High High High
1 Levante-se
Notas iniciais
E aos poucos abri meus olhos.
Mexi um pouco meus dedos, rocei as pernas uma na outra. Estava sentada no chão molhado e sujo, a chuva caia sobre a minha pele e assim começaram as novas sensações. A sensação do frio contra meu corpo, do molhado da água que escorria, o ar entrava pelas minhas narinas e refrescava meu interior. Inspirei mais uma vez e soltei o ar lentamente pela boca. Minha audição estava fraca, em meus ouvidos só chegavam os estalos pequeninos das gotas da chuva no chão.
Com certa dificuldade joguei meu tronco para cima, a fim de me levantar. Meus cabelos grudavam nos lábios e isso incomodava. Mas do quê me adiantaria reclamar?
Olhei tudo a minha volta, e logo a minha frente havia uma sombra. De relance, arregalei os olhos em um susto e coloquei o tronco um pouco para trás, me afastando. Observando com mais atenção, não era de fato uma sombra, mais parecia uma... Uma formiga.
Devia ser do tamanho de um bicho de pelúcia, com antenas, braços e pés. Nas mãos havia três dedos e toda sua estrutura era da cor preta. Apenas seus olhos, que me fitavam com curiosidade, eram de um amarelo brilhante e vivo.
-... – Eu não tinha o que dizer. Palavras? O que elas eram até então, eu não sabia. Fitei meu corpo ainda nu. Não que este fato me incomodasse, sendo que por hora, não fazia diferença. Arrisquei inspirar fundo, fechar os olhos e abrir a boca. – Who am I?
Fiquei esperando a resposta. Abri os olhos, e a “formiga” ainda me observava. Ela não demonstrava nada, e emoções não foram expressas. Eu mantinha o semblante neutro, o vazio que havia dentro de mim transparecia. Meu coração bateu pesado, e uma voz em meus ouvidos explicara tudo... Sumindo e deixando minha mente em silêncio.
Eu era um Nobody. E a “formiga” a minha frente era meu Heartless. Pouco importava os detalhes, eu já tinha recebido minha resposta. Eu queria poder demonstrar alguma coisa, alguma coisa boa. Mas aquele vazio... Chega a doer no meu peito.
Ainda com pouca força nas pernas, me levantei, tentando retomar o equilíbrio. Olhando ao redor, percebi estar num beco. Andei por entre as ruas desertas, com casas feitas de pedra e telhados de telha e palha. Era uma área onde as estruturas tinham seus canos amostra, enferrujados, das chaminés saiam fumaça. Engrenagens funcionavam por entre as paredes, e eu já conseguia ver a luz do Sol por entre as nuvens do céu nublado.
Entrei na ala comercial. Lojas com artigos mágicos, armas... Meu Heartless seguia-me a alguns passos adiante, mas não havia comunicação entre nós. Havia uma janela logo acima de mim, onde encontrei roupas penduradas. Dando alguns pulos, e esticando meus braços o máximo que conseguia, consegui pegar um vestido. Era branco e comprido, deveria ser uma camisola, então a vesti. Sentia-me mais quente...
Decidi observar as expressões nas faces das pessoas que ainda estavam a caminhar, ouvir suas vozes. Elas passavam por mim, rindo uns com os outros. As risadas e os sorrisos pareciam ótimos. Decidi fazer o mesmo. Vir-me-ei para meu Heartless, sentando em meus tornozelos.
-Vamos começar de novo. – Meus olhos chegaram a brilhar, eu conseguira falar uma linda frase como aquela rapidamente! Talvez eu fosse uma espécie rara de Nobody ou um prodígio... Não que isso tenha impressionado o meu Heartless, que balançava a cabeça como se dissesse “Idiota...”.
Suspirei e tentei me comunicar um pouco mais.
-Eu não tenho um nome. Você tem? – Ele não respondeu, ficava me encarando. Se ele era meu Heartless, ele era uma parte de mim. Sorri. – Quer um nome? Pode ser um bem simples. O seu nome pode ser o meu nome.
O Heartless apenas mexeu as antenas. Foi, para mim, um consentimento. Estávamos ainda no beco, pois parecia que meu Heartless não queria que os outros o vissem. Pensando por um tempo, logo decidi um nome. Era simples, talvez até idiota.
-Four! Que tal? É lindo não? Tão sonoro... – Eu estava tão animada com aquilo! Sim, leitor. Você leu certo, é “Four”, ou seja, “Quatro”. Não me pergunte a origem desse nome bizarro, mas foi o melhor que me veio a mente, afinal eu não tinha um vocabulário vasto.
Peguei meu Heartless no colo, aninhando-o como um pequeno filhote. Este começou a espernear, entrando em pânico. Tive que segura-lo com mais força. Ele é um tanto cabeça-dura.
Andei mais um pouco pelas ruas, subindo alguns lances de escada e encontrei uma placa. Parecia dizer onde eu me situava.
-Hollow Bas-... Bastion. – Eu conseguira pronunciar, com certa dificuldade. Era um nome incomum, mas tudo bem. Afinal eu havia batizado a mim e meu Heartless de “Four” então não tenho que argumentar.
A chuva parou. O Sol começou a sair detrás da cortina de nuvens cinzentas, e tudo estava com o brilho da água da chuva. Pareciam pequeninas pérolas pingando nas ruas silenciosas de Hollow Bastion. A primeira expressão que eu havia visto era um sorriso. Eram risos gostosos e algo que batizei de... Felicidade.
Eu ficava bonita com um sorriso no rosto, e decidi estar sempre sorrindo.
Mesmo sendo um Nobody.
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