Naquela mesma tarde, quando voltava para casa, mais feliz e aliviada por ter descarregado minha angústia na conversa com Olivier, encontrei com Jean-Pierre parado em frente à minha casa, percebi o seu alívio assim que me viu.

— O que faz aqui? – perguntei, pasma com aquela recepção.

— Esperando por você – Sua voz era dura, bem diferente da que eu estava acostumada, pois Jean-Pierre sempre era calmo e gentil comigo. – Você sumiu a tarde toda. Onde esteve?

— Fugi com Olivier – confessei com uma risadinha, não queria mentir para o meu amigo, porém me arrependi ao ver a expressão de horror e surpresa no seu rosto.

— Como?! Por quê?! – Sua voz saiu um tanto esganiçada.

— Porque eu precisava espairecer um pouco, está bem? Não aguentava mais ficar trancada naquele colégio – respondi, impaciente.

— E que cheiro é esse? – Ele fez uma cara de nojo. – Você andou fumando?

— Só um ou dois cigarros para relaxar um pouco – respondi, dando de ombros.

— Mas você não fuma!

— Eu fumo agora e você não tem nada com isso!

— Sarah, não percebeu o mal que esse cara está fazendo a você? Fugindo da escola e fumando, daqui a pouco vai estar bebendo ou fazendo algo pior.

— Nem todo mundo é perfeito como o senhor, doutor Jean-Pierre! – provoquei, pois sabia que ele queria tornar-se médico como seu pai.

— Mas, esse cara é a pior companhia que você pode arranjar, ele não se importa com nada! – Ele falou mais alto.

— Ele é meu amigo, me ouve e me entende! – Quase gritei.

— Eu sou seu amigo de verdade. Eu vou ouvir você se falar comigo! – A voz dele saiu mais alta.

— Você nunca me entenderia! – gritei.

— Que seja, Sarah – ele murmurou, ele virou-se e começou a andar, afastando-se de mim, percebi que eu o magoei, quis pedi desculpa naquele momento, mas era orgulhosa e estava muito zangada para dar o braço a torcer.

Naquela noite, mal consegui dormir, aflita, fiquei repassando a conversa com Olivier e a briga com Jean-Pierre.

No dia seguinte, para minha decepção, Jean-Pierre não apareceu para irmos junto ao colégio. Durante o resto do dia e por semanas, não nos falamos mais e, várias vezes, só nos olhávamos a distância, para desviar o olhar longo a seguir, sem coragem de me aproximar e pedir desculpa por aquela briga estúpida.

E assim, minha briga com o meu velho amigo fez-me aproximar ainda mais do meu novo amigo. E volta e meia, eu e Olivier fugíamos das aulas e da escola para fazer alguma coisa juntos, como ir ao parque, andar nas ruas, no metrô, nas lojas. Eu gostava de conversar e rir com Olivier, que já havia viajado bastante por conta do trabalho do seu pai e parecia tão seguro de si e determinado, de um jeito que eu gostaria de ser.

Foi em uma tarde chuvosa em que fugimos da escola, mais uma vez, e já estava bem frio para ficarmos andando ao ar livre, por isso, nós nos escondemos no cinema, quase vazio àquela hora, sem prestar muita atenção no filme que iriamos assistir, que se revelou uma comédia idiota americana. Nossos ombros se tocando, eu ria mais dos comentários sarcásticos de Olivier do que das piadas clichês do filme, quase me engasguei com a pipoca, quando senti um leve roçar nos dedos da minha mão sobre o braço da poltrona, não me mexi, como um sinal de aprovação e os dedos dele entrelaçaram os meus, segurei a respiração e estiquei minhas costas, tensa, não querendo que ele soltasse minha mão, pois era algo que ansiava a algum tempo. Mas, a mão dele soltou a minha, fiquei decepcionada, mas não por muito tempo, pois o braço dele contorno meus ombros em um abraço um tanto desajeitado, ele estava testando a minha reação e eu aceitei aquele avanço, sem contestar, esperando pelo seu próximo ato.

O filme já estava quase terminando, já havia me conformado que ficaria assim mesmo, só em abraço, no entanto, sua mão tocou um rosto, virando-o na sua direção, para os nossos lábios se encontrarem. Eu nunca havia beijado um garoto antes. É claro que já tinha praticado, desejando e sonhando com aquele momento e imaginando com quem seria e, desde que conhecera Olivier, desejei que fosse com ele. No primeiro momento foi estranho, fiquei sem jeito, porém aos pouco, nós nos entregamos ao sabor das nossas bocas e, de olhos fechados, nos perdemos do mundo, só nos separando quando as luzes se acenderam, sem perceber que o filme terminou.

Assim, naquela tarde, começou o nosso namoro. Não mantivemos em segredo, não queríamos esconder de ninguém, andávamos de mão dada pelos corredores da escola, nos beijamos e abraçávamos em público, ele me levava para casa e nos pegávamos em intermináveis amassos, entre beijos, abraços e mãos cada vez mais vorazes e audaciosos, escondidos atrás do muro da minha casa.

Nessa época, meu pai já tinha ido embora e minha mãe trabalhava até mais tarde, mesmo assim ainda não ultrapassávamos o limite da porta de casa. Eu estava feliz, apaixonada, minha sexualidade à flor da pele, descobrindo sensações e desejos desconhecidos. Só mesmo minha briga com Jean-Pierre me deixava triste, nunca ficamos tanto tempo sem nos falarmos, sentia muito a falta da sua companhia e das nossas conversas. No começo, Mariane servia de ponte para nós dois, porém, depois do meu namoro com Olivier, ela ficou do lado de Jean-Pierre, o que me deixou mais chateada e até mesmo, sentindo-me traída, principalmente, quando eles começaram a namorar. Mas, o que importava que eu tinha Olivier agora.

— Onde você vai passar as festas de fim de ano? – perguntei a Olivier, um dia na escola, com esperança que pudéssemos ficar junto, já que seria o primeiro Natal da minha família separada.

— Vou para casa – respondeu, para minha decepção, ficaríamos duas semanas separados.

E um pouco antes do Natal, Olivier voltou para a sua casa e eu me sentia mais sozinha do que nunca.