Histórias Aleatórias de Duas Escritoras
4 Sussurro de Luar
Notas iniciais
Logo após os homens iniciarem sua expansão pelo mundo, surgiram as civilizações, os idiomas, algumas escritas e religiões. Cada tribo e cidade possuíam seus próprios deuses, desde uma entidade para cada fenômeno natural até um único para tudo.
Mas não iremos generalizar tanto. Vamos nos aprofundar em uma pequena aldeia bárbara, sem nome próprio, que amava os astros e corpos celestes, e também os animais noturnos. Os aldeões não gostavam de nomear algo, por acreditarem que não tinham posses, tudo era livre, inclusive eles mesmos. Eram de pouca fala, mas suas habilidades de caça e cura eram exímias, mesmo que ninguém de fora possa ter presenciado.
Entretanto, numa determinada época, havia nascido uma garotinha, os cabelos negros como as asas de um corvo, a pele alva como a própria Lua, os olhos de uma escuridão que noite alguma poderia igualar e dotada de uma beleza angelical que em momento algum a própria Terra iria ver semelhante. Seu nascimento ocorreu no exato momento de um eclipse solar, intrigando a todos, principalmente os anciãos, que viam avisos e sinais em tudo, mas não tinham conhecimento anterior para isso. Eles então concordaram em observar cuidadosamente a pequena, determinando assim se era um presságio maldito, uma benção ou nada demais.
Ao decorrer do tempo, a criança mostrava-se normal, igual à todas as outras, apesar da aparente mudez, já que som algum jamais saiu de sua boca enquanto esteve ao lado dos seus, o que aliviou, de certo modo, os velhos sábios.
E percebia-se que quanto mais perto chegava da idade adulta, mais bela ficava a garota, causando certo incômodo nas outras moças e cobiça entre os homens, mesmo a jovem não demonstrar interesse por nenhum. Não só sua beleza destacava-se mais, como também suas habilidades de caça e de tratamentos médicos. Por explorar e percorrer mais as florestas que rodeavam a aldeia, e num período menor de tempo, por ser mais rápida, ela obteve mais conhecimento sobre os animais e as ervas que as matas escondiam e preservavam. Graças à mesma, doenças poderiam ser curadas mais rapidamente, e até ajudou na extensão da média de vida dos seus.
Sem dúvidas, ela era considerada uma enviada dos deuses, uma benção. Queriam que se tornasse chefe da tribo, mas a jovem não tinha intenção de governar, apenas de ajudar, deixando assim que seu pai se tornasse o cacique. Esse, apesar de realizado pelo sucesso e pela honra de uma filha abençoada, não dormia bem à noite, por preocupação. "Minha filha, talvez, nunca me dê netos, e seja solitária para sempre. Será que devo obrigá-la a possuir um companheiro?", mas nunca forçou a filha a fazer o que não queria.
Tempos depois, quando uma lua cheia aproximava-se e estavam no período do frio, uma virgem da aldeia sumiu da noite pro dia, deixando somente um rastro de sangue em sua moradia. Ao amanhecer, todos estavam espantados e receosos pela moça, enquanto que a "Escolhida" (Como estavam chamando nossa heroína) começou uma busca pela aldeã que durou um dia e uma noite. Quando retornou, nada trazia e apenas um aceno de cabeça dizia que nada encontrou.
Depois da primeira, outras virgens foram sendo raptadas ao longo dos dias, o que estava perturbando a todos. Agora ninguém mais dormia, montavam vigílias para prender quem estava a capturar suas mulheres. Até que...
No dia que antecede a Lua Cheia, a "Escolhida" desapareceu, atormentando e desesperando todos. Seu pai estava desolado, arruinado, iniciando uma certa revolta e os mais corruptos tentavam roubar seu lugar.
Em meio a essa crise, um jovem caçador, o mais apaixonado pela filha do chefe, prometeu resgatar sua amada e todas as outras mulheres, o que confortou a todos, já que o rapaz era hábil e conhecia bem a região.
Sua jornada fora breve; Suas habilidades de corrida e escalada eram invejáveis, então conseguia alcançar uma área extensa em poucos minutos. Seguia para o norte, onde tinham rastreado sangue humano pela última vez. Mesmo cansado, não parava de correr e procurar, movido pela paixão que era obrigado a conter. Quanto mais avançava, mais seu instinto alertava-o de um perigo eminente, mas não queria, não podia desistir, era seu dever!
Quando a tarde já ameaçava virar noite, o homem se obrigou a parar um pouco para beber e comer. Logo após a breve pausa, um uivo relativamente próximo o assustou. Não haviam lobos naquela região, o que estava acontecendo?
Então um vulto correu e ele, em disparada, foi atrás. Não era uma sombra de um animal, mas sim de um humano! E ainda, de uma mulher! Numa confusão mista ao medo e ao amor, o rapaz correu atrás daquela que pensava ser a Escolhida. Ao parar, deparou-se com uma planície cercada de nobres e altos pinheiros, cujas agulhas estavam cobertas pela neve dos últimos dias. No centro do local, um altar de mármore, com insígnias em safira, erguia-se majestoso e imponente, sujo de algo vermelho cor de ferrugem. "Sangue", pensou em desespero.
A mais bela de todas, sua amada e de muitos outros, estava deitada no altar, fria e imóvel, imaculada pelo luar que estava a nascer. Lobos a rodeavam, numa seita respeitosa, tão parados quanto estátuas. Tal cena, mesmo absurda, de certa forma parecia familiar para o rapaz, mas como?
Então lembrou-se de uma história que os anciãos contavam de uma bruxa da floresta que sacrificava virgens perto da Lua Sangrenta para conseguir o poder de se transformar em um animal poderoso quando quisesse. "Seu preferido era o lobo. Talvez pela beleza e pelo perigo que exalam, e também pelos mistérios que guardam..."
Num gélido terror, viu sua deusa abrir os olhos, num despertar doce e singelo, mas que guardava a mudança; Seus olhos, antes negros, agora brilhavam dourados como o sol, e sua pele carregava manchas negras, coberta de pelos longos e sedosos.
Estava a se transformar, e com a Lua Sangrenta atrás de si, sussurrou pela primeira e última vez:
"Meu amor... Junte-se a mim... Eu preciso tanto de você..."
Como que enfeitiçado, o homem, em passos pesados e descoordenados, seguiu para os braços de sua amada, encoberto pelo seu feitiço. Estava indo para a morte, sem dor nem amor. Mal sentiu as mãos delicadas percorrerem seu pescoço, envolverem... Mal sentiu os lábios dela nos seus...
Mal sentiu seu pescoço torcer e a escuridão eterna o tomar...
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