Hikari
1 Desde sempre sozinho no gelo
Notas iniciais
Meu Yuuri,
Quando comecei a patinar, me vi sozinho. Ninguém entre meus familiares apoiava a ideia de ter um patinador na família, pois consideravam um esporte exclusivamente para mulheres. A pessoa que reconheceu que meu lugar era no gelo foi Yakov; e sou grato até hoje por ele ter convencido meus pais a me deixar competir.
Vencer se tornou meu objetivo; uma luz no final do túnel que iluminava o caminho que eu devia seguir, porém que depois de um tempo começou a enfraquecer. Ganhar se tornou algo tão comum que começou a perder a graça, até que a luz se apagou por completo. Cada programa se tornou apenas mais uma obrigação a cumprir.
Foi no Grand Prix, no ano de 2015, que te vi pela primeira vez durante a competição final. Você tinha tudo para alcançar o pódio, porém seus saltos estavam falhando, apesar de seus passos estarem perfeitos. Contudo, não foi o suficiente para ganhar a tão desejada medalha de ouro. Algo te impedia. Seu rosto denunciava que seu lado emocional estava abatido, e confirmei minhas suspeitas quando pedi para tirar uma foto e você me ignorou com os olhos inchados.
Um dia depois te encontrei novamente, mas dessa vez você estava determinado a beber a maior quantidade de champanhe — ou qualquer bebida com álcool que pudesse encontrar — para esquecer o dia anterior. Quando me dei conta você estava desafiando quase todos do banquete para uma competição de dança.
Yurio foi o primeiro a aceitar. Sei que ele queria apenas te humilhar na pista de dança e aproveitar que você estava bêbado, porém você me surpreendeu mais uma vez e o venceu no break dance. Nunca ri tanto como naquela noite.
Logo em seguida fui puxado por Yurio até a pista de dança. Ele havia dito algo sobre “mostrar como a Rússia possui os melhores artistas” ou algo do tipo. Você sabe que minha memória não é boa.
Dançamos tango aquela noite e alguns passos de seu programa curto foram inspirados em nossa primeira dança.
Eu já havia tirado inúmeras fotos quando o Chris apareceu usando somente uma cueca, te desafiando para uma disputa. E foi então que notei um bastão de pole dance (que até hoje não sei como surgiu no salão de festa). Pole dance não era fácil, nosso amigo suíço tentara uma vez me ensinar sem sucesso. Quis aprender por mera curiosidade, antes que me pergunte.
Para o meu total espanto, sua resposta foi somente tirar sua calça, ficando somente de camisa, gravata e cueca e partir para o combate. Cada movimento seu era preciso, e num movimento ousado você retirou a camisa. E é claro que Chris não ficava muito atrás.
Você ganhou e, para a minha surpresa, você decidiu dançar junto com ele, e tive que admitir o quanto era forte para aguentar seu peso e o dele e conseguir se equilibrar.
Depois da disputa você me abraçou (logo após milagrosamente encontrar sua camisa) e pediu para eu ser seu técnico na próxima temporada. Logo em seguida Celestino te puxou e te levou para o seu quarto. Você passou de um bêbado alegre para um chorão, implorando para continuar. Foi a última vez que nos vimos naquele ano.
Ser técnico? Este seria o caminho iluminado que eu tanto procurava?
No entanto, eu só responderia essa pergunta após ver o vídeo de meu último programa livre, o qual você reproduziu perfeitamente. Quando me dei conta estava em um avião rumo a Hasetsu, e seria recebido com você surpreso e sem memórias do banquete (com a quantidade absurda de álcool que estava presente em seu sangue eu não fiquei surpreso de não se lembrar de nada). Confesso que fiquei triste, no entanto resolvi respeitar e esperar para te contar sobre este assunto tão delicado.
Os meses se passaram e me permitiram ver algo que eu havia ignorado desde que comecei a participar nos campeonatos nacionais e mundiais: uma vida rodeada por amor. Seus pais me receberam de braços abertos e seus amigos logo me acolheram também. Você me deu uma vida nova e um amor, que eu estava procurando por muito tempo.
Durante as competições, você mostrou seu lado inseguro que eu já havia visto, e te fiz chorar sem querer. Meu consolo foi saber de você que foi bom colocar tudo para fora de uma vez.
Engraçado, no momento em que o vi tentando realizar o meu salto, a única forma de expor meus sentimentos foi te beijando, e eu não ia aguentar esperar até que nenhuma câmera estivesse gravando para poder fazer isso. Inclusive algumas horas depois fizemos outra coisa que foi boa para ambos.
Quando me pediu para voltar para o Japão e ficar com Makkachin, notei um desespero ainda maior que durante a Copa da China em seus olhos. Eu sabia sobre seu antigo cachorro e entendia seu arrependimento de não ter ficado com ele em seus momentos finais.
No dia de seu programa livre durante a Copa da Rússia sentia que estava te observando pela primeira vez. Vendo seus erros, e sabendo qual era a causa, meu coração se apertou. E ainda mais quando te vi abraçando Yakov e descobri que houve uma perseguição de abraços entre os patinadores. Sem mencionar nossa corrida desenfreada pelo aeroporto, percebendo naquele momento o quanto você precisava de mim.
No fim das contas Makkachin só deu um susto e me trouxe um medo novo. O que aconteceria se o perdesse? Eu não iria conseguir suportar, eu iria enlouquecer, afinal foi este animal que me consolou por todo tempo que estive sozinho. Ele também notou o quanto senti sua falta no período de 24hrs que estivemos separados e insistiu para me acompanhar até o aeroporto — esta foi a prova concreta em que um cachorro conhece realmente seu dono.
E pela primeira vez parei para me perguntar: o que aconteceria se eu te perdesse? Se com Makkachin eu enlouqueceria, com você provavelmente eu tentaria suicídio para tentar reencontrá-lo. Sei que ficaria triste se eu fizesse isso, porém viver em mundo sem você seria pior. Esse medo se dissipou noite passada, quando te vi comprando nossas alianças, com uma promessa de nunca me abandonar.
Eu só queria agradecer por você estar ao meu lado, Yuuri. Por você ser a pessoa que me fez perceber que eu ainda possuía um lado simples, que ainda sabia amar, e que eu não era somente uma lenda viva sem emoções.
Obrigado por ser meu amor.
Viktor Nikiforov
Yuuri POV
”Viktor, você é um idiota por me fazer chorar logo às sete da manhã” murmurei tentando enxugar as lágrimas que desciam pelo meu rosto. Então senti alguém me abraçar por trás.
“Chamou-me do quê? “Ele falou antes de beijar minha bochecha. ” Estou ofendido, faço uma declaração tão linda e me chama de idiota.”
´´Você é um idiota, mas é o meu amor e a minha luz também´´ falei antes de me virar e dar um beijo de bom dia em seus lábios.
Fale com o autor