Hikari to Kage
5 Aceitações estranhas e Reencontros
Notas iniciais
“-- (...) Se o Kagami-kun for irei com ele.
Pela cara de espanto de ambos, essa foi a primeira vez que o pequeno os enfrentou.”
Estávamos ali, pais e filhos se encarando, e eu. A atitude de Kuroko ainda ressonava no ar. Aquilo não havia deixado surpresa somente no semblante deles. Mas até eu me surpreendi, porém preferi manter a calma, mesmo que isso parecesse sentimentalmente impossível para os sentimentos que me dominavam no momento.
–- Meu filho, eu não entendo. -- o homem voltou à tona. Franzia o cenho e o olhava intrigado.
–- E-Eu também não entendia. Não queria admitir que estivesse me deixando ser pego por sentimentos que nunca tive, mas é bom. -- ele sorria olhando pro chão. -- Me faz sorrir. -- encarou os paternos. -- Eu não irei me importar se não nos aceitarem, mas continuarei a jogar basquete, e continuarei ao lado do Kagami-kun.
O que eu tinha para falar? Nada. Aquilo era visivelmente uma briga familiar, eu não tinha que me meter antes que minha opinião fosse requerida no campo.
Tetsuya #2 apareceu no cômodo, seu rabo balançando de um lado para o outro e a bola vermelha na boca. Está rolando uma briga aqui, não percebe? Tem certeza de que quer brincar agora? Como esperado ninguém prestou atenção no pobre cachorro. Encaravam-se firmemente procurando uma brecha para investir.
–- Kuroko, eu vou embora. Vocês podem conversar sem mim. Até por -.
–- Não. Você fica, só sairá daqui quando resolvermos isso. -- ele me olhou furioso, apenas levantei uma sobrancelha.
–- Isso é assunto de família Kuro-chan, Kagami está certo.
–- Não, não está! Ele também precisa ouvir tudo o que disserem, não será justo se não acontecer dessa forma.
Seu pai e mãe se entreolharam. Sua mãe suspirou e fez um movimento com a mão para que fossemos para a sala. Continuei de pé, Kuroko ainda também não se movera, encarava o chão, e respirava pesado. Toquei seu ombro com a mão que antes segurava a alça da mochila, o azulado levantou a cabeça, seus olhos marejados.
–- Não tinha que ser assim, Kagami-kun... -- fungou. -- E-Eu só -.
–- Ei... Não precisa chorar, -- passei os polegares por suas bolsas de lágrimas, beijando-lhe a testa em seguida. -- vai dar tudo certo, está bem? Você disse que eu não sairia daqui sem resolver as coisas, e como você disse, meus sentimentos também não mudarão, acaso não sejamos aceitos, estarei ao seu lado, sempre.
Senti o olhar do patriarca da família. E quando o encaremos ele caminhou para o lado da esposa, o seguimos, sentando no sofá de frente para o que os outros dois sentavam. O clima estava aparentemente mais descansado.
–- Pedirei que vocês subam, precisamos conversar a sós. -- a voz da mulher era calma.
Não discutimos, apenas seguimos em silêncio mortuário escadaria acima.
–- Isso já é um passo? -- perguntei descansando a mochila no chão próximo a cama, e me jogando ao lado dela, com a cabeça sobre o colchão.
–- Quem sabe. -- o pequeno fechou a porta. -- Eu já não posso deduzir mais nada, não depois desse show que achei que não aconteceria.
–- Gostei do que fez. Não que eu esperasse que você acatasse tudo, mas não esperava que explodisse daquele jeito. -- ele sorriu sem jeito, se ajeitando de pernas cruzadas sobre a cama, próximo a mim, com o travesseiro entre elas.
–- Não era o que eu planejava, na verdade, assim como você eu não sabia o que falaria, nem se eles aceitassem, e muito menos se não aceitassem... Bem, independente de termos sido precipitados ou não, acho que a reação dos dois seria a mesma.
–- Concordo, talvez falar logo tenha sido a decisão correta. -- procurei sua palma em meio aos lençóis.
–- Ficaremos bem. -- sorria com mais confiança dessa vez. -- Né?!
–- Mas é claro. -- ergui um pouco do meu quadril, encontrando com seus lábios ao meio do caminho, minha mão acariciava seus cabelos, enquanto a outra era enlaçada por seus dedos. -- Basquete e Kuroko, não há mais nada que eu ame no mundo. -- consegui rir.
–- Há sim, Kagami-kun. Hambúrguer.
–- Ah! Isso não vem ao caso.
Por um, mais que breve momento, conseguimos esquecer a tensão que nos envolvia, não ouvíamos barulhos lá embaixo e também não parecia que os parentes do outro queriam a nossa presença no cômodo. Isso foi bom, até para que a gente conseguisse dominar algum tipo de argumento para contra-atacar, pôr que nós dois sabíamos que seria inútil utilizar qualquer um deles, não daria certo porque nunca saberíamos o que os dois pensam.
Ouvimos um raspar de unhas na porta, e Tetsuya abriu para seu gêmeo canino, pondo-o sobre a cama ao seu lado. O cachorro apenas girou, girou e deitou dormindo. Encarei-o franzindo a testa, mas o ignorei logo depois, não valia a penas ter um chilique, não naquele momento. Já passava das oito da noite quando o azulado decidiu que deveria ver qual o rumo à conversa havia tomado. Não ouvi seus passos de ida, muito menos de volta, mas fora rápido.
–- Eles não estão lá embaixo. Acho que decidiram conversar no quarto ou estão deixando essas coisas para amanhã. No café talvez.
–- Hum... -- cocei a bochecha. -- Isso quer dizer que dormiremos no mesmo quarto?
–- Pelo visto, sim.
Sim, isso foi relaxante, isso foi espetacular de se ouvir. Eu esperava estar em casa agora, depois de tudo o que aconteceu, e não com o garoto empoleirado nos meus braços.
Não muito mais que uma hora e meia depois, sua mãe abriu a porta, não estávamos em posições constrangedoras, nem nada desse tipo, o que garanto fora um alivio enorme. Kuroko estava de volta à cama, com o travesseiro sobre as coxas e eu no chão, com a cabeça sobre o colchão. A mulher sorria, falava sobre futon e o modo ao qual eu deveria arrumar e onde. Como ela não tocou no dito assunto, preferimos entrar em sua onda e tratar tudo como se não houvesse acontecido, como a senhora fazia.
–- Boa noite, garotos. -- apagou a luz e fechou a porta. Apenas o abajur iluminava o ambiente.
–- Teremos que esperar até amanhã. -- começou.
–- Menos mal, não?
–- Acho que sim, com a cabeça descansada será mais fácil lidar com tudo. É o que penso.
–- Não discordo.
Se arrastou até a ponta da cama, encarando-me. Toquei seu rosto de leve, ele havia trancado a fechadura, não acho que fazer umas pequenas travessuras vá causar algum estrago. Segurei seu pulso e o puxei para baixo, segurando seu corpo para não tombar de vez ao chão. Tetsu riu, deitando sobre mim e beijando meus lábios apaixonadamente. Abracei suas costas, e finalmente tínhamos um momento onde não nos preocuparíamos se iriam ou não nos pegar, além daquele na cozinha, ao qual o cachorro conseguiu estragar com seu olhar à La Tetsuya Kuroko.
O beijo durou o máximo que conseguíamos naquele estado. Minhas mãos apertavam de leve os lados de sua cintura, e eu o ouvia protestar sem realmente estar querendo fazê-lo.
–- Voltarei para a cama, não faremos nada, sabe disso. -- olhava-me com seus azuis pidões.
–- Voltar é uma ótima opção nesse momento, acredite.
Não dormimos logo, e a conversa se estendeu até que eu visse os olhos do outro fechados e seu corpo parcialmente pendurado para fora da cama. Só pude sorrir, erguendo-me para enfim ajeitá-lo debaixo do cobertor. Selei sua testa e deitei novamente. Pegando no sono alguns minutos depois.
(...)
Acordei primeiro e encontrei com pares enormes e inexpressivos me encarando. Pisquei algumas vezes para clarear a visão e ter certeza do que via, Kuroko sussurrou um bom dia, coçando esfregando o pulso no orbe logo em seguida.
–- Bom dia. -- espreguicei-me.
–- Eu já abri a porta, tudo bem? -- sentou-se.
–- Claro. Não quero que seus pais pensem que fizemos nada de estranho enquanto eles dormiam.
Não conversamos muito até seu pai, entrar, sem bater, diga-se de passagem. Pediu para que nos arrumássemos e descesse para comer. Meu olhar cruzou o do outro, e sabíamos que aquela era à hora.
O banho tomado foi breve, a manhã de domingo estava clara e com o ar pouco úmido. Agradável para o clima que estava se fazendo há dias atrás.
Kuroko havia descido primeiro, e quase o xinguei por isso, como ele pôde?! Chegando à mesa, que já estava quase completamente posta, terminei de ajudá-los a colocá-la. O café da manhã correu bem, não houve discussão e novamente aquele assunto não foi o pronunciado. O frio em minha barriga se acumulava a cada olhar que os pais do outro trocavam. Aquilo estava me intrigando.
–- Kuroko, Kagami. -- o rapaz de cabelos azuis escuros começou.
Deitei a torrada que levava a boca de volta no prato.
–- Pois não? -- Tetsu falou.
–- A decisão que sua mãe e eu tomamos foi à seguinte. -- respirou fundo. -- Continuamos com o mesmo pensamento, não vamos aceitá-los. Achamos que o Tetsu tem que ter alguém que lhe dê um futuro de verdade, com uma família. -- olhou severamente para o filho, que pareceu querer sumir diante disso. -- Mas, como não podemos fazer nada por enquanto, que vocês fiquem juntos, mas saiba Kagami, -- voltou os olhos selvagens para mim. -- aqui em minha casa você será tratado como um amigo do Tetsu e nada mais que isso.
Okay, isso é bom não é?! Não significa que visitarei eles todos os dias da semana, virei uma vez ou outra. Mas, também significa que não serei tratado com tanta indiferença quando vier. É, isso pode ser uma coisa bom. Eu teria sorrido se não tivesse ficado tão tenso. E pelo jeito o garoto na cadeira de frente a minha pensada a mesma coisa, pois não se pronunciou, apenas continuava olhando estático para o pai.
–- E-Eu agradeço, senhor Tetsuya.
–- Faremos isso por nosso filho, Kagami.
Novamente eu ajudei no almoço. Kuroko ficava do balcão apenas observando nossos movimentos, isso quando seu pai não o chamava para falar ou perguntar algo, que acredito eu ser sobre nosso relacionamento. Espero que nenhuma pergunta relacionada a sexo tenha sido citada. Parei de mexer a panela diante de tal pensamento.
–- Está tudo bem, Kagami-kun? -- a mãe do garoto perguntou.
–- AH! S-SIM! Sim. Me desculpe.
–- Não pense muito sobre o assunto. -- foi apenas isso que ela disse antes de sair e me deixar só na cozinha, juntando-se ao marido na sala, para interrogar o pequeno. Suspirei, as coisas tinham que ser assim...
Com meus pais teria sido mais fácil. Não que eles não liguem para mim, mas essa questão de opção sexual não é algo a qual eles implicam. Parando para pensar, é uma boa coisa. Nunca terei problemas sobre esse tipo de coisa. Não depois do Himuro. Ah, Tatsuya, soube que ele estava vindo para o Japão novamente. Kuroko não o conhece, e eu nunca falei muito dele. Nosso relacionamento fora conturbado, e só terminamos porque eu vi morar aqui.
Virei por cima do ombro, o garoto vinha em minha direção. Sentia minhas glândulas sudoríparas produzindo o máximo de suor que podia, e ainda com o vapor da panela em meu rosto.
–- Kagami-kun?! Por que aquela cara?
–- Aquela cara? -- não o encarei.
–- Sim, aquela cara, o que foi? -- procurou meu rosto.
–- Nada, conversaremos sobre isso em casa. -- olhei para ele, que franziu a testa, mas continuou não demonstrando emoções pelo olhar.
–- Conversar em casa, não me esquecerei disso.
–- Eu sei que não. -- suspirei mais uma vez.
Como combinado o pai do garoto nos trouxe para o treino. E depois de toda a escravidão que fomos submetidos pela Riko, estamos indo para casa.
–- Taiga!! -- as minhas costas alguém gritava, um arrepio em minha espinha.
–- Himuro? -- virei e vi um garoto quase da minha altura, com seu olho esquerdo coberto por sua franja negra, e uma pinta embaixo do olho amostra, engoli a seco, Kuroko me olhava de baixo e pedia claramente explicação sobre quem era aquele.
–- Taiga! Há quanto tempo. -- tomou-me nos braços. O que faço?
–- Himuro? -- eu somente repetia isso.
–- Claro. -- sorriu. -- Quem pensa que sou?! -- dobrou a cabeça para o lado.
–- Ah... Tatsuya, esse é o Kuroko, Tetsuya Kuroko. Tetsu esse é o Tatsuya Himuro.
–- Yo, -- cantarolou levantando a mão. -- Tetsuya-kun, muito prazer.
–- Muito prazer, Himuro-kun. -- sua voz era indiferente, mas eu sei que ele está bravo. -- Eu vou na frente, Kagami-kun. Te vejo depois. -- me deu as costas, antes me lançando aquele olhar “Não me siga.”
Estou encrencado...
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