Histórias Cruzadas

26 A história de Sarah.


Notas iniciais
Meu nome Sarah e essa história que contarei agora para você começou quando eu era uma garota normal, de dezesseis anos, que gostava de música e de desenhar, com cheia de planos para o futuro, vivendo um dia de cada vez a espera de um amanhã brilhante, ao lado do meu melhor e inseparável amigo, Jean-Pierre. Até o dia que aquele garoto diferente, vindo do outro lado do mar surgiu, balançou meu mundo, despertando sentimentos e emoções intensas e mudou toda a minha vida de um modo definitivo, tanto para bem como para o mal. Mas, como ninguém pode prever o futuro e saber o que acontecerá, sendo assim não julguem até escutar toda a minha história.

Há dias nas nossas vidas que só terão uma enorme importância e só teremos conhecimento disso depois do passar do tempo, quando pensarmos nele à distância e em todas as consequências que causou. A maioria desses dias começa sem aviso prévio ou perspectiva que algo significativo estará por acontecer e mudará toda as nossas vidas. Aos dezesseis anos, eu não tinha ideia que aquele dia de outono que se iniciava, comum e nublado, em novembro de 2000 seria tão importante para mim, só sabia que era o primeiro dia de aula após um feriado.

No meu quarto, debruçada sobre a escrivaninha, aproveitando a claridade do começo da manhã que entrava pela janela, enquanto eu dava os últimos retoques no meu desenho, cantarolando a música “Thank you” de Dido, que tocava bem alto no rádio. Até que finalizei o meu trabalho e o analisei com cuidado, estava bom, mas podia ter ficado melhor, as mãos estavam muito grandes, os olhos sem expressão, faltava algo que não sabia o quê. Precisaria praticar mais se quisesse mesmo entrar para a Escola de Arte, no próximo ano.

— Sarah, você vai se atrasar para escola! – minha mãe me alertou lá de baixo.

Dou uma olhada no relógio e me assusto com a hora, apressada, arranco o papel da mesa e me levanto em um pulo.

— Meu Deus! Pobre Jean Pierre! – digo para mim mesma, pego minha velha bolsa de pano e desço correndo a escada estreita da minha casa.

— Você não vai tomar café? – minha mãe pergunta as minhas costas.

— Não, estou muito atrasada – respondo, sem parar de correr.

Quando chego do lado de fora, vejo meu amigo Jean-Pierre me esperando, parece entediado e pensativo, parado ali, encostado no muro, curvado e com as mãos no bolso, mochila pendurada em um dos ombros, encarando o chão, com seus cabelos loiros e recém-cortados brilhando ao sol. Temos a mesma idade, dezesseis anos, noto que ele cresceu muito esses últimos tempos e, depois de todos esses anos que nos conhecemos, finalmente, fico mais alto do que eu, mas continua magro e um tanto desproporcional. Interrompo subitamente a minha corrida na frente dele, que levanta a cabeça e olha para mim, seus olhos verdes faíscam.

— Desculpe-me! – digo, quase sem folego.

— Você perdeu a hora desenhando, outra vez, Sarah! – Ele me acusa, pois me conhece muito bem, parece aborrecido, assinto com a cabeça envergonhada.

— E para você! – Estendo o braço para mostrar-lhe o papel na minha mão, na tentativa de ganhar o seu perdão.

— O que é isso? – Ele segura o papel e se surpreendente ao ver o que está nele.

— É você – declaro, para não evitar nenhuma dúvida, ele continua avaliando o desenho, acho que não se reconheceu nele. – Você gostou? – pergunto, sem conter a minha expectativa.

— Eu adorei! – ele exclama, realmente, contente. Um sorriso se abre nos nossos rostos. – Desenhando assim, você com certeza conseguirá uma vaga na Escola de Belas Artes.

Orgulhosa, meu sorriso se alarga ainda mais, mesmo sabendo que ele está exagerando, quer me agradar como um bom amigo que é.

— Precisamos ir, não podemos chegar atrasados da aula da senhorita Blanc.

Nossa professora de francês não tolerava atrasos, por isso, nos apressamos a passos largos, no final, quase corremos. Mas, felizmente, mesmo sem folego, chegamos bem a tempo do começo das aulas e sentamos em nossos lugares. Nossa amiga Mariane acena para nós, não podemos nos falar porque a professora já está dentro da sala.

— Bom dia e bom regresso do feriado – a senhorita Blanc começou. – Espero que estejam bem-dispostos hoje, para recomeçarmos o nosso ano, e que tenham lido os livros recomendados.

Risadinhas abafadas e murmúrios, que ela não dá atenção.

— Por favor, abram o livro do mês, O vermelho e o negro, de Stendhal na página vinte e sete. Senhorita Martine, pode começar a ler o primeiro parágrafo.

A garota escolhida engole em seco e eu respiro aliviada, por ela não ter me chamado, eu não li os livros recomendados, tudo que fiz nas férias foi sair com Jean-Pierre e Mariane, desenhar e ouvir música.

A sala se enche com o barulho surdo de todos abrindo os seus livros na página indicada e antes da garota escolhida emiti algum som, a porta é aberta e através dela surge um garoto alto, magro, de cabelos escuros um tanto compridos, noto seus profundos olhos azuis, que parecem não pertencerem a esse mundo. Em unanimidade, nossos olhos se voltam na sua direção e ele entrega um bilhete para a professora que abre e lê imediatamente, ele espera e eu o observo, curiosa com o seu jeito arrogante e o modo que usa o seu uniforme da escola, meio largado, que eu acho demais.

— Classe, esse é o senhor Olivier Thomas. Ele é um aluno inglês de intercâmbio, ficará conosco por algum tempo para se aprimorar na nossa língua. Será um prazer em tê-lo conosco, senhor Thomas. Por favor, ocupe um dos lugares vagos, para podermos recomeçar de onde paramos.

O garoto não disse nada, apenas passou entre as fileiras de mesa, com ar petulante, e sentou-se em uma carteira bem ao meu lado. Olhei para ele pelos cantos dos olhos, ele fez o mesmo e, por um breve segundo, nossos olhos se cruzaram, abaixei a cabeça depressa e sorri. Depois, ergui a cabeça e procurei pelos meus amigos, Jean-Pierre, que também olhou para o recém-chegado de um modo estranho, como se ele fosse uma espécie de ameaça, e Mariane, que me deu um sorriso travesso.

— Senhor Thomas, suponho que ainda não tenha o livro para a leitura de hoje, então poderá dividi-lo com a senhorita Didier ao seu lado.

Ele olha para mim por mais tempo agora, não falou nada e aproximou a cadeira da minha mesa, coloco o meu livro mais para o lado a fim que possamos ler juntos, Martine começa a leitura. Nossas cabeças estão bem próximas, nossos olhos voltados para a página a nossa frente e, pela primeira vez sinto o seu perfume e o calor do seu corpo, estou muito estranhamente desconfortável ao lado dele.

— Eu me chamo Sarah – sussurro.

— Olivier – responde no mesmo tom, ele ergue os olhos na minha direção e um dos cantos da sua boca se eleva em um adorável sorriso torto.