Hide & Seek
6 Eu tinha sobrevivido até agora. Vou conseguir alcançar o meu objetivo.
Notas iniciais
Continuamos nessa perseguição medonha, com Marc dirigindo como um louco até que um dos nossos perseguidores resolveu apelar e começou a atirar, causando pânico tanto em nós quanto nos poucos outros carros alheios de todo o resto.
–Desde quando Leon deixa qualquer um usar armas? – Damian perguntou chocado sem qualquer tipo de humor na voz.
Para não ficar sem entender a situação, olhei para trás bem a tempo de ver o vampiro que decidiu tentar nos matar sendo perfurado por alguma coisa e caindo da moto em alta velocidade. Essa não foi uma boa cena de se ver.
–Isso te responde, Damian? – Marc falou desesperado, olhando também para trás.
Espera, se tanto eu e Damian quanto o castanho estávamos olhando para trás, quem estava de olho na estrada? Parece que todos nós percebemos esse fato ao mesmo tempo, pois os três olharam imediatamente para frente, tomando um baita susto e gritando quando vimos uma figura masculina muito conhecida preparada para o impacto contra o carro e esperando-nos no meio da estrada.
De última hora, o moreno segurou o volante e o virou para direita, fazendo com que o carro saísse da estrada e seguisse o seu rumo em um terreno com poucas árvores e vegetação rasteira.
–Por favor, fala que aquele não era o Leon! – meu coração estava muito acelerado e minha voz estava falha.
–Bem que eu gostaria de dizer isso. – o nosso salvador falou tão nervoso quanto eu, com os olhos arregalados.
–Vamos morrer, definitivamente vamos morrer! – Marc gritou em total pânico.
Infelizmente eu não pude discordar dele, principalmente quando me toquei que íamos em direção à beira de um abismo.
–Cuidado! – gritei com todas as minhas forças, encolhendo-me e esperando a morte certa.
Quando pensei que cairíamos, algo se colidiu com o nosso carro e o impacto empurrou-o para trás. Olhei de maneira tímida para a janela da frente do carro, dando outro berro quando vi que era o Leon quem havia salvado o nosso carro. É oficial, vamos morrer!
Os seus olhos estavam em uma cor vermelha viva, acompanhando muito bem sua expressão de irritação e desgosto. A reação de Marc em relação a isso foi dar ré, se afastando alguns metros do líder dos vampiros. Isso apenas o deixando ainda mais irritado e o fez rosnar de maneira gutural.
–Por que você fez isso, Marc? – Damian perguntou rindo um pouco.
–Pelos mesmos motivos que você está rindo. – ele respondeu, rindo também. –Nervosismo e certeza de morte.
A minha resposta a tudo isso foi sorrir e deixar uma lágrima fugitiva escapar e escorrer pelo meu rosto. Leon começou a vir em direção ao veículo lentamente como um predador se aproximando de sua vítima, estalando suas mãos e seu pescoço de maneira sinistra com um sorriso medonho. Quando ele estava próximo demais ao carro, algo o fez olhar para esquerda.
–Isso não está acontecendo! – ele gritou com ódio em sua voz.
–Ora, ora, veja quem encontramos fora de seu ninho nessa bela noite! – uma mulher gritou animada, rindo e apontando para o vampiro baixinho.
Ela era relativamente alta, com cabelo roxo solto e olhos azuis brilhando em ironia. Estava vestida com uma roupa completamente preta, formada de uma legging e uma camiseta com algo que eu não conseguia ver estampado de vermelho, segurando uma arma grande que também não saberia identificar.
Ao seu lado havia uma garota que parecia ter a nossa idade, com um cabelo cacheado vermelho sangue claramente pintado preso em um rabo de cavalo alto com olhos vermelhos como os de um vampiro e as mesmas roupas, porém menores. A ruiva, por sua vez, segurava duas pistolas prateadas, encarando toda a situação com muita curiosidade.
Não demorou muito para que rosnados se tornassem mais altos e grandes sombras praticamente agachadas surgissem em volta das duas.
–Aquilo são lobisomens? – Marc tentou falar baixo e calmo, mas falhou miseravelmente.
–LOBISOMENS EXISTEM? – Damian gritou alto demais, fazendo com que todos os outros presentes olhassem para o carro.
–Cala a boca! – Marc falou baixo, dando um soco no rosto do moreno.
O castanho imediatamente voltou a dar ré no carro e, em pouco tempo depois, estávamos na estrada de novo. A reação do moreno foi simplesmente resmungar e massagear a cara, olhando feio para o outro.
–Precisava do soco? – havia irritação em sua voz.
–Precisava abrir a boca para falar idiotice? – foi a resposta educada de Marc.
–Sério, acho que agora não é a melhor hora para discutir. – falei séria, tomando as rédeas da situação.
Para ver qual era a nossa situação e se não havia ninguém nos perseguindo, abri a janela e olhei em volta. Infelizmente, as sombras, ou melhor, os “lobisomens” nos perseguiam tanto pela estrada quanto pelas laterais, fazendo-me entrar em pânico.
–Os lobisomens ou o que quer que sejam essas coisas estão nos perseguindo. – avisei desesperada, me jogando no banco totalmente desistente.
–Eu nem sabia que monstros assim existiam e agora eles estão nos perseguindo! – o moreno babaca comentou, rindo e encarando o lado de fora com uma estranha animação.
A resposta ao comentário dele foi dada pelo lado de fora em forma de um rosnado mais forte e gutural.
–Acho que eles não gostaram do que você disse, Damian. – Marc falou tranquilo, me assustando um pouco. –Se não morremos até agora depois de tudo isso, não vamos morrer tão cedo! – disse ele como se respondesse uma pergunta que eu nem havia feito.
–Como você...? – comecei, mas estava nervosa demais para continuar.
–Sua respiração ficou mais ofegante depois do que eu disse, então eu pensei que pudesse ter se assustado com a minha calma e a expliquei. Errei? – ele respondeu educadamente. –Caramba, mesmo eu sendo um vampiro, ainda estou chocado pelo fato de que exista uma criatura como um lobisomem. – ele riu alegremente como uma criança.
–Eu também. – completou Damian divertido. -Isso é tão estranho.
–Vocês estão bem? Por qual motivo estão tão tranquilos quando tem lobisomens e provavelmente vampiros atrás de nós? – exclamei brava e indignada.
Eu estava uma pilha de nervos, com medo de morrer, enquanto os dois idiotas estavam calmos como se nada daquilo fosse assustador ou sequer importante! Os babacas simplesmente riram, ignorando o meu comentário por completo, fazendo-me ficar ainda mais furiosa.
Decidi que pelo resto do percurso iria ignora-los, até que me toquei que não tínhamos um destino definido. Droga, até isso tem uma complicação! Marc continuou dirigindo como um louco até que o carro começou a perder velocidade, deixando-me ainda mais inquieta.
–Marc, porque você está desacelerando? – minha voz estava banhada de insegurança e medo.
–Não sou eu quem está desacelerando! – o pânico havia voltado ao seu tom, mas com uma menor intensidade se comparado a antes.
–O combustível acabou. – declarou o moreno com nervosismo. –Foi um prazer conhecer vocês dois. Quer dizer, não foi um prazer tão grande conhecer uma humana desprezível e um vampiro metódico, mas como vamos morrer, é melhor seguir o clássico e falar que amo os dois.
–Você não consegue parar de ser babaca até mesmo quando vamos morrer? – perguntei irônica.
–Querem parar os dois? Eu não quero morrer ouvindo vocês dois brigando! – o castanho tinha um tom irritado em sua voz enquanto fechava os olhos e apoiava a cabeça no volante.
Não demorou muito para o veiculo parar de vez e grunhidos e rosnados baixos se aproximassem. Tremendo de medo, decidi fechar os meus olhos e me encolher no bando, permanecendo assim em uma posição fetal. Maravilha, agora além de não ter as minhas respostas, ainda vou morrer de verdade.
Honestamente, eu esperava sentir um arrependimento gigante por ter fugido de casa, porém tudo o que me veio à cabeça foi uma alegria satisfatória por toda aquela pequena aventura antes da morte, junto com os dois vampiros mais estranhos que tive a não tão grande assim honra de conhecer. Claro que havia o sentimento de culpa por preocupar meus pais, porém eu não conseguia me arrepender de minhas escolhas até agora.
Quando os rosnados chegaram próximos demais, comecei a chorar baixinho. Isso até escutar o barulho de portas metálicas sendo arrancadas sem piedade e serem jogadas longe, pois meu pânico ficou tão grande que gritei e chorei mais alto.
–Isso, assusta a humana mesmo, seu animal. – uma voz repreendedora feminina humana gritou de longe, dando-me um pouco de esperança.
Abri meus olhos lentamente, deparando-me com uma enorme criatura peluda com feições tanto humanas quanto lupinas, deixando muito claro como era classificada. Ela tinha uma pelagem cinzenta relativamente longa com brilhantes olhos amarelos.
–Bu! – a criatura falou sem quase nenhuma entonação em uma voz claramente masculina, porém inumana.
E, mesmo sem ter tido qualquer tipo de emoção naquela fala, tomei um susto e um minúsculo grito escapou de minha boca, fazendo-me esconder a cabeça de novo. A real razão do meu susto foi o quanto aquela voz era monstruosa e, ao mesmo tempo, falava de maneira tão comum.
–Olha, ela se assusta por tudo! – falou o lobisomem que me deu o susto.
–Bem, como reagiria se você, um humano comum e indefeso, fosse capturado cruelmente por dois vampiros, criaturas as quais você pensava serem fictícias e depois um lobisomem arrancasse a porta do seu carro? – a voz humana explicou para o lobisomem, que soltou um “Hm” como resposta, enquanto eu lentamente levantava a cabeça de novo.
–Não me lembro de ter capturado nenhuma humana comum e indefesa de maneira cruel, mas acho que ele entendeu o que você quis dizer. – o boca grande tinha que comentar até isso? Ele realmente quer nos matar.
–O que você falou, seu sanguessuga nojento? – o lobisomem mais rosnou do que perguntou.
–Sério? É a segunda vez que me chamam de sanguessuga! Não tem mais nenhum nome criativo? – Damian resmungou cruzando os braços e as pernas.
–Cala. A. Porcaria. Da. Sua. Boca. Damian. – Marc falou pausadamente irritado, ainda com a cabeça apoiada no volante.
–Mas é a verdade, não? Não posso nem mais ser honesto antes de morrer? – ele falou curto e grosso.
–Quem disse que vocês vão morrer? – a voz feminina disse cruel. –Não vão escapar da punição por terem feito mal a uma humana tão doce quanto essa assim tão fácil. – não percebi a sua aproximação, mas logo eu a escutei perto demais de mim.
A mulher colocou um de seus braços em volta de meus ombros com a provável intenção de me proteger. Olhei assustada para ela e tomei outro susto com o contato inesperado, fazendo-a rir um pouco.
–Tenha calma, brava guerreira. Está tudo bem agora. Estamos aqui para protegê-la desses monstros! – ela disse me abraçando delicadamente, mas com muito carinho, fazendo-me sorrir e realmente me sentir protegida.
A mulher que me abraçava parecia ter por volta dos quarenta anos, com cabelos totalmente bagunçados e loiros acompanhados de sardas, olhos amarelos brilhantes e um sorriso que deixava a mostra sua presa ameaçadora. Ela vestia uma roupa de ginástica simples e chamativa de oncinha, sem qualquer tipo de calçado.
–Não são desses dois que eu estou com medo, nem de vocês dois. – comecei a explicar, vendo a expressão de confusão no rosto da mais velha. –Nós três estávamos fugindo daqueles outros vampiros, principalmente o líder, o vampiro que estava na frente do nosso carro.
–Espera, você está falando que você com mais dois vampiros estavam fugindo de outros vampiros? – a loira perguntou indignada. –Pensei que os vampiros fossem muito unidos.
–Pelo contrário, são as criaturas mais traiçoeiras e mentirosas que existem. Não é incomum haver traição entre eles. – o homem transformado falou, encarando os dois vampiros como se fossem a escória do mundo.
–Isso é uma infeliz verdade, mas nesse caso eu posso te assegurar que estamos tentando ajudar a humana. – Marc respondeu gentil, levantando a cabeça e encarando o horizonte.
–E estão ajudando a humana sem esperar nada em troca? – o cinzento perguntou irônico.
–Ele não disse que não era sem nada em troca em nenhum momento. – o moreno respondeu sorrindo. –Para ver como não somos nenhum tipo de “lobo mau” ou qualquer coisa do gênero, vamos ser totalmente sinceros com vocês. Viu, isso foi uma brincadeira mais criativa criativa! – e é claro que ele tinha que falar coisa demais com o tom irritante de superioridade.
A loira grunhiu um pouco em questão da brincadeira do “lobo mau”, mas nada mais fez. Ela encarou os outros olhos amarelados como se buscasse uma resposta neles.
–O que estão ganhando ajudando essa humana? Por que essa humana precisa da ajuda de vocês? O que está acontecendo? – a mais velha começou a perguntar, aumentando o volume de sua voz a cada nova pergunta.
–Isso infelizmente não poderemos responder, mas queira saber que temos, no fundo, uma boa intenção. – Damian respondeu rindo um pouco depois.
–Desculpa interromper, mas poderemos pegar umas coisas que estão em nossas malas, por favor? – o castanho perguntou com extrema educação.
–E o que seriam essas coisas? – o lobisomem falou juntamente de um rosnado.
–Bem, está quase amanhecendo e somos vampiros. – ele disse como se fosse o óbvio. –Eu posso estar fazendo papel de bobo, mas não tenho certeza se vamos virar cinzas ou algo do tipo. – enquanto falava, aproveitou para pegar uma das malas e de lá dentro tirar diversos frascos e tecidos grossos.
–Espera, vocês não sabem o que mata vampiros? – a loira perguntou indignada.
–Nosso líder não é exatamente alguém que é gentil o bastante para explicar tudo sobre a nossa transformação. – Damian respondeu entediado, colocando uma das substâncias no rosto e cobrindo o resto com os panos e um óculos escuro.
–Isso é triste. – o maior falou, subindo no capô do carro e sentando-se.
–Bem, por enquanto vamos esperar os outros chegarem para decidirmos alguma coisa. Mas, enquanto esperamos, qual é o nome de vocês? – ela falou gentil ao mesmo tempo em que sorria e fazia carinho em minha cabeça.
–Bem, eu sou a Lara, o vampiro que só fala besteira é o Damian e o educado é o Marc. – falei apontando para cada um.
–Eu sou a Katarina e esse daqui é o Arthur. – ela respondeu gentil.
Eles continuaram conversando, porém eu só escutei até aí, antes que a minha consciência se fosse, fazendo-me desmaiar nos braços da Katarina. Eu tinha sobrevivido até agora. Vou conseguir alcançar o meu objetivo.
Fale com o autor