Hikari
1 Capítulo 1
Notas iniciais
–Sasuke Uchiha?
– Sim. Quem fala?
– Sou do hospital St. Jeff, seu irmão sofreu um acidente de carro na rodovia Estadual e...
– Ele está bem?
– Lamento senhor, ele não resistiu aos ferimentos.
***
Itachi era o presidente desta empresa desde que nosso pai faleceu há 5 anos. Viera por obrigação, não tínhamos nenhum tipo de laço com nosso pai, mas Itachi deixou o orgulho de lado quando viu quantas famílias iriam ser prejudicadas se ele os abandonasse.
Eu era 7 anos mais novo que Itachi. Por falta de um pai, foi ele quem cuidou de mim depois que nossa mãe morreu quando eu tinha 11 anos.
Cresci e virei um playboy de primeira, meu sobrenome ajudava muito na hora da badalação, apesar de não ter onde cair morto. Era só falar que era um Uchiha que tudo caia em minhas mãos.
Quando nosso pai morreu e Itachi assumiu, me deu tudo o que o dinheiro podia ou não comprar, um jeito de se vingar de nosso pai pelo descaso...
Virei um playboy completo.
Itachi sempre me disse pra aproveitar bem a vida, porque ela é curta e não há volta para arrependimentos.
“Se for se arrepender, arrependa-se do que fez e não do que deixou de fazer.” Era o que ele sempre dizia quando eu vinha até a sua sala contar como foi a noite anterior com meus amigos.
Apesar de toda responsabilidade que ele tinha, nunca o vi sem o costumeiro sorriso cordial. Todos gostavam dele, desde a faxineira até os acionistas...
Uma batida baixa na porta me tira de meus sofridos devaneios.
– Entre.
– Senhor Uchiha, com licença. O senhor precisa de mais alguma coisa?
– Não, já pode ir.
– Boa noite, sr.
Apenas com um aceno de cabeça ela entende que desejo o mesmo a ela e se retira.
Meus pensamentos se voltam inteiramente para os meus documentos e propostas de fornecedores e clientes, minha vida se resume nisso desde que assumi o lugar de meu irmão depois dele ter falecido.
Itachi, como pode fazer essa brincadeira de mal gosto?
Fecho os olhos com força, pois aquele aperto incômodo insiste em me atormentar.
– Hey, chefe! — grita Naruto entrando em minha sala sem bater. Odeio isso. — Dor de cabeça? Ele se senta folgadamente em frente a minha mesa e começa a mexer nos enfeites em cima da mesma. Aperto as têmporas com força, pressentindo a dor de cabeça só olhando aquele sorriso maroto dele.
– O que quer?
– Abriu um barzinho novo... — ele começa empolgado, mas realmente não tenho cabeça pra isso agora.
– Tenho trabalho a fazer.
– Qual é Sasuke? Vamos lá! Vai estar todo mundo lá.
– Não insista. Talvez na próxima. — Não vou na próxima também, mas pelo menos assim ele sai mais rápido.
– Você não me enrola dessa vez! — Droga! — Escuto isso há dois anos, teme! Bufo cansado com toda a aquela falação.
Qual o problema em me deixar quieto com as minhas coisas? Quando eu digo não, é não.
– Vai, levanta essa bunda branca daí e vamos beber alguma coisa. — Naruto me tira do sério com essa empolgação toda em plena sexta-feira. — Esquece essa mesa só essa noite. Me olha suplicando uma resposta positiva. Minha vontade é dizer não, mas consigo ver o quanto ele se preocupa comigo. — Itachi não ia gostar de te ver nessa deprê, cara.
Instintivamente olho para a foto de Itachi em minha mesa. Sorrindo. Como se me encorajasse a sair e me divertir.
Suspiro resignado e me levanto pegando meu paletó nas costas da cadeira. Naruto me olha incrédulo enquanto um sorriso enorme se forma.
– Vamos antes que eu mude de ideia.
_________________________________________________________________________________
O barzinho que Naruto me levou até que é bem confortável. Fica localizado em uma parte nobre da cidade e não é barulhento. O lugar é espaçoso e conta com uma decoração interessante, cheio de candelabros de cobre pelas paredes cinzas em forma de galhos, sustentando velas que só servem mesmo para decoração. Há mesas redondas por todo o lugar com cadeiras para 2, 4 ou 10 pessoas. O bar fica bem ao meio em formato circular e os solteiros disputam os bancos ao redor do balcão.
Em uma mesa grande, o canto direito, encontram-se meus antigos companheiros de balada. Neji, Gaara, Sai, Shikamaru, Chouji e Rock Lee. Todos estão muito concentrados em alguma piada idiota que provavelmente Sai deve ter contado. Naruto vai ao meu lado tagarelando coisas que não presto muita atenção.
Estou perdido no passado vendo aquela mesma turma rindo de algo que eu tenha dito, provavelmente algo estúpido e indecente.
– Hey, bando de viados! Olhem quem eu consegui arrastar até aqui. — grita Naruto dano um tapa na nuca de Rock Lee.
Todos me olham surpresos por um momento, mas logo começam a gargalhar e se levantar me puxando para abraços.
– Sasuke Uchiha! Quanto tempo, cara. — diz Neji quando já nos sentamos a mesa.
Todos me olham como se esperassem que dissesse alguma coisa, mas depois de tudo, me sinto no lugar errado... Somente dou um aceno fraco de cabeça olhando para os copos vazios na mesa.
– Garçom, traz uma rodada de tequila! — grita Rock Lee acenando freneticamente para um senhor. — Vamos desenterrar o Uchiha sensei.
Todos começam a falar ao mesmo tempo sobre os velhos tempos e não consigo me concentrar em nenhuma das façanhas do antigo Sasuke que cada um conta.
– Vamos brindar. — pede Shikamaru erguendo seu copo e sendo seguido pelos demais. — Ao Sasuke, que apesar de tudo, continua o mesmo filho da mãe.
– Ao Sasuke!
A mesa se rompe em gargalhadas depois desse brinde ridículo e me dou a liberdade de sorrir um pouco.
Eu senti saudades desses idiotas.
– … daí cara, eu peguei ela de jeito e falei: “Na minha casa ou na sua?”
– Cala a boca Gaara, você estava tão chapado que nem sabe como foi parar lá.
– Fica na sua Sai, daí ela veio toda...
Paro de prestar atenção no monólogo do Gaara sobre uma antiga amiga nossa e observo o pequeno palco onde uma banda cover do Led Zeppelin se apresenta. Em frente a eles há uma garota da cabelos cor de rosa balançando o corpo no ritmo do acústico de Stairway to Heaven. O balanço preguiçoso de seu vestido preto me entorpece e a trança mal feita, de certa forma, me chama mais atenção que o escândalo de Naruto.
Enquanto todas as garotas se equilibram em seus saltos e alisam seus cabelos a fim de levar um bom partido essa noite, ela simplesmente se entrega a música com os fios rosas para todos os lados e os pés descalços.
Deve estar bêbada.
– Não é, Teme? — pergunta Naruto e não faço a mínima ideia do que se trata.
– É, isso. — concordo deixando os outros na mesa impressionados. Vai saber que mentira o Naruto está contando... — Vou no banheiro, vão pedindo uma garrafa de whisky por minha conta.
Escutei os gritos eufóricos dos rapazes até chegar ao banheiro.
Passo uma água no rosto para me livrar do calor e fito com atenção, pela primeira vez depois de muito tempo, meu reflexo no espelho.
Tudo o que vejo é o oposto do que fui e do que meus amigos ainda são.
Minhas olheiras são visíveis e meus olhos estão caídos, sem aquele brilho jovial que transbordava antes, meus lábios estão secos e nem lembro quem foi a última a tocá-los. Meus cabelos estão bem alinhados e penteados, me deixando com aparência de mais velho.
Me sinto cansado só de me olhar.
– O que você 'tá fazendo no banheiro feminino?
Me viro e vejo a moça de cabelo rosa que estava dançando até a pouco, me olhando curiosa e divertida. Olho para o banheiro com medo de ter entrado no lugar errado, mas vejo os mictórios no canto e confirmo que ela está mesmo bêbada.
– Esse é o banheiro masculino. — digo pausadamente.
Ela olha para a plaquinha do lado de fora e dá uma risada gostosa.
– Ah, vai aqui mesmo. Tô apertada!
Ela corre até um dos boxes sem cerimônia e se fecha diante do meu olhar pasmo.
– Você não se incomoda, né? — ela grita de um dos boxes quando estou passando mais um pouco de água em meu rosto. Tenho que admitir que me diverti com a situação.
– Não. — respondo simplesmente escutando um resmungo seguido de uma descarga.
Aparece ao meu lado e lava as mãos. Ela olha no espelho e faz umas caretas e depois vê se os dentes estão limpos. Não consigo desviar os olhos, intrigado com a figura a minha frente.
Ela é uma moça muito bonita, de beleza limpa, quase sem maquiagem. Tem olhos verdes impactantes e uma pele tão branca que faz a cor dos lábios ser naturalmente avermelhados. A franja cai displicente pelos olhos, fazendo-a jogar a cabeça impaciente para os lados tentando arrumá-la, enquanto as mãos estão cheias de espuma. Pela aparência deve ter uns 18 ou 19 anos.
– Prazer, Sou Sakura. — ela diz de repente me encarando com um sorriso enorme. Me sinto um velho perto dela.
– Prazer, Sasuke. — tento devolver o sorriso, mas deve ter sido uma tentativa falha, pois a expressão dela murchou um pouco enquanto me encarava por mais um instante.
Ela balança a cabeça, como pra espantar algum pensamento, e começa a secar as mãos.
– Como você consegue ficar de camisa social numa noite tão quente? — ela pergunta se escorando na pia.
Me pergunto a mesma coisa. Estou assando.
– Vim direto do trabalho. — respondo indo em direção a porta, mas as pequenas mãos dela me barram.
A olho esperando uma explicação, mas tudo que vejo é um sorriso infantil e olhos brilhantes.
– Vem cá que eu não vou deixar meu novo amigo de banheiro desperdiçar essa noite por causa de uma camisa.
Quando vejo ela já está dobrando as mangas até a altura de meu cotovelo enquanto cantarola a música que estava dançando antes. Seu hálito fresco bate em meu rosto quando ela tira minha gravata. Não há sinal de álcool. Ela não está bêbada.
Nossos olhos se encontram por um instante, e sinto uma atração muito forte, como há muito não sentia, mas ela corta o contato visual olhando para as mãos que habilmente dobram minha gravata.
Normalmente não gosto quando desconhecidos tocam em mim, mas ela foi muito rápida e nem me deu tempo de discutir.
Ou me deixou tão perplexo com sua falta de malícia e naturalidade que não tive reação negativa?
– Prontinho Sasuke! Aproveite a noite!
Ela joga o bolinho de gravata no meu peito e sai do banheiro rapidamente acenando de costas.
Quando te vi pela primeira vez, já devia ter aceitado o fato de que nunca mais conseguiria dormir sem pensar em seus olhos.
Fale com o autor