Himitsu
10 O grande tear da vida
Notas iniciais
10 — O grande tear da vida
Por sorte, desta vez, não houvera baixas no exército de Atena e sim, de inimigos. Os que sobreviveram deram no pé. Alguns deuses enviaram servos apenas na esperança de ver Atena cair, então ficaram quietinhos com a falha de Ártemis. Afonso decidiu ajudar a tratar seus guerreiros, ignorando os pedidos de Kiki para que mantivesse sua postura mais distante. Emanuel fazia questão de ficar do lado do pai, ajudando.
Frida foi quem escolheu ficar distante.
Estava observando tudo dos pés da estátua de Atena, tinha intenção de ficar sozinha, mas Kanon apareceu ali de novo.
–Pensei que iria desaparecer de novo. — disse ela, sem olhar aquele que um dia fora seu irmão.
–Graças a magia de Afrodite com o sangue dela e de Atena, tenho um corpo falso, mas permanente. Mas não posso lutar pois isso não me livrou da maldição dos deuses.
–Então, você não pode morrer...
Frida não perguntou. Afirmou sua teoria.
–Estarei preso nessa idade de 28. — suspirou Kanon. — E só deixarei esse corpo falso quando Atena morrer. Só o sangue da Afrodite não vai sustentar. Mas não estou nem vivo e nem morto. Minha maldição continuará.
Frida se aproximou de Kanon e o tocou no rosto.
–É estranho...
–O que?
–É verdade que tenho as memórias do Saga, que o enxergo como meu irmão mesmo sendo Frida... Mas me sinto realmente a Frida.
–Te livrar dessa ideia maluca de ignorar Atena ajudou, não?
Fria afirmou com a cabeça.
–Ok, tenho uma irmã, ela é bonita e gostosa. Não posso pegar por que tem a alma do meu irmão gêmeo e eu não estou vivo nem morto. — debochou Kanon, com um sorriso maligno.
–Afonso chutaria sua bunda.
–Tudo bem, não curto incesto mesmo.
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Afonso estava no Olimpo, de frente aos deuses que sobraram na atividade, trajando sua armadura sagrada. Havia desconforto em ver Atena em forma masculina para muitos deuses, inclusive Hefesto, que um dia foi apaixonado pela deusa.
–Soubemos do que houve. — disse Apolo. Seus olhos refletiam desgosto em falar com o irmão caçula.
–Não fiz com prazer. Sempre tive apreço por Ártemis.
–Eu entendo os motivos que levaram minha irmã a tomar a atitude dela, mas não entendo sua vinda até aqui.
–Várias coisas a resolver, meu irmão. A primeira é garantia que ninguém irá atentar contra a vida de meu filho. — Afonso estava longe do usual, uma frieza e seriedade que ninguém poderia reconhecer.
Apolo olhou a todos que ali estavam. Não houve nenhuma manifestação.
–Tem a palavra de todos aqui.
–Segundo, eu sei que não foram só satélites que atacaram. Inclusive, vi musas suas, meu irmão, no campo de batalha. Afinal, o que tinham em mente? Aproveitar para me matar? Eu soube que me impediram no último concílio... De acompanhar o julgamento de Saga de Gêmeos.
–Claro, sabemos que seria imparcial, que havia perdoado seu guerreiro. — disse Hermes.
–Qual o castigo que deram a ele? — indagou a reencarnação de Atena.
–Isso mesmo, meus caros, por que não dizem o castigo?
Afrodite tinha entrado no recinto, se posicionando ao lado de Atena.
–Por que não dizem que é por que adoraram Saga fazer isso? De atentar contra Atena? Que enviaram seus súditos na intenção de arrancarem a cabeça de Atena nessa última batalha. — Afrodite praticamente berrava. — Quanta hipocrisia de vocês. Evitam atacar e ofender de frente por que temem que Zeus esteja observando tudo de algum canto.
–Afrodite! Como ousa?! — disse Apolo, os olhos brilhando vermelho. — Atena é minha adorável... irmã... irmão... Ugh! Como, como acha que posso...?
–Por que é um mesquinho! Um egocêntrico como todos aqui, que não se conforma dos humanos terem seguido seu rumo na história e abandonado a crença em nós!
Os deuses sabiam que era verdade.
–Libertem todos de suas maldições.
–O que disse, Atena?
–Libertem todos. E quanto a Kanon, deixe ele viver num novo corpo, já que sua alma está semi-física. Vocês devem isso depois do que fizeram! — bradou Afonso.
–Não faremos isso! Humanos devem receber as punições divinas! — bradou Hefesto.
–CALE SUA BOCA, HEFESTO! — gritou Afrodite. O deus das forjas ficou quietinho.
–Já aceitei isso por tempo demais. Chega de castigar humanos que são obrigados a pecar por culpa de seus caprichos! — disse Atena, elevando o cosmo.
–Atena, querida... Você está ficando tempo demais com os humanos. Olha que horror você assim, nessa... figura... — disse Hera, num tom de falsa preocupação.
–Pensa em matar a nós também, Atena? — indagou Apolo em tom ameaçador.
–Se for preciso, para defender os humanos.
Os deuses todos elevaram seu cosmo em um tom ameaçador. Todo o Olimpo contra apenas Afonso e Afrodite. A luta certamente iniciaria, quando uma voz soou, ainda que não mostrasse o cosmo.
–JÁ CHEGA!
Apolo foi o primeiro a abaixar o cosmo. Reconheceria aquela voz mesmo que se passassem éons e éons.
–Meu pai... — murmurou Afonso.
–O que estão fazendo todos vocês? — indagou a voz de Zeus em um tom de repreensão, mais ainda bem mais gentil. — Eu deixei Atena cuidar da Terra e o que estão fazendo? Todos ameaçando ela e os humanos. ESSE NÃO É MEU DESEJO!
–Mas meu pai, os humanos nos esqueceram, nos excomungam e nos enfrentam!
–Eu não pretendo sair de meu exílio. — isso ficou óbvio, pois mesmo enviando sua voz, Zeus não deixou seu cosmo esvair nas frestas de onde se ocultava, mas deixava claro com isso que estava observando a todos. — Mas com essas atitudes, me verei obrigado a voltar para castigar cada um de vocês que desafiam Atena contra minha vontade!
Os olimpianos se calaram. Apolo tinha a boca retorcida em pragas e humilhações.
–Meu pai... Atena matou seu irmão, Hades, trancafiou seu outro irmão, Poseidon e agora matou minha irmã e sua filha, Ártemis.
–Eles provocaram seus finais. Ousaram ir contra a justiça, ousaram intervir até mesmo na vida pessoal de Atena. No caso de Ártemis, meu filho amado, ela atentou contra o pequeno Emanuel. Se Hades atentasse contra você, ainda pequeno e fraco, eu faria o mesmo. Não escolhi Atena, dentre todos os meus filhos, meus legados, para proteger e governar a Terra a toa. Atena sempre foi a mais justa e inteligente de todos. A mais carinhosa.
Apolo, mesmo sem ver Zeus, abaixara a cabeça. A voz do todo poderoso se voltou para Afonso.
–Tomaste atitudes demasiadas tolas, mas corajosas. Eu vejo ao longe meu neto e ele é adorável. Meu coração se partiu ao ver o final de meus irmãos e de minha filha Ártemis, mas entendo que fez o que teve de fazer.
Afonso sentia os olhos marejar. Era impossível impedir os sentimentos da Atena mitológica em si.
–Meu pai... Eu peço perdão mesmo assim...
–A alma dos deuses e dos humanos não morrem. Mas a dos deuses demora mais a se recuperar... Não se preocupe, que o tempo que eles durmam, possam aprender algo. — Afonso quase podia sentir ser abraçado por Zeus. — Eu vejo o pequeno Emanuel e tenho muito amor e carinho por ele, mesmo que eu jamais o veja a tempo. Diga a ele o quanto amo ele, sim?
–Eu direi, meu pai...
–E vocês, olimpianos! Desfaçam suas maldições, AGORA! Deem um corpo para Kanon e parem de castigar os humanos!
A voz se silenciou. Apolo e os demais deuses não tinham opção senão obedecer Zeus. Apesar de todos eles estarem cuidando do Olimpo, o grande senhor deixou claro a quem eles deveriam obedecer. Afonso tinha lágrimas escorrendo, mas um olhar firme, encarando Apolo.
–Que a vontade de meu pai seja feita.
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Quando Afonso voltou ao Santuário, encontrou Frida andando de um lado ao outro na área da estátua. Afonso nem tirou a própria armadura e acabou deixando Niké e correndo para ver o que se passava.
–Frida...?
Ele a abraçou forte, mas com cuidado para não machucar a amada com o metal da armadura.
–Kanon desapareceu... Do nada. Estava conversando com ele e ele sumiu.
Afonso se lembrou do Olimpo. E se eles desobedeceram Zeus?
–Fique aqui.
Afonso saiu correndo, pegando Niké, descendo como um foguete as escadarias das doze casas. Claro que os guardiões ficaram preocupados. E desceram juntos até a terceira casa. Frida, não demorou-se. Seja o que for que Afonso tinha na cabeça, não podia deixá-lo descer assim do nada.
Afonso foi o primeiro a chegar e ouviu risadas do filho a conversar com alguém. Quando entrou na sala de estar, viu Emanuel levando uma saraivada de cócegas de Kanon. Os dois pararam a brincadeira quando viram Afonso.
O pequenino saiu dos braços de Kanon e foi correndo para Afonso de braços abertos.
–Papai, papai! O tio Kanon veio brincar comigo.
O jovem deus olhou para Kanon, que estava parecendo mais interessado nos ladrilhos do chão.
–Ontem ele tava frio, mas hoje ele tá quente. O tio Kanon foi pegar sorvete naquela geladeira enorme que tem na cozinha do seu templo? — completou Emanuel, com um ar de curiosidade.
Afonso teve um lapso de ideia. Deixou o semideus no chão e foi andando até Kanon e lhe estendeu a mão. Foi apenas nessa hora que o ex-marina ergueu a cabeça e olhando a divindade a sua frente, meio confuso. Levantou a mão e segurou a de Afonso.
A reencarnação de Atena sentiu o calor vívido e a pulsação do sangue a correr pelas veias e um cosmo meio adormecido, talvez por estar se re-acostumando a nova realidade. Sentiu Frida no recinto com os demais dourados que seguira a todos ali e olhou para ela com um sorriso.
–Venez, chère... Seu irmão está aqui, realmente aqui.
Ao ouvir Afonso falar, Frida veio andando devagar até tocar nas mãos de Kanon sobre a de Afonso.
–Como?
–Meu pai, Zeus... — disse Afonso num sorriso. — Fez uma pequena ameaça no Olimpo.
–Obrigado, Atena... — murmurou Kanon antes de Emanuel pular no pescoço do tio e começar uma nova farra.
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Quando Kanon retornou a vida, seu corpo ainda estava bastante fraco. Estava hospedado na terceira casa. O corpo que recebera não tinha os músculos de outrora e as pernas ainda eram bambas, como se tivesse ficado anos e anos num coma e não sido refeito. Por isso que ao retornar, estava sentado no sofá da terceira casa, quando Emanuel encontrou-o.
Ainda se sentia um pouco inútil por não poder sair da cama.
–Você devia parar de falar besteira. — disse Frida quando ele exteriorizou o sentimento. — Os médicos disseram que sua situação é a mesma de pacientes que ficam em coma. É só fazer os exercícios para reforçar a musculatura.
Para ele ainda era estranho olhar Frida e saber que era Saga ali. Mas conseguia enxergar que Frida também não era Saga. Era a versão mais carinhosa e fingidora de si mesma que seu irmão.
–Vocês se acertaram, né? — perguntou o ex-marina.
–Sim. Graças em parte a sua teimosia.
–Mas você sabe que tem muitas coisas para arrumar. Você abandonou sua família na França e Afonso também fez isso para manter a barreira.
–Pretendemos ir em breve para revê-los. Mantínhamos contato por meio eletrônico.
–Coisas que terei de aprender. — riu Kanon.
–Sim, coisas que terá de aprender. — a amazona riu de volta.
Em poucos meses, Kanon já conseguia voltar a andar e buscava voltar a treinar e recuperar o físico de outrora. Quanto a isso, Frida pareceu feliz.
–Você ficará no meu lugar. — ela disse. — Não quero matar o Afonso de infarto se eu me machucar de novo.
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Fazia tanto tempo que Afonso de fato não usava roupas do mundo de fora do Santuário que ele estranhava. Dirigia o carro e logo no carro atrás estava Noah e Kalisto, sempre os dois próximos a ele de alguma forma. Soubera que depois do ocorrido do jardim eles se aproximaram bastante. Kanon estava no carro deles.
Dirigiam tranquilamente até a cidade natal de Afonso e Frida. Os casal na frente e o pequeno Emanuel atrás, se encantando com a paisagem que via pela primeira vez, a primeira ida ao mundo exterior.
A temperatura também era menor, o que fez o menino ficar enrolado no cobertor que levava.
–Como conseguiam viver nesse lugar frio? — indagou o menino.
–Nascemos aqui, então nos acostumamos. — respondeu Frida. — E nem estamos no inverno, seria mais frio ainda.
Logo estavam entrando na cidade e seguindo ao bairro onde as familias viviam, vizinhas. Emanuel se perguntava como haviam prédios tão modernos e diferentes de onde crescera, tudo era diferente.
Foi uma surpresa para ambas as famílias a visita da comitiva do Santuário. Os avós não acreditavam que Afonso e Frida tiveram o pequeno Emanuel, mas estavam felizes. Até Kanon foi tratado como filho pelos pais de Frida.
A paz reinara de novo sobre a Terra. Não havia mais pelo que lutar.
Mas paz para os defensores do amor e justiça na Terra, os Cavaleiros do Zodíaco é efêmera. Logo Afonso, reencarnação de Atena teria de lutar novamente.
Mas agora não estava só. Tinha a mulher amada e o filho amado.
Fim
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