Notas iniciais
Espero que gostem desta história e consigam imaginar a criatura.

Histórias da Vovó Macabra

Capítulo um: Os olhos de Rubi

Olá minhas crianças... Venham, sentem-se ao redor de minha cadeira de balanço próxima a lareira... Vamos, vou contar-lhes uma história que aconteceu há muito tempo atrás...

Antes de haver uma cidade cheia de arranha-céus aqui era uma área rural cheia de vida... As estradas eram todas de terra vermelha, as famílias se conheciam, havia animais soltos e natureza exuberante em qualquer lugar que decidisse ir. Claro que toda aquela mata e natureza guardavam seus mistérios que acabavam como lendas e histórias a se contar em volta de uma fogueira ou em um jantar entre amigos. Uma destas histórias era sobre os olhos de rubi...

Diziam que durante a noite ao andar com pouca luz nos arredores da fazenda Thomas, você poderia encontrar o indesejado... Medonhos olhos vermelhos a acompanhar seus movimentos e a te perseguir até que você sucumbisse à loucura ou deixasse de existir, devorado por eles.

Tudo começou com um relato vindo de um colono, aqueles funcionários que trabalham na fazenda, que sentiu estar sendo perseguido no trecho perto da fazenda Thomas. Ninguém deu muita atenção a este homem, pois o mesmo era conhecido por tomar muita pinga no final do expediente. Logo surgiu outro, de uma senhora que estava indo levar queijo para a fazenda vizinha... Ela disse ouvir passos que não pareciam de gente atrás de si, mas quando se virava não havia nada atrás dela e isso se repetiu por um bom pedaço do trajeto; na volta para casa ela começou a olhar as árvores ao redor e notou que algo vermelho brilhava no meio delas... Olhos, olhos vidrados nela... Olhos que estavam famintos. A partir daí, começaram a aparecer ainda mais pessoas dizendo que viram os olhos vermelhos brilhantes naquele trecho e que não se sentiam bem e nem seguras passando por lá.

Até então... Pensavam apenas ser algum animal noturno que estava abrigado ali e que não faria mal as pessoas, porém... Pouco tempo depois, alguns funcionários começaram a sumir e não eram encontrados em lugar algum, mas quando eram encontrados estavam dilacerados ou totalmente loucos comendo insetos, gritando, debatendo-se, jogando-se contra toras e outros objetos.

As pessoas começaram a ficar com medo do que pudesse ser aquilo e decidiram evitar a passagem sobre a frente da fazenda Thomas durante a noite e sozinho. Com isso decidido entre todos, os desaparecimentos cessaram e ninguém se arriscava a andar por aquele trecho que passou a ser chamado de “caminho da morte”.

Alguns meses depois veio uma família de mudança para esta área, sua fazenda era farta e tinham uma grande quantidade de terras. Poderiam muito bem ser os mais ricos depois da família Britcwen. Era um casal muito bonito e tinham cinco filhos, duas meninas e três meninos, muito belos também. Logo eles viraram notícia e os “queridos” em todas as fazendas. Eram muito gentis o que era raro entre pessoas muito ricas naquela época.

Depois de já estarem bem fixados e dentro da “família” de fazendeiros tudo ficou como era, apenas com alguns amigos a mais. Porém ninguém havia avisado eles sobre o caminho da morte...

Um dia, eles foram convidados para um jantar na casa dos Florenci. Durante o jantar entre um assunto e outro, surgiu a história sobre os olhos de rubi do caminho da morte... Eles ouviram todos os relatos bem atentos e curiosos, dentre eles o mais curioso era o filho mais velho chamado Jonan. Estava simplesmente fascinado pelo relato e pela criatura que poderia existir por detrás dele.

Após a janta os convidados foram embora em seu carro, pobre família Bomboniere... Mal haviam chegado há poucos meses e teriam de lidar com algo terrível.

Ao chegarem a sua casa, todos desceram e foram se preparar para dormir, mas Jonan estava irrequieto por causa da história; Ele queria ver a criatura, saber como ela era por trás de seus olhos vermelhos vibrantes, por trás de todo aquele instinto de matança... Ele ficou completamente atraído pela ideia de beleza por trás daquela criatura desconhecida.

Após revirar-se várias vezes em sua cama pensando sobre ela decidiu que tentaria vê-la, mesmo que isso custasse sua vida. Arrumou-se e escreveu uma carta para caso ele não sobrevivesse a sua tentativa. Abriu a janela do quarto e saiu sem barulho rumo á estrada da morte.

Após andar bastante com apenas um lampião como fonte de luz chegou ao trecho... Como disseram a ele, realmente era mais frio o ar por ali. Ele então começou a procurar entre as árvores pela criatura... Achou que talvez mostrando que não a faria mal ele pudesse sobreviver, então começou a falar:

_ “Olá! Eu soube que você mora por aqui... Eu gostaria de te conhecer! Eu não farei nada a você... Só quero saber como você é.”

Ele começou a ouvir ruídos por meio da mata, algo estava se movendo por lá... O medo começou a tomar conta de seu corpo, mas ele estava decidido a ver a criatura.

_ “Eu soube... Que você tem olhos muito bonitos. Tão bonitos quanto uma jóia. Eu não vou te ferir... Então... Você poderia não me ferir também? – ele continuou a insistir, pensando que a criatura pudesse entendê-lo.

Os ruídos ficaram mais intensos e o vento começou a soprar por aquele pedaço... A vela tremulava dentro do lampião e a sensação de ser um coelho atirado a uma raposa aumentava cada vez mais... Ele podia sentir que ela estava lá... Apenas esperando o momento certo para rasgar-lhe a garganta.

Ele moveu o lampião para tentar ver melhor o seu redor... Foi quando ele se deparou com aqueles olhos, o fitando longe na mata... Realmente eram de um vermelho tão intenso quanto o sangue e reluziam ainda mais entre o breu. O garoto ficou paralisado fitando-os... Sabia que logo viria o resultado.

A criatura foi se aproximando lentamente até aparecer por completo sob a luz do lampião e a surpresa do garoto foi enorme... A criatura não era nem gente e nem animal... Era uma mistura de ambos, mas apesar de tudo era realmente bela... Estonteante de uma forma distinta. Tinha longas galhadas na cabeça como um cervo, um cabelo longo castanho que cobria parte de sua pele pálida, tinha braços, mãos, troncos e rosto igual de gente... Mas a parte de baixo era também semelhante à de cervo. Seus olhos pareciam penetrar a alma do garoto... Que ainda admirava-a esquecendo-se do perigo que corria.

Antes que se desse conta, a criatura já estava a menos de um metro de distância dele... Foi quando ele tomou consciência do risco, mas já era tarde demais para qualquer tentativa de fuga. Ele olhou diretamente nos olhos dela... O vermelho foi se transformando até virar um dócil azul e isso o deixou perplexo e ainda mais admirado; a criatura se afastou e ergueu a cabeça para o céu, raspando um de seus cascos na terra e soltando um grunhido; Olhou novamente para o garoto e começou ao que parecia... A cantar, com sons que não eram humanos e nem de algum animal... Mas estava cantando para ele.

Conforme acompanhava a melodia olhando para o azul tão dócil de seus olhos ele foi se sentindo sonolento... Aos poucos ele percebia que sua consciência o deixava, parecia que sua alma estava sendo levada a cada nova nota... Era tão carinhosa aquela canção... Ele se deixou levar até não ter mais consciência nem de sua vida.

No dia seguinte o casal encontrou a carta do garoto e entraram em pânico, pois o mesmo não estava em casa de volta. Organizaram busca atrás de busca e não o encontraram em lugar algum durante uma semana, mas então... Um dia quando a senhorita Bomboniere pegava água no riacho atrás da casa ela notou algo descendo o rio... As cores sumiram de seu rosto junto de qualquer outra expressão... Era Jonan... Com a pele já em decomposição em um tom azulado, com um sorriso de paz em seu rosto.

Depois disso, decidiram por fogo na mata em que se encontrava a criatura com o desejo de dar fim as mortes e na dor pela perda... Mas apesar de depois não haver mais mata, as mortes não cessaram.

Então crianças... Se um dia ouvirem uma melodia dócil fiquem atentos se alguém a esta cantando ou vocês podem ter suas almas levadas antes que chegue à hora...

Notas finais
Gostaram?