Histórias de Pescador
1 Capítulo 1: O Passado
Em meio a madrugada, podia se ver o horizonte apenas com a luz do luar, e tudo que eu conseguia enxergar era a imensidão do oceano.
Pequenas ondas batiam sobre a proa do velho barco de meu pai e com o passar do tempo sentia a brisa gélida transpassar entre os meus cabelos loiros e também já esbranquiçados pela idade. Fazia anos que não voltava para lugar tão desgraçado, mas era necessário, afinal, eu devia isso para meu pai e meu irmão.
A cada beijo que a água salgada dava ao barco percebia que ele estava em seus tempos finais. A pintura antes toda azulada, agora estava em seu branco enferrujado, assim como a cabine que tinha sido um lugar invejável entre os pescadores, meu pai cuidadosamente se atentava a todos os detalhes daquela embarcação, agora, nem as gaivotas queriam pousar em lugar tão sórdido.
Com o passar do tempo, começo observar uma grande névoa vindo em minha direção, sinto imediatamente minhas veias pulsarem de raiva, estava se aproximando da minha fria vingança e sabia que não tinha mais volta. Conforme chego cada vez mais, minhas lembranças reaparecem em minha mente e posso sentir o forte odor de como estava o mar naquele dia.
“32 anos atrás”
O cheiro do mar era incrível!
Uma mistura clara de sal com peixe, era maravilhoso, pela primeira vez, estava em alto mar.
Meu pai e meu irmão mais velho, tinham vindo várias vezes, mas agora, com 10 anos, meu pai já tinha me confiado a ajudar o meu irmão na pesca, e eu orgulhosamente aceitei.
Meu irmão, estava com quase vinte anos e eu podia ver em seus olhos castanhos claros que aguardava ansiosamente um futuro brilhante se aproximando, passava dia após dia em seu pequeno quarto estudando por horas para passar no vestibular. Seus cabelos eram iguais os meus, mas sua pele diferente da minha que era um branco quase esquelético, era totalmente bronzeada por causa do forte sol que tomava em alto mar. Quando não ficava em seu quarto estudando, meu pai o chamava para trabalhar com ele, e sumiam por quase um mês, o que me deixava totalmente confuso, já que isso provavelmente atrapalhava bastante os estudos de meu irmão, mas aparentemente isso nunca o impediu de sempre voltar com um sorriso largo toda vez que chegava em casa, era como se algo o tivesse renovado. Por alguma razão, trabalhar como pescador fazia com que meu irmão estudasse ainda mais, e isso me deixava extremamente curioso do que tinha lá para ele voltar tão bem.
Mas agora, eu sabia.
Ver uma imensidão azulada em um fundo sem fim para onde você olhava, junto com um céu alaranjado com quase nenhuma nuvem, a única coisa que tinha ao horizonte era uma estrela amarelada com uma áurea vermelha em sua volta, pela primeira vez, podia ver o sol sendo engolido pela imensidão do mar. Nunca tinha sentido essa sensação, era uma das coisas mais lindas que eu poderia ver e podia observar que meu irmão também desfrutava daquele momento magnífico.
Depois da grande estrela partir, o céu começou a sair do alaranjado para um azul mais escuro, o horizonte estava desaparecendo aos poucos e por isso meu pai acendeu os faróis de seu barco.
Ele estava em sua cabine, pilotando calmamente com seu cachimbo velho entre os lábios. Sua visão se direcionava para todos os lados atentamente. Sua barba longa e branca estava ficando amarelada ao redor dos lábios por conta do fumo, e suas grandes botas negras de pesca estavam cheia de areia junto com sua calça verde musgo que estava amarrotada, mas que combinava com a blusa xadrez azulada que mamãe tinha dado de presente. Ele não parecia nem um pouco um capitão daquele barco, mas ainda assim velejava com maestria.
Ele era o melhor capitão do mundo com toda certeza, e eu queria ser igual a ele.
—Estamos chegando – ele avisou apreensivamente.
Eu e meu irmão fomos até a proa do barco e observamos uma grande névoa vindo em nossa direção.
— Como ela apareceu tão de repente? – sussurrou meu irmão.
Estava começando a ficar nervoso, era a minha primeira vez no trabalho, mas era também a primeira vez que eles iriam pescar naquele lugar. Meu pai tinha ouvido outros pescadores da região dizerem que os peixes por alguma razão, praticamente pulavam nos barcos sozinhos, mas era necessário ficar em uma forte névoa que tinha em um local específico no oceano.
Como toda história de pescador, diziam que o lugar era assombrado e que todo pescador que foi, não tinha mais voltado, mas meu pai nunca tinha sido um homem cheios de crenças, apenas queria botar comida na mesa e se isso significasse que precisasse ir em lugar tão desgraçado, ele iria sem problemas, e também, iria levar ambos os filhos para provar que não existiam tais bobagens.
Os céus agora estavam negros e o denso nevoeiro tinha tomado totalmente o barco, o silêncio reinou por alguns minutos até que um barulho estranho começou a surgir debaixo d`água. Eu e meu irmão corremos em direção ao som e nos debruçamos sobre o braço do barco e observamos atentamente o que poderia ser aquilo.
Um borrão preto estava vindo bem lá no fundo do oceano e eu não conseguia parar de olhar e imaginar o que raios era aquilo.
Ele se aproximou, se aproximou, até que veio com um jato em minha direção e eu gritei.
Pulei para trás e cai com tudo sobre o chão, o borrão preto que tinha vindo era um grande peixe que pulou para dentro do barco.
Só podia escutar as gargalhadas de meu irmão e ver um semi sorriso entre os lábios de meu pai.
Aos poucos, mais barulhos estranhos vinha vindo das águas e cada vez mais peixes pulavam para dentro da embarcação.
—Eles tinham razão papai, os pescadores tinham, razão! – gritei.
Meu pai saiu da cabine para ver o grande espetáculo que estava acontecendo. Peixes e mais peixes se aglomeravam para dentro do barco, a quantidade era tão grande que estávamos ficando totalmente molhados pela água que os peixes traziam junto.
Era glorioso aquele momento, e também inesquecível.
Meu irmão dançava alegremente, até que de repente ficou totalmente paralisado.
Eu estava rindo, até que olhei para a expressão do meio irmão. Estava petrificado e olhava atentamente para o mar.
—Irmão...? – me aproximei.
Os peixes que antes pulavam, tinha cessado rapidamente, e o denso nevoeiro começou a tampar minha visão.
—Fiquem juntos — ordenou meu pai.
Me aproximei de meu irmão que continuava olhando fixamente para o mar. Ele não piscava sequer uma vez.
Meu pai, com um olhos arregalados e com o rosto todo pálido apenas sussura.
—Elas existem.
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