Higher Than Grave
1 Capítulo Único
Bradley
A saudade dela é como um tiro em meu peito. Mudo de lugar diversas vezes tentando me acostumar com a dor. No meio do silencio ouço nossa musica começar a tocar, penso em quantas vezes paramos o carro e ficamos cantando juntos, levo um momento para perceber que tudo o que eu tinha de concreto se foi. As horas passam devagar, até os segundos estão lentos hoje. Será que o relógio está congelado no tempo? Se estiver não me importo, apenas quero mais tempo com ela.
As pessoas ao meu redor perguntam se estou bem, mas não sei como responder essa pergunta, apenas aceno que sim com a cabeça. Fecho os olhos e penso em nossos momentos juntos, a primeira vez que consegui tirar um sorriso de seus lábios, e o quanto foi difícil convencê-la a sair comigo. Inúmeras coisas passam em minha mente até chegar a ultima noite que a vi, menos de vinte e quatro horas atrás ela estava em meus braços, seu peito movimentava-se ofegante, seus cabelos suados grudados em seu pescoço.
Tão viva.
Tão minha.
Agora a única coisa que me pertence é a culpa de tê-la deixado ir.
As pessoas começam a se movimentar, está na hora. Alguém começa a falar algo, mas não consigo encontrar sentido nas palavras. Tudo está mudando, mas eu continuo parado no tempo, perdido em seu cheiro, seu abraço, seu beijo. Enquanto andamos até o lugar marcado anseio por um meio de desligar meus sentimentos. Checo o celular em busca de respostas dela, mas não há nada ali. Tenho vontade de gritar quando me dou conta que agora estou sozinho naquela casa, não quero mais voltar lá.
Você era a minha casa, Margot.
Observo o lugar onde ela deveria estar e a imagino dormindo igual nas vezes em que me perdia assistindo seu sono leve, a lembrança do seu rosto sereno me traz paz. Quase não consigo respirar em meio as lagrimas. Conservo essa imagem em minha cabeça, as ultimas flores são jogadas e eu deixo o lugar pensando em como seguir a partir de agora.
Margot
Assisto de longe ao meu próprio enterro. Apenas amigos em volta de um caixão vazio, algumas lágrimas falsas me dão vontade de rir. Até que meus olhos o encontram, meu coração encolhe. Ah! Se ele soubesse que a decisão mais difícil foi o deixar. Meu queixo treme e meus olhos ardem em protesto as lagrimas que querem sair, mas as seguro. Foi minha escolha. Não tenho direito de chorar. Essa é minha vida, começo a fingir ser alguém, faço amizades, a vida está boa, eu estou bem, então começa tudo de novo e eu tenho que ir embora.
Dessa vez foi diferente, os lençóis que me estavam me cobrindo foram puxados com mais força do que antes. Pensei em compartilhar tudo com ele, todas as coisas que eu nunca mostrei, todas as coisas que ele nunca soube. Mas eu precisava deixar isto trancado, se não, seria ele sendo levado ao túmulo.
Se eu não fosse embora Bradley seria morto.
E isso sim eu nunca conseguiria suportar.
Os avisos de que eles sabiam onde eu estava começaram uma semana antes, estive descuidada, sempre disse que estava prepara para qualquer coisa, mas claramente não estava preparada para me apaixonar por alguém, para amar ele. Em nossa ultima noite juntos eu já tinha tudo planejado, fui até sua casa e aproveitamos nosso tempo juntos da melhor maneira possível, ao tocar sua pele desejei deixar um pedaço meu ali para que nunca fosse esquecida. Esperei até Bradley adormecer para ir embora, dei um ultimo beijo em seus lábios e fui. Dirigi até uma estrada vazia e ateei fogo em meu carro, ele explodiu levando consigo qualquer vestígio e possibilidade de vida.
Nunca fico até o meu velório em uma cidade, mas dessa vez não consegui simplesmente ir embora, esperei até que achassem o carro e me dessem como morta. Respiro fundo sentindo facas me cortarem por dentro, não deveria doer, mas dói. Dói muito.
Distraí-me olhando pra ele e esqueci que enquanto fazia isso, colocava muito mais que só a minha vida em risco. Eu aprendi aos poucos a amar novamente, e agora eu quero ama-lo e não consigo evitar. Sei que não dava mais pra adiar o fim, eles estavam perto demais de descobrir onde eu estava e querem me enterrar viva.
Amo Bradley de todos os jeitos possíveis, mas eu me amo mais.
Jogo o celular no chão e piso em cima com o salto do sapato.
Aqui jaz Margot.
Agora sou Ágata.
Puxo o capuz do sobretudo preto que me protege contra o frio, saio do cemitério pisando firme deixando para trás os restos de uma vida que não me pertence mais.
Ágata
Estou o mais longe possível da minha ultima localização, meus cabelos antes castanhos e curtos agora estão longos e loiros. Me estranho ao olhar no espelho, mais sei que é necessário.
Entro no trem com destino a Preston — Lancashire, mas assim que meus pés entram no vagão sinto tudo girar, tento amenizar a tontura sentando em um dos bancos. Não aguento muito tempo ali, na primeira parada eu saio correndo do vagão e vomito tudo que estava em meu estômago. Outra tontura. Deus! Eu não aguento mais. Já perdi as contas de quantas vezes passei mal essa semana. Respiro fundo e vou comprar outra passagem para Preston.
Espero duas horas pelo próximo trem. Quando chego a Preston vou à procura do apartamento que aluguei. O lugar é pequeno e sem muitas janelas, mas da bem para morar. Meu estômago ronca protestando contra a fome, coloco a mão em minha barriga e noto que ela esta inchada, penso que estou na tpm.
Pego alguns lanches que sobraram da viajem e sento no pequeno sofá. Enquanto isso faço alguns cálculos em minha cabeça, um frio me atinge quando chego ao resultado. Está atrasada. Corro até o espelho e levanto a blusa, minha barriga está redondinha demais para ser só gordura.
Não! Não, não, não!
Como pude deixar isso acontecer? Calço os sapatos e em segundos já estou descendo as escadas em busca de uma farmácia, compro o teste e volto para casa.
Os minutos de espera são os mais longos de minha vida, quase abro um buraco no chão enquanto caminho de um lado para o outro. Mas quando olho no relógio e vejo que já passou os minutos solicitados, desejo que eles nunca tivessem passado. Com as mãos tremulas pego o teste.
Positivo.
Estou esperando um bebê de Bradley.
Desabo no chão chorando, não tenho mais forças para fazer isso, não tenho mais forças para fugir. Penso em como Bradley ficaria feliz em saber, em como contaria para ele. Os soluços fazem meu corpo balançar. Não quero que essa criança tenha a mesma vida que eu, a única maneira que vejo de como resolver isso é pondo um fim.
Corro para a internet buscando alguma clinica que faça o procedimento, encontro algumas e me prometo que no outro dia vou até elas. Não consigo dormir naquela noite.
Acordo de um cochilo e vejo que já são 8 horas da manhã, levanto e coloco uma roupa. Passo na padaria para tomar um café, mas estou nervosa demais para isso. Caminho lentamente até chegar a clinica. Do outro lado da rua fico a observando por mais tempo que deveria, não tenho coragem de entrar. Coloco a mão em minha barriga e não me sinto sozinha pela primeira vez em muito tempo, ali dentro tem um pedacinho de Bradley também. Um sentimento voraz toma conta de mim, vou ter essa criança sim, vou proteger meu filho com a minha própria vida. Muitas coisas já foram arrancadas de mim, mas o privilégio de ter um filho com o único cara que amei em minha vida, não vai ser um delas.
Na volta para casa sinto que estou sendo seguida, mas diferente das outras vezes noto que é somente um homem e ele não parece ser muito experiente. É fácil o despistar, entro em um mercado e quando o carro passa, ele não parece nem notar que não estou mais seguindo naquela rua. Rio sozinha do quão fácil foi engana-lo.
À noite decido tirar um tempo para mim, baixo um filme e faço pipoca, deito no sofá disposta a relaxar. O som da campainha me acorda de um cochilo, levanto-me irritada, deve ser um dos vizinhos pedindo algo mais uma vez.
Ao abrir a porta perco o fôlego, tenho certeza que estou pálida.
— Oi. — ele diz calmo — Que foi? Parece que viu um fantasma. — sua voz é irônica
— O que você está fazendo aqui Bradley? — Ele passa por mim e entra no apartamento ignorando minha pergunta.
— Você parece bem viva para alguém que teve seu corpo devorado pelas chamas. Gostei do cabelo, alias.
— Como você me achou?
— Você realmente achou que conseguiria me enganar, Margot? Os outros tudo bem, mas eu?
— Eu não entendo, como... Era você me seguindo agora pouco, não era? — Ele da de ombros afirmando.
— Vi em seu celular algumas mensagens e contratei um detetive para te seguir, não foi muito difícil de descobrir na verdade.
— Bradley você não poderia ter feito isso. Você não tem noção com o que está lidando.
— Sério, Margot? Por que eu acho que tenho o direito de saber o motivo de você ter forjado a sua própria morte. Eu era seu noivo, Margot. Nós íamos nos casar. — Ele fala se aproximando. Posso sentir o peso da mágoa em suas palavras.
Pela primeira vez em todos esses anos fugindo eu quero compartilhar com alguém minha vida, mas ao mesmo tempo eu sei que isso seria egoísmo já que estaria pondo essa pessoa em perigo apenas para não ter que carregar tudo sozinha. Respiro fundo tentando me acalmar, não quero ficar nervosa demais e acabar prejudicando meu bebê.
— Brad... Eu não posso contar isso para você, seria muito egoísmo da minha parte coloca-lo em perigo. E eu amo você demais para fazer isso. — Digo colando minha mão em seu rosto, ele estremece com meu toque.
— Por favor. Eu preciso entender.
— Não, Bradley. — Respondo me afastando dele.
— Se for assim eu já estou em perigo. Sei onde você está e que está viva. — O encaro com os olhos semisserrados — Não vou embora até você me contar a verdade.
Sentado no sofá compartilho com Bradley a minha história.
— Éramos um grupo de hackers na faculdade quando descobrimos coisas que poderiam derrubar pessoas importantes do governo que estavam no poder envolvidos com todos os tipos de corrupção, acabamos contando para pessoas erradas e chamando atenção de grupos maiores que já estavam envolvidos nisso. Eles nos avisaram para ir com calma e não divulgar nada, eles já tinham tudo programado para desmascara-los, mas nós não demos ouvidos a eles. — Respiro fundo antes de continuar — Tudo era novidade, estávamos empolgados e embriagados pela sede de justiça, fizemos tudo pelas nossas próprias mãos. Irritando pessoas que estão dispostas a fazer de tudo para continuarem no poder, no inicio achamos que era brincadeira, mas quando as pessoas que amávamos começaram a morrer entendemos que tínhamos mexido com coisa séria. — Dou uma pausa tentando controlar o choro — Eu perdi minha família e amigos, então tive que fugir se não seria a próxima a morrer. E desde então venho fugindo e trocando de nome, toda vez que eu estou bem e estabilizada em um lugar eles aparecem e eu tenho que ir embora. Eu sinto muito, Bradley. Nunca quis envolver você nisso.
Bradley me encara sério, em seu olhar um misto de sentimentos está presente.
— Por que você não me contou? Nós poderíamos encontrar uma solução.
— Não. — Digo negando com a cabeça — Você não entende? TODOS que eu amo foram mortos. Eu não posso arriscar perder você, Bradley.
— Você não merece viver assim, Margot. Você não merece viver sozinha para sempre.
— Mayla. —Meu nome verdadeiro é Mayla.
— OK. Mayla. — Ele diz dando um meio sorriso.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, levanto-me para buscar uma água. Quando estou voltando da cozinha Bradley me para, ele segura meus braços e fixa seus olhos nos meus.
— Eu não vou embora. Vamos fugir juntos pelo resto da vida se for preciso, mas eu não vou deixar você sozinha.
— Brad... — Tento me desvencilhar, mas ele não deixa.
— Não, Margot, Ágata, Mayla ou seja qual for o seu nome. Eu não me importo na verdade. Eu tenho certeza que você é o amor da minha vida e não vou desistir de você. Nem agora e nem nunca. Eu amo você. Quero estar do seu lado quando as coisas derem erradas e tiver que fugir. Vou ficar com você do anoitecer até o amanhecer todos os dias da minha vida, por que você é minha noiva e vai ser minha esposa em breve. — Ele coloca uma de suas mãos em meu rosto — Eu estou bem aqui, amor. E não vou embora.
Nesse ponto eu já não conseguia mais segurar as lágrimas, o puxei para um beijo.
— Tem mais uma coisa que você precisa saber. — Sussurro quando nos separamos.
Bradley me encara com aqueles olhos castanhos curiosos, torço para que o bebê os tenha também. Chego bem ao pé do seu ouvido e digo:
— Estou grávida.
Dessa vez o amor falou mais alto que a morte, nem um túmulo impediu que ele sobrevivesse.
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