casa aos cuidados da babá.

Quem tinha que supervisionar tudo em casa era ele.

Levava as filhas ao clube, contava-lhes estórias à noite, enfim. Se ele abandonasse tudo seria um desastre, pois elas não teriam nem mãe nem pai e, um dia, podiam ainda ficar iguais à mãe, que odiava todos os homens. Para o cúmulo, seu advogado tinha-lhe falado que a custódia após o divorcio era sempre da mãe, a menos que ela fosse desonesta ou infiel. Como é que ele poderia afirmar isso se sua esposa era a presidenta da maior rede feminista da cidade e amiga das mulheres mais ricas, que nem ela?

E foi assim que ele foi aguentando a barra com paciência.

Quer dizer, até que Emília começou a trabalhar no banco, pois ele se apaixonou a primeira vista, perdidamente, estupidamente, até fazer o ridículo de engasgar na hora da entrevista frente dela. Examinou seu currículo, perguntou-lhe muita coisa sobre administração e terminaram falando sobre ópera. Nossa! Ela tinha a maior coleção de música erudita em casa e lhe prometeu emprestar tudo para gravar.

E depois disso, eles foram os melhores amigos na hora do café, antes de começar o expediente, e no fim do dia quando dava para conversar. Falavam das crianças, pois ambos eram pais corujas, literatura, música, enfim. Com o passar de o tempo vê-los rindo dentro do trabalho não era nenhuma novidade.

E a amizade teria sido eterna, se o “fofoqueiro incógnito” não atravessasse na vida deles. A fofoca maldosa de que ambos eram amantes se espalhou dentro e fora do banco do dia para a noite, como uma bomba.

Emília foi espancada em casa frente aos meninos, e depois levada ao hospital por vizinhos com feridas múltiplas. Dentro do hospital Emília foi interrogada por um policial da “Delegacia da mulher” para dar queixa, e seu marido foi detido e levado para a cadeia. Depois foi consolada pelas colegas do serviço, quem chegaram a vê-la com flores e presentes, e também soube através deles que Jose havia colocado no olho da rua o responsável pela mentira, e que a esposa havia viajado para Europa com umas amigas. Em seguida se retiraram com o rosto triste pela desgraça acontecida com ela.

Emília ficou na semiescuridão se perguntando o que é que ia fazer dali para frente. Enquanto adormecia, as lágrimas escorriam pelo rosto de tanta humilhação. Havia conhecido o príncipe de sua vida tarde demais. E com certeza nunca mais o veria, pois seu marido a obrigaria a sair daquele emprego, como sempre fazia.

Ao anoitecer, ela jantou, tomou um banho refrescante e ficou a olhar a TV até tarde. Nem percebeu quando a porta abriu lentamente e uma figura alta entrou no seu quarto e trancou a porta com chave. Girou a cabeça e viu José, que caiu por cima de sua cama sem falar nada. Emília abriu a boca para receber seu beijo sedento e subiu os braços para abraçá-lo. Em pouco tempo, eles estavam numa relação de amor e ternura, que se alastrou por longas horas.

Foi essa a primeira vez que Emília soube o que ser amada de verdade, e Jose, finalmente encontrara uma mulher que não reclamava de seu fogo da paixão. Além do mais, ela fazia de tudo para reativar sua fome de ternura e carinho. E o encontro terminou, quando esse hospital começou a fazer barulho nos corredores com os carrinhos do café da manhã. Jose saiu desse hospital sorrateiramente, depois de convencer o médico para que Emília ficasse mais um dia internada. Afinal, o banco estava pagando todas as contas.

E foi assim, que ele correu ao encontro desse amor, mais uma vez, quando a noite estendeu seu manto sobre a cidade. Entrou no quarto dela muito mais aflito que a noite anterior, e ficaram mais ousados desta vez, pois de alguma maneira sabiam que nunca mais se encontrariam. Amaram-se incansavelmente, até o amanhecer.

Emília começou a chorar antes de ele partir. E falou-lhe entre lágrimas:

— Eu nunca vou deixar de amá-lo, nunca. Vou morrer um dia lembrando-me de seu rosto. Eu juro...

— Eu também... Depois que minhas filhas casarem, eu vou me suicidar...

— Não faça isso, que é crime Cármino, meu amor... Depois de morrer espere por mim, ou eu espero por você. Na próxima encarnação com certeza vamos ser marido e mulher, acredite.

— Encarnação? Você acredita nisso?

— Escute, meu querido, tente idealizar uma tela branca, e depois imagine nessa tela tudo o que desejar para nosso futuro. Tente, eu sempre faço isso...

— Sempre? E como é que casou com o troglodita?

— Porque eu me desenvolvi em casa, depois de casar, através do correio. Eu recebo material de Esoterismo, faço exercícios de vidência e sabia que um dia ia encontrar o homem de minha vida. Não desta, mas do meu futuro, da eternidade... Vai, fala o que quer que aconteça conosco, fala...

— Hum... Eu quero que na próxima encarnação você seja minha esposa com 13 anos, e quero que me dê 20 filhos... Sempre sonhei falar isso... Há, há, há....

— Não pensa em trabalhar?

— Não! Vamos ser índios e viver do que a natureza nos der... O que acha?

— Maravilhoso! Lindo! Vou viver despida, numa oca, balançando numa rede...

— E vai ser amor e só amor o tempo todo...

José e Emília nunca mais se encontraram.

Ela continuou casada, e viajou para outra cidade quando seu marido foi transferido pela empresa. Como ele nunca mais a surrou, pois ficara na cadeia uma semana por causa disso, ela, ao anoitecer, fechava os olhos, imaginava que José estava ao seu lado e fazia amor pensando nele. Durante o dia, nunca olhava para o marido, falava quase nada e quando ficava a só escutava música ou lia seus livros.

E o tempo passou, sempre igual, pensando em José cada minuto de sua vida. Um dia, suas filhas cresceram, casaram e abandonaram-na. Ela envelheceu, e morreu lembrando-se do amado e desse encontro no hospital no seu passado.

José pela sua vez se dedicou a trabalhar.

Quando sua mulher voltou da Europa ele havia se instalado no quarto de hóspede e dormiu dali para frente sozinho, com seu quarto fechado. De vez em quando, tinha uma amante, a quem beijava de olhos fechados pensando em Emília. Quando suas filhas casaram, ele se aposentou e se perdeu viajando pelo mundo. Morreu um dia qualquer, num país distante, pensando em Emília.

Eles passaram pela transição da vida para a morte, no mesmo dia, na mesma hora, em lugares distantes. Ambos caminharam por um túnel de luz, encontrando-se no meio do caminho. Seus espíritos se abraçaram, beijaram-se com ternura, enquanto uma brisa começava a guiá-los para um túnel de luz azul que apareceu de repente. Depois entraram num túnel verde, onde continuaram no amor e no chamego, numa roda que duraram milhares de anos cósmicos. Era como se o Carma os recompensasse do grande sacrifício que ambos fizeram por amor aos filhos. Ficaram separados durante a vida na Terra durante trinta anos, apenas um milésimo do que vivenciaram após a morte, pois essa viagem para outro mundo durou milênios sem fim.

No imenso planeta “Q” do Sistema Gama, um espírito veio recebê-los e abraçá-los, dando-lhes as boas vindas. Acompanhou-os num passeio, para que conhecessem o novo lar. Era um mundo civilizado, cheio de palácios deslumbrantes, com uma tecnologia muito avançada. Existiam carros que voavam, e outros que deslizavam sobre a água e submergiam no mar. Havia cidades em toda parte, na selva, no deserto, embaixo do mar e algumas cidades pequenas voavam sobre plataformas gigantes. Enquanto aos homens eles eram tão lindos, mais tão lindos, que pareciam anjos.

— E daí, amigos, onde querem nascer?

Jose falou imediatamente:

— Na selva... É possível ter 20 filhos?

— Claro... Depois que cheguem da Terra seus filhos, seus netos, seus bisnetos, acho que todos eles vão nascer de vocês... As famílias que se amam de verdade migram juntas. Até seu cachorro pastor vai chegar junto com os 20 gatos de Emília.

E ambos começaram a rir. Depois José perguntou de novo:

— E enquanto a trabalhar, posso não fazer nada de nada?

— Não! Vai ter que estudar alguma profissão, fazer estágio, de graça, pois aqui não existe a grana, e depois vai ter que ensinar o que sabe na escola durante uns 5 anos. Depois disso, pode começar a vida mansa...

— Nada de grana? Nossa! Passei de milionário para paupérrimo... O que acha amor?

— Milionário? Mas como, assim?

— Amor, nunca soube que o banco era meu?

— Não! Ninguém me contou! Quer dizer que eu me apaixonei por um grão fino? O que viu de tão bom em mim?

— Hum... Seios grandes... Depois que me seduziu naquele hospital eu nunca consegui ser dono de mim mesmo... E você, do que gostou?

— Sua inteligência... Detesto homens burros...

— Agora vou ser, pois não vou estudar nada de nada. E antes de nascer me prometa que nunca mais vai olhar para outro homem. Jure para mim!

— Juro, e você nada de mulheres...

— Prometido... Com que idade podemos nos casar, amigo?

— Depois da primeira menstruação da mulher, e saibam que vão se conhecer na Escola Infantil. Ou seja, com três anos já vão estar juntos...

— Querida, eu vou ser um menino muito sem-vergonha... Se prepare...

E rindo, José e Emília se prepararam para nascer num mundo, onde o amor impossível era inviável de acontecer.

Notas finais
Eles passaram pela transição da vida para a morte, no mesmo dia, na mesma hora, em lugares distantes. Ambos caminharam por um túnel de luz, encontrando-se no meio do caminho. Seus espíritos se abraçaram, beijaram-se com ternura, enquanto uma brisa começava a guiá-los para um túnel de luz azul que apareceu de repente. Depois entraram num túnel verde, onde continuaram no amor e no chamego, numa roda que duraram milhares de anos cósmicos. Era como se o Carma os recompensasse do grande sacrifício que ambos fizeram por amor aos filhos.