Notas iniciais
Sua amiga já não se chamava mais Alice, não, agora ela era Tara, e dizia que seu marido Ivan a tinha procurado. Em seguida, a conversa mais besta do mundo começou a chegar aos seus ouvidos. Ela estava completamente autista, em plena Pré-história, há um milhão de anos na África. Alice se negava a vestir-se e não queria se pôr-se na cama, não. Ela deitava no chão, onde se sentia mais confortável. Até dava vontade de rir. Tudo era muito louco.

Alice era uma mulher para quem a vida sorrira. Era rica, casada com um homem de negócios, mãe de dois filhos às vésperas do vestibular, cheia de amigos, com uma casa que mais parecia uma mansão, um trabalho excelente, enfim. Na verdade, nenhum de seus amigos podia imaginar que ela um dia poderia virar uma “mulher das cavernas” e muito menos do por quê?

Foi durante uma viagem de negócios do marido que ela fez o primeiro strip-tease de sua vida.

Jaqueline, amiga íntima de Alice, recebeu um dia um telefone do filho mais velho da outra, aterrorizado, contando que sua mãe estava falando coisas estranhas e andava totalmente despida dentro de casa. Para cúmulo queria queimar os móveis, alegando que precisava de uma fogueira para fazer o jantar.

Imediatamente, Jaqueline abandonou tudo dentro de casa e correu até lá para ver o que estava acontecendo.

E ficou atônita!

Sua amiga já não se chamava mais Alice, não, agora ela era Tara, e dizia que seu marido Ivan a tinha procurado. Em seguida, a conversa mais besta do mundo começou a chegar aos seus ouvidos. Ela estava completamente autista, em plena Pré-história, há um milhão de anos na África. Alice se negava a vestir-se e não queria se pôr-se na cama, não. Ela deitava no chão, onde se sentia mais confortável. Até dava vontade de rir. Tudo era muito louco. Sem saber o que fazer, Jaqueline chamou os amigos íntimos, para que eles viessem ajudar a cuidá-la, até que o marido voltasse de sua viagem.

Na sua retrospecção ao passado, Alice estava muito feliz, exatamente o contrário de todos os que a rodeavam. Encontrara Ivan, o único amor de sua vida, com quem havia casado na África quando o homem era cheio de cabelos e era livre como um pássaro. Ele ainda não aparecia fisicamente, mas era questão de tempo. Telepáticos como eram, ela escutava com clareza as falas de amor, como fazia sempre que se ausentava em busca de comidas na floresta. Dizia-lhe que em pouco tempo estaria de volta e que a levaria a passear na beira da lagoa, onde lhe faria mais um filho. Também ia trazer sementes lindas, penas de passarinho, conchas, para que fizesse um colar novo, e mandioca para assar na brasa. Alice se estendeu no chão sorrindo e sonhou profundamente com sua vida na pré-história:

"Tara, filha de uma mãe com muitos filhos, nasceu na África quando o homem ainda não sabia nem falar. Eles somente ouviam através da mente, num dialeto primitivo, e a boca ficava sobrando para beijar, sorrir, comer e gritar alguns sons como Má ou Rá. Numa certa tarde, olhando para o Sol se pôr na lagoa, um rapaz a imobilizou por atrás com os braços. Depois, ele começou a beijar seu cangote, e a lhe falar que era louco por ela desde que a vira caminhando pela floresta. E o amor floresceu, com o ímpeto natural da juventude. Deitados na grama macia, o dia foi transcorrendo, enquanto eles se beijavam, riam e se faziam cocegas, beijavam de novo, numa roda eterna de amor e ternura.

E a noite os rodeou, negra como nunca. Alice e seu amor dormiram abraçados, e ao amanhecer, Ivan lhe pediu para casar com ele, imediatamente, pois queria amá-la para sempre. De mãos dadas, subiram pela montanha, interrompendo a caminhada para comer frutos, esvaziar o intestino entre as árvores e namorar nas encostas dessa montanha alta e empinada, ou contra um tronco firme. Como ambos eram da mesma altura, se abraçavam formavam um corpo só, por longas horas. Uma vez no cume, pediram para o Sol que os unisse em casamento, não só dessa vida, mais de todas as vidas do futuro. Um raio desceu iluminando-os, e foram ligados pela eternidade.

Depois daquele dia, eles ganharam um lugar especial nas cavernas, para recém-casados. Uma espécie de abertura redonda, com um colchão de peles macias e um travesseiro feito de pele recheada de penas de aves. Alice deitava, recebia as caricias do amado, e namoravam em meio da escuridão até que uma dor no estômago os lembrava de que era a hora de comer e se alimentar. Sorrindo, saiam engatinhando para o grande espaço dessa caverna gigante e comiam as sobras que os outros deixavam. Depois, iam para o mato a nadar na lagoa, correr pela floresta e subir nas árvores, onde Alice sentava num galho firme, abraçada ao seu amor, rindo, beijando, pois a vida deles era só de felicidade.

Como Ivan adorava viver no mato, ele construiu uma casa entre as árvores com troncos firmes, com uma cama com bastantes peles, onde deitava com sua mulher de dia e de noite. Eles só tiveram que maneirar o chamego, quando a barriga de Alice começou a aumentar dia após dia, sem que ela nunca chegasse a menstruar.

Além do pão de farinha de mandioca, as mulheres mais velhas faziam uma sopa com ossos recolhidos na floresta, depois que os animais carnívoros saciavam a fome de suas vítimas. Elas lavavam os ossos no rio, e depois os ferviam para tirar a substância. Acrescentavam ervas aromáticas, legumes, mandioca e comiam em cumbucas de argila. Era uma comida afrodisíaca que devolvia o vigor. E quando uma mulher engravidava, ela era a primeira a beber dessa sopa para trazer ao mundo homens fortes e sadios.

Também Ivan aprendeu com os mais velhos, que o leite era sagrado e indispensável para o bebê, pois dele dependia a vida da criança. Por tanto ele devia fazer massagens nos seios dela, com gordura, para ter muito leite para o filho.

Quando o bebê de Tara nasceu, ela foi socorrida pela sua mãe e suas tias, que lhe indicaram tudo que devia fazer. Tara foi separada do marido uns 8 dias antes de nascer a criança e passou a fazer uma dieta especial, apenas sucos de frutas, sopas e leite de cabra. Nada de mandioca nem massas, para ter o estômago livre na hora do parto. Quando as dores começaram, foi levada para a beira da lagoa, onde se estendeu na areia com a água até a cintura. Abriu as pernas e começou a fazer força como mandava sua mãe. Seu filho saiu nadando de dentro dela como um peixe e em seguida a placenta saíra junta, sendo disputada pelas mulheres para fazer cremes para rugas.

Depois chegaram os homens para conhecer o menino e foi à primeira vez que Ivan chorou em público ao segurar o rapaz no seu colo. Beijou sua mulher, orgulhoso, pois todos falavam que era o maior guri já nascido na tribo.

Dali para frente, a vida deles mudou um pouco. Dormiam com a criança envolvida com folhas secas e peles, no meio deles. Para completar sua felicidade sua mãe cozinhava para ela desta vez, ela saía do aconchego dessas peles macias para comer e nadar na lagoa com o marido e o filho, que a cada dia ficava mais gordinho, mais lindo e mais forte".

Alice acordou de seu sonho, revoltada, pois voltou de sua viagem ao mundo da fantasia, como quem desce do Paraíso para o Inferno. Ao seu lado viu seu marido, suas amigas abraçadas olhando-a com piedade, e um psiquiatra fazendo o diagnóstico de sua “loucura”.

Depois sua vida ficou insuportável.

As drogas começaram a ser empurrada na sua boca uma a uma, até ficar com convulsões pela superdose. O marido passou a chamá-la de “doida”, seus amigos de “doente”, perdeu seu emprego e passou a viver confinada no meio da solidão, sem sequer entender do por quê?

Jaqueline um dia foi tirada de casa pela segunda vez, escutando a empregada de Alice que havia acontecido algo terrível. Chegou à casa de sua amiga ainda a tempo para ouvir suas últimas palavras:

— Ele está me esperando...

— Quem?

— Ivan... Ele morreu em Camboja durante a opressão... Vou me juntar com ele... Nunca mais vou ser de outro homem... Nunca, pela eternidade...

E Jaqueline viu as caixas de drogas — contra a esquizofrenia — todas vazias ao lado da cama. Sua amiga tinha se suicidado.

Durante o enterro de Alice, Jaqueline viu duas figuras luminosas sorrindo para ela, flutuando, se elevando para o Céu. Fechou os olhos morrendo de medo. Nunca contaria para ninguém o que vira, é claro. Afinal, ela não acreditava nas almas penadas, nos mortos que se comunicam com os vivos, e muitos menos em vidas passadas e reencarnação.

Notas finais
Jaqueline um dia foi tirada de casa pela segunda vez, escutando a empregada de Alice que havia acontecido algo terrível. Chegou à casa de sua amiga ainda a tempo para ouvir suas últimas palavras: - Ele está me esperando... - Quem? - Ivan... Ele morreu em Camboja durante a opressão... Vou me juntar com ele... Nunca mais vou ser de outro homem... Nunca, pela eternidade... E Jaqueline viu as caixas de drogas - contra a esquizofrenia - todas vazias ao lado da cama. Sua amiga tinha se suicidado.