Histórias Cruzadas
6 Sem tempo
Enfrentamos a longa fila junto aos outros turistas eufóricos e pegamos o elevador para subir direto para o 2º andar. Lá, ficamos admirando a cidade aos nossos pés, dourada ao sol brando da tarde, queria fixar cada um dos seus detalhes de vários pontos diferentes. Olivier me apontava os pontos principais com uma breve explicação, demonstrando que conhecia bem o lugar.
— Eu estive pensando, se por acaso... — Parei para considerar se devia ser direta ou não, ele mantinha os olhos fixos em mim, esperando – Acho que Sarah entrou em contato com você, porque sabia que estava morrendo, então queria que cuidasse do seu filho.
— Será? – Ele me fita com os olhos espantados, cheio de esperança. Então, pela primeira vez eu percebo que ele tem olhos lindos, são azuis e profundos, por um segundo me perco neles. – Será mesmo que era isso que ela queria? – A pergunta me traz de volta para a realidade, pisco duas vezes para desviar minha atenção.
— Sim – Quero manter minha voz firme, censurando-me, mentalmente, por me comporta desse modo. – Eu acho que ela queria que você se envolve com o seu filho, que se responsabilizasse por ele. Afinal, com quem ficará a guarda de David?
— Eu não sei. Não tinha pensado nisso antes.
— Talvez, você devesse pensar em conhecer melhor o rapaz. Isso poderia ajudar a aplacar sua culpa. – Sou bastante direta, não tenho porque ficar enrolando. Em seguida, olho para o relógio, fico apreensiva, o meu tempo está acabando. – Precisamos ir, pois ainda tenho que pegar a minha mala no seu hotel, antes de seguir para o aeroporto e estar em Londres hoje à noite.
Ele assente com a cabeça e caminhamos na direção dos elevadores, mas fomos bloqueados por um pequeno grupo de pessoas de nacionalidades diferentes, que falavam ao mesmo tempo como uma moderna torre de Babel, diante deles guardas impediam a nossa passagem, dizendo algo que a maioria de nós não entendia.
— Espere um pouco aqui – Olivier determinou e, vencendo a multidão, chegou junto a um dos guardas, perguntou alguma coisa a ele, que balançou a cabeça em negação energeticamente, depois, fez o caminho de volta para junto a mim, de um jeito desanimado, percebi de cara que havia problemas ali. – O guarda disse que não podemos descer agora, porque tem um maluco lá embaixo tentando se matar.
— O quê?! Mas, eu preciso pegar um avião, estou ficando sem tempo. – Comecei a me desesperar.
— Não há nada que podemos fazer, por enquanto, a não ser esperar o desfecho da situação.
Sei que ele está certo, assim solto um sonoro suspiro, conformada, porque não tenho por que lutar por algo que não está sob o meu controle.
Duas horas depois, ainda estamos no alto da torre, sentados no chão e encostados na parede, porque minhas pernas doem muito, tenho sede e estou cansada, já que dormir mal na noite anterior. Sentado ao meu lado, Olivier tirou a gravata, a colocou no bolso da calça e abriu os primeiros botões da camisa, seu paletó está sobre seu colo.
— Você acha que devo procurar o rapaz? – perguntou, de repente, após ficar um longo tempo calado, provavelmente, pensando sobre o assunto.
— Acho que deve. Vá falar com ele!
— Mas, se ele não gostar de mim? – Fica inseguro, posso ver a sombra do medo nos seus olhos, e suponho que tem razão, já que ele até há pouco tempo, nem sabia da existência do seu suposto filho. – E se Sarah contou a verdade sobre nós dois e fez a cabeça do garoto contra mim?
— Você nunca poderá saber se não tentar. – Nesse instante, somos avisados que podemos descer, todos correm afobados para os elevadores, eu fico eufórica com a nossa recém conquistada liberdade.
Estou aliviada quando, enfim, ponho os pés no chão, mesmo sabendo que nunca poderei chegar a tempo ao jantar da minha amiga, um certo desânimo abate sobre mim, ao pensar nisso. Mandei uma mensagem para Luana, para não se preocupar, sem dar muitas explicações, era melhor me explicar pessoalmente. Agora, só tenho que ir para o hotel de Olivier e pegar a minha mala e meu anel de volta e regressar a Londres.
— Vamos pegar um táxi – Olivier resolve e eu fico agradecida, pois estou exausta, meus pés doem de tanto andar.
O táxi segue margeando o rio, apesar do horário, ainda está claro devido a época do ano. Ficamos quietos e meus olhos pesam, quando relaxo com o movimento do veículo, mas, alguns segundos depois, uma imensa construção chama minha atenção.
— É o Louvre – Olivier disse, ao ver meu interesse, no mesmo momento em que pega o telefone e faz uma ligação.
Parece ansioso, percebi que alguém atendeu, ele começa a falar em francês, eu não entendo nada, mas, conforme a conversa prossegue seu tom de voz aumenta e se torna mais ríspido, está brigando com a pessoa do outro lado da linha. Subitamente, desliga, seu rosto está transtornado, em seguida, ordena algo para o motorista, que mal-humorado, resmunga em uma língua desconhecida e segue em frente. Até o carro parar perto de uma enorme construção.
— Esse não o seu hotel! – exclamo, alarmada.
— Não, é uma estação de trem – explica, de modo casual, pagando o motorista e saindo do carro.
Não tenho escolha, não sei o que fazer, totalmente confusa com aquela informação, então eu o sigo, não quero tirar meus olhos dele, preciso recuperar o meu anel de noivado.
— Uma estação! Uma estação de trem? Como assim? – falo alto, esforçando-me para acompanhar os passos largos das suas longas pernas, enquanto ele anda apressado para os guichês de compra de passagens. – Por quê? O que estamos fazendo aqui? – Estou completamente pasma e sem folego, por isso minha voz é um sussurro. Entramos na fila. — Para onde você vai?
— Vou para Saint-Antoine – responde, de modo casual.
— E minha mala? – Sinto-me desalentada.
— Eu devolvo quando voltar.
— Quando voltar? E quando será isso?
— Eu não sei, provavelmente, hoje mais tarde ou amanhã de manhã – Ele dá de ombros. Ainda, não consigo acreditar naquela resposta. Nesse momento, chegamos ao guichê. – Você vem comigo? – pergunta, e eu fico confusa, não sei o que fazer.
— Eu não posso seguir você para um lugar que não conheço!
— Se quiser, você pode voltar para o hotel e esperar por mim lá. – Ele me dá a opção, mas fico indecisa, vou perdê-lo de vista e se ele tomar mais uma decisão maluca e desaparecer. Do outro lado do vidro, o funcionário fica impaciente com a nossa demora, noto que fala algo grosseiro, Olivier responde no mesmo tom. Só tenho alguns segundos para decidir.
— Sim, eu vou com você – resolvo, mesmo meio amedrontada.
Ele me dá um sorriso torto, satisfeito e compra duas passagens.
— O trem sai em dez minutos, precisamos correr – Ele me avisa, já saindo acelerado.
— O quê? – Eu o sigo, mesmo assustada, não sou assim, não saio correndo por estações de trem.
— Vamos! — Ele me apressa, andando muito rápido.
Mal consigo acompanhá-lo, vou ficando para trás, então ele segura a minha mão e começa a correr mais rápido, arrastando-me atrás dele, desviando das outras pessoas, de vez em quando, esbarramos em alguém, que nos olha de cara feia, desculpo-me, sem graça. Ainda bem, que ele parece que sabe para onde vai. Enfim, chegamos ao trem, Olivier me puxa para dentro do vagão e ele parte quase imediatamente, sentamos nas nossas poltronas, respiro com mais calma, recuperando o fôlego, pois estou muito ofegante, meu rosto queima, devo estar corada, passo a mão na testa para limpar o suor e ajeito os cabelos. Sei que preciso pegar um avião, voltar para Londres, contudo, estou aqui dentro de um trem indo para um lugar desconhecido, sem saber porque, quando tudo o que eu queria era o meu anel de noivado de volta.
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