Histórias diversas
3 A beleza nos detalhes
Você já viu uma folha cair tão devagar de uma árvore, que parecia que o tempo estava parando? Já parou alguma vez para ver como é incrível o trabalho em equipe que as formigas realizam pra levar um folha dez vezes mais pesada que elas para dentro do formigueiro? E as nuvens que sempre parecem formar um desenho mais maluco que o outro? Esses dias eu vi dois coelhos um de frente para o outro aparentemente brigando por um cenoura. Infelizmente assim que desviei o olhar as nuvens já tinham tomado outra forma e eu não vi o final da briga.
Teresa costumava enxergar tudo em grande escala. Corria no trabalho para finalizar os relatórios, corria para não se atrasar na faculdade. Afinal de contas é assim que o mundo é hoje. Ou você corre, ou você fica para trás. Será mesmo?
—---------
— Demitida?
— Sinto muito, Teresa. Sei o quanto você se esforça aqui dentro, mas a empresa está precisando cortar gastos. Mas não se preocupe, vou fazer questão de deixar um ótima carta de recomendação sua.
Teresa saía do escritório pisando tão forte no asfalto que seus saltos poderiam perfurar o chão.
— Recomendação... – pensava – Ela vai ver a recomendação.
Retirando os saltos apertados e segurando-os nas mãos, saiu sem rumo, até chegar em uma praça, onde sentou-se próxima a uma fonte, localizada no centro do espaço. Ela nunca tinha reparado quanta gente desocupada tinha naquele lugar. Crianças jogando bola na grama, casais fazendo piquenique em família... Como tinham tanto tempo pra isso?
— Com licença, moça – disse um rapaz se aproximando – Poderia me ajudar a tirar algumas fotos? Eu faço faculdade de fotografia e a sua frustração está dando um belo contraste com esse ambiente.
Teresa franziu o nariz.
— Então eu sou o seu modelo de auto depreciação?
— Me desculpa, eu estava brincando – disse rindo – Meu nome é Lucas. Eu não estava brincando quando disse que fazia faculdade de fotografia. Eu só gosto de reparar os detalhes das coisas.
Teresa abaixou a cabeça.
— Aposto que deve ter visto a minha frustração como mais um nota pra sua faculdade.
— Na verdade não, olha só – disse enquanto mostrava algumas fotos que já havia tirado dela.
— Seu tarado!
— Calma, olha isso – disse enquanto se sentava ao lado dela entregando as fotos.
Teresa via que apesar de toda frustração sobre o que acabara de acontecer, seu rosto parecia apresentar um pequeno sorriso inconsciente.
— Eu não entendo – disse ela – Agora há pouco eu estava olhando as pessoas achando elas um bando de desocupadas.
— Mas parece que você estava gostando de ver elas se divertindo.
— Divertindo... Está aí uma palavra que eu não ouço muito.
— Mas porque, você não gosta?
— O meu caso era mais do tipo “não tenho tempo pra perder com isso”.
— Uau – disse Lucas rindo – Então o que está fazendo aqui senhora “não tenho tempo a perder”?
—---------
— ... E é por isso que eu estou aqui agora no meio do dia.
— Sinto muito... Mas quer saber? Isso pode ser uma excelente oportunidade.
— Oportunidade?
— É! Vem comigo!
Lucas puxou Teresa pela mão. Chegando perto da família que fazia piquenique, pediu permissão para registrar algumas fotos deles, os quais permitiram.
— Aqui, Teresa – disse pondo sua câmera nas mãos dela – Tira uma foto deles e me diz o que você vê.
— Mas eu não sei usar uma câmera!
— Vai, não é difícil. Você mira e aperta esse botão.
Teresa reluta, mas tira uma foto praticamente descente.
— Agora me diz o que você vê.
Teresa olha e diz ver o que a foto mostra: uma cesta, tortas e bolos, dois adultos e duas crianças comendo.
— Me empresta essa foto – disse Lucas pegando a foto das mãos de Teresa – Sabe o que eu vejo? Formigas!
— Formigas?
— Formigas! Olha!
Lucas aponta para o canto da foto ao mesmo tempo em que conta como as formigas conseguem carregar até dez vezes o seu peso.
— É realmente extraordinário! – diz Teresa rindo.
— E não é? Agora vem aqui.
Os dois se deitam sobre a grama e Lucas tira uma foto do céu. Novamente pergunta para Teresa o que ela vê. “São só nuvens!”, diz ela rindo.
— Claro que não, olha! Claramente são dois coelhos brigando por uma cenoura!
— Você tem muita imaginação! – os dois riam – Onde você quer chegar com isso?
Lucas olha para Teresa.
— Teresa, pelo que você me contou, você passa tanto tempo correndo que está deixando muita coisa pra trás. Foi muito ruim você ter perdido o emprego hoje, mas será que talvez não dê pra interpretar isso como uma oportunidade de ir um pouco mais devagar?
Teresa deixa de olhar para Lucas e volta a olhar para o céu, refletindo e tentando encontrar os dois coelhos.
— Talvez você tenha razão! – diz ela olhando novamente para Lucas – Mas me diz uma coisa: como as formigas conseguem carregar tanto peso?
— Ah isso é interessante! Isso só acontece por causa do tamanho delas que favorece a massa muscular que é muito maior do que a massa corporal. Fora o esqueleto delas que é...
Fale com o autor