Hiroshima

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Sobre a história: eu andava passeando pelo google quando, não lembro porque, eu entrei em um artigo da wikipédia sobre Hiroshima e Nagasaki. Depois de ler muito sobre o assunto eu soube que precisava escrever sobre ele. Junte isso mais uma noite de insônia e você tem essa fic. Boa leitura.

"Nunca esquecerei esse momento. Pouco depois das 8 da manhã, houve um estrondo, uma explosão reverberante e, no mesmo instante, um clarão de luz amarelo-alaranjado entrou pelo vidro do telhado. Ficou tudo tão escuro como noite. Um golpe de vento atirou-me no ar e a seguir no chão, contra as pedras. A dor estava apenas brotando quando o prédio começou a ruir em torno de mim."

– Sumie Kuramoto, sobrevivente da catástrofe nuclear de Hiroshima.

***

6 de Agosto de 1945; Hiroshima, Japão; 7h00 a.m

"1h15 min antes do impacto"

Misato subiu as escadas pulando os degraus em dois, tomando sempre o cuidado para que seu alvoroço não desarrumasse demasiadamente seus cabelos, penteados com tanto estimo para formar uma cachoeira castanha sobre suas costas.

Faltando poucos passos até a sala, postou-se ereta, com as mãos em frente ao corpo segurando sua pasta; sua postura mudara completamente, adquirindo — ainda que aparentemente — a leveza e graça que se era esperado de uma garota.

Inspirando profundamente uma ultima vez, a jovem empurrou a porta da sala para poder ver trinta alunos e um professor de história a encararem fixamente.

– Senhorita Yagami, está atrasada.

– Sinto muito, professor. Eu... — a jovem encarava o chão como se fosse a coisa mais importante da sua vida naquele momento, enquanto, em uma tentativa falha, explicava o porquê do atraso.

– Sente-se, senhorita. — disse o professor, encerrando o assunto e fazendo alguns poucos alunos corajosos o suficiente para rirem em sua aula darem o ar da sua graça.

As bochechas da jovem Yagami adquiriram um tom rubro enquanto ela se dirigia à seu lugar na classe, desviando de qualquer contato visual que tentassem manter com ela no percurso. Sentou-se decidida a assistir ao restante da aula sem mais constrangimentos.

Enquanto terminava sua redação sobre os males de uma guerra civil, Misato podia sentir, somo se suas costas queimassem, olhos negros a fitando. Ignorou, decidida a finalizar suas ultimas frases no papel antes de dar atenção a qualquer um.

Claro que Komuro Hisashi não pareceu se importar muito com isso.

– Misato. — sussurrou, tentando não chamar a atenção do professor ou da classe, porém um pouco próximo demais da orelha da jovem que se arrepiou com o ato repentino.

Refazendo-se de toda sua força de vontade, Misato lhe respondeu, sem tirar os olhos do seu caderno — ainda que tivesse parado de escrever -, da forma mais natural que pôde... Ou nem tanto:

– O que é, Komuro-kun?

– Por que o atraso? O que houve? — talvez, se tivesse se virado, Misato pudesse ter visto um resquício de preocupação em seus olhos. Mas certamente ela não viu, assim como Hisashi não viu seu rosto enrubecer-se novamente.

– Eu... Hum... Dormi demais. — meias verdades. Não seria esperado, obviamente, que ela lhe dissesse o porquê de ter dormido tanto e com o que sonhara por toda a noite.

Hisashi deu de ombros, pegando sua pasta do chão.

– Hum... Certo. A gente se vê no intervalo, Yagami.

Misato suspirou aliviada enquanto via o garoto se afastar e deixar sua redação sobre a mesa, para logo depois sair da sala. Aliviada por ter escapado sem maiores constrangimentos.

"45 min antes do impacto."

– Sabe, você devia falar com ele. De que adianta ficar nessa angústia sem fim?

Misato suspirou tristemente, sentando-se ao lado de Akeno na biblioteca.

– Não é tão simples, Rey. Nós somos...

Akeno a interrompeu, fazendo uma imitação nada profissional da sua voz:

– "...Amigos de infância. Amigos não devem se sentir assim". Você já disse isso. — bufou — Mas se quer saber, amigos não se apaixonam uns pelos outros. Se você gosta dele, já pensou em deixar de ser a "amiga" e se tornar algo mais? — Akeno deu-lhe uma piscadela sugestiva.

– Quase todos os dias desde que me lembro... — um sorriso doce brincava em seus lábios enquanto ela falava — Mas...

– Sem 'mas', Misa-chan! — a garota jogou uma pequena pilha de livros sobre a mesa, fazendo demasiado barulho no cômodo e recebendo advertências por parte da coordenadora.

– Desculpa. — sussurraram em uníssimo, pegando alguns livros e abaixando suas cabeças para lê-los.

O silêncio passageiro voltara a reinar brevemente na sala.

Até ser quebrado novamente:

– O que você está esperando? — perguntou Akeno sem tirar seus olhos atentos das páginas — Vai atrás dele.

Misato encarava a porta indecisa.

– Mas...

– Até mais, Misa-chan.

A jovem sorriu, levantando-se.

– Até mais, Rey-chan. — disse e saiu correndo, ou melhor, caminhando apressadamente em direção à saída; deixando para trás, em toda sua euforia, sua bolsa.

Rey Akeno revirou os olhos para a bolsa esquecida sob a cadeira.

– Garotas.

"15 min antes do impacto"

Pode-se dizer, sim, agora, que Misato estava realmente correndo pelos corredores do colégio. Seu cabelo, agora não tão impecável, já não lhe parecia de tanta importância enquanto ela procurava afoitamente por Hisashi.

Infelizmente, ele parecia ter desaparecido do planeta. Considerando que ele havia faltado as ultimas duas aulas.

Sua esperança de encontra-lo ainda naquele dia começava a esvair-se como areia por seus dedos quando uma luz iluminou seus olhos.

"O terraço"

Com seu sorriso de volta aos lábios, ela levantou-se da cadeira no refeitório e voltou a "caminhar" apressadamente pelo colégio. Subindo três conjuntos de escadas até alcançar sua meta: o terraço do Colégio Fujoshi.

– Sabia que estaria aqui. — sorriu quase sem fôlego, aproximando-se de um duto de ar, onde Hisashi residia sentado.

Ele a encarou com o olhar confuso.

– O que houve?

– Nada demais. — disse sentando-se ao seu lado. — O que você veio fazer aqui?

O garoto deu de ombros.

– Nada demais.

Misato revirou seus olhos castanhos, porém permaneceu em silêncio. Em sua mente, pensamentos chocavam-se em uma busca desesperada por um modo de explicar-lhe, em palavras, o que ficara preso por meses em seus sonhos. Mas nada lhe veio, ela não poderia simplesmente lhe dizer o quanto se importava. Não assim.

Mas, enfim, a mente de Sakura se iluminou e a saída mais provável de todas apareceu em sua frente.

"Há coisas que não podem, ou sequer devem, ser explicadas com palavras; mas sim, com gestos."

Sua mãe lhe dissera isso uma vez, e, mesmo sendo improvável que funcionasse, a lógica dessa frase lhe parecia extremamente plausível agora.

Incomodado com o silêncio que se interpunha entre os dois, Hisashi resolveu 'quebrar o gelo':

– Você não vai me dizer porque chegou atrasada, vai?

Misato riu, pensando o quão irônico era que seu sonho fosse exatamente sobre esse momento.

– Não, Komuro-kun, não vou dizer. — disse colocando, hesitante, a mão direita em seu rosto. Seus olhos fixos nas orbes negras que eram os dele, assim como ele a fitava intensamente, porém confuso. — Mas eu posso te mostrar.

Sorriram, aproximando seus lábios em um movimento mútuo, quase sincronizado, selando-os com doçura, no amor que os aproximara e os unira.

E enquanto o Enola Gay fazia seu vôo sobre a cidade, lançando a sombra da morte sobre Hiroshima, os braços de Hisashi circularam pela cintura de Misato e as mãos dela puseram-se sobre seus ombros, aprofundando aquele que seria seu primeiro e último beijo nessa vida.

Notas finais
Mereço reviews? Não? Okay... Sou grato aos que leram e adoro vocês que comentam. ;) ~ Aleister
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!