Histórias diversas
1 Jorge e Sara Mudam de Vida
— Que festa chique vocês resolveram dar, Sara! O champanhe, o pianista, e aquela lagosta então... Digna dos deuses!
— Obrigada! É o mínimo que podíamos fazer.
— Nossa, mas é uma pena que você e o Jorge estão se mudando. Toda a comunidade vai sentir falta de vocês. Mas como seu marido foi promovido e enviado para os Estados Unidos... Vocês devem estar tão animados!
— Estamos, estamos sim! – sorrindo.
— Olha eu vou te dar uma dica. Tem um restaurante francês na Times Square que você vai amar. O chefe de lá faz um mouclade charentaise ma-ra-vi-lho-so!
— Já está anotado!
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Fim de festa.
— Conseguiu contar pra eles? – disse Jorge.
— Não, e você?
— Também não. Até porque eu duvido que alguém desse bairro saiba o significado da palavra “falência”.
— É, eu também. Mas pelo menos o jantar saiu como o esperado.
— Você acha que alguém descobriu a lagosta comprada do restaurante da esquina?
Sara riu.
— Acho que não. Claudia até disse que estava “digna dos deuses” – disse imitando a velha.
Os dois riram.
— Sinto muito fazer você se afastar do seu emprego. Sei o quanto você gostava do seu emprego de design de interiores na Home.
— Não se preocupe, Jorge. Afinal teremos que nos mudar. Essa cidade agora está fora do nosso padrão.
— Ainda bem que não temos um filho. Já pensou como seria caro?
Sara concordou e começaram a empacotar as coisas.
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— É... Não é como a nossa casa antiga mas... Acho que vai servir – disse Jorge.
— Precisa de uma pintura nova.
— É por isso que compramos as tintas.
— Nessa hora eu agradeço pelo menor número de cômodos.
— E por cômodos menores.
Antigamente, teriam contratado um pintor, mas hoje teriam que por a mão na massa... Ou melhor... Na lata.
— Ei! Porque fez isso!? – disse Sara rindo com a cara cheia de tinta.
— Você invadiu o meu espaço! Eu falei que se invadisse o meu espaço eu não ia perdoar você!
— Então que haja retaliação! – disse Sara enquanto transformava a cara de Jorge em uma “obra de arte” – Até que não está tão mal.
Fim do dia. Fim do expediente. Os dois deitaram ali na sala mesmo. O colchão jogado no chão estava bem longe daquele da antiga casa, mas até que parecia confortável.
— Você pintou bem esse lado – disse Jorge apontando pra cara de si próprio.
— Em minha defesa foi você quem começou.
— É você tem razão.
Os dois olhavam para o teto.
— Sabe... Eu sei que a gente conversou sobre o negócio de ter filhos.
— Ahn? – disse Sara olhando curiosa para Jorge.
— Mas é que... Bem... Eu não acharia uma má ideia... Sabe...
— Não precisa dizer... Eu também não acho uma má ideia...
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Jorge e Sara jantando.
— Sabe. Já faz um ano que moramos aqui e até que eu já estou me acostumando. Quer dizer, não tem piscina nem churrasqueira. Nesse novo emprego eu não tenho mais trabalho acumulado... O salário é menor, mas eu tenho mais tempo agora.
— E o meu trabalho como professora do curso de design de interiores não paga bem também. Mas concordo com você.
— Saímos de uma vida cheia de pompas, mas vazia de sentido... Deixamos o vinho e hoje comemoramos com refrigerantes.
Sara riu.
— Mas sabe... – continuou Jorge – Eu sinto que estamos exatamente onde devíamos estar.
Ted latiu.
— Temos até um cachorro agora – disse Sara – Quando foi que tínhamos tempo para ter um cachorro!?
— Acho que mesmo não tendo tudo o que tínhamos antes, ainda sinto essa casa cheia!
— E está prestes a ficar ainda mais – disse Sara sorrindo enquanto colocava a mão sobre a barriga.
— Então quer dizer que...
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