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1 Capítulo Único


Notas iniciais
Kurai está de volta trazendo outra fic angst pro OTP. Meu coração só habita o caos e as trevas, então... :~ Essa fic é tipo a continuação de "Vísceras", mas inverti o personagem principal. Novamente, aqui eu demonstro que eu não sei fazer a Katarina. ♥ Mas eu nem ligo mais pra isso. Aqui, ela tá super frágil mesmo. E que nem eu tava falando com a Cami, a Kat frágil é... Um amorzinho. Eu gosto desse lado dela, porque mesmo assim ela ainda é teimosa. Eu vou dedicar pra Cami (Mellanie), nyaahhh! ♥ Porque sim! ♥ E por favor, leiam a notinha no final porque eu não quero interpretações do Teilo erradas.

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Acordou com pingos impertinentes contra a sua janela. Estavam relativamente fracos naquele início de manhã, causando a Katarina Du Couteau a familiar sensação de nostalgia. Não sabia dizer ao certo quando havia sido a última vez em que acordara cedo com o fraco barulho da chuva, tão baixo como se fossem sussurros.

Incomodada, levantou da cama sem lençóis. A chuva que caíra no início da madrugada podia ser incessante até aquele momento, mas não causava frio. Somente abafava e sufocava.

Estava tão cedo que ela mesma duvidou de ter acordado com facilidade. Frustrada, olhou para a escuridão no quarto, encarando-a com desapego. Outro dia em que também não havia nada para fazer. Sem fome, sem sono, sem trabalhos ao longo do dia, com a mansão vazia e com a chuva molhando gramado jovem lá fora. Treinar seria uma opção, mas não ainda.

Não com aquela angústia queimando o seu peito.

Descalça e continuando com o pijama preto de seda, Katarina começou a andar pelos cômodos. Movendo-se com a mesma leveza de um gato, olhando pelo canto dos olhos cada quarto, vendo de relance os lençóis brancos que escondiam os móveis velhos. Descendo uma das escadas esguias, sentia a poeira grudar sobre a palma de seus pés.

O piso de mármore como um todo estava daquele jeito. E permaneceria, Katarina não tinha intenção de limpar a mansão tão cedo.

Poderia andar observando os imensos quadros que cobriam as paredes e lembrar dos dias gloriosos daquele salão principal. Poderia olhar para o piano camuflado pelo branco e lembrar da melodia que soava por todos os cômodos da casa, impedindo ou ajudando o sono dos habitantes.

Mas quando seus olhos se deparavam com aquilo, eles permaneciam na neutralidade forçada, mostrando as íris verdes petrificadas.

Ao passar perto do corredor que daria em direção ao antigo escritório, algo na textura do piso mudou. Ela sentiu seus pés descalços deslizarem com mais facilidade, como se estivesse limpo igual em um tempo já passado.

Poderia ter simplesmente ignorado e seguindo firme, mas ela não resistiu. Olhou para a porta de madeira no final do corredor. Estava enegrecida pela falta de luz, camuflada nas sombras como todo o passado.

Se Katarina assim permitisse, naquele momento a fraqueza teria pulado em sua pele e agarrado seu ser como uma gosma. Mas não. Ela aprendera com os difíceis anos a ser imparcial, com muita dificuldade e esforço, mas aprendera.

Assim ela continuou a seguir, estranhando a parte limpa do piso. A escuridão que a falta de janelas proporcionava não foi incômodo algum ou um obstáculo, Katarina Du Couteau sabia fazer aquele caminho de olhos vendados e até mesmo rastejando.

A maçaneta estava fechada, sempre difícil de abrir. Sempre admirou aquilo com orgulho, adorando a sensação de poder que vinha daquele lugar. Ansiando a sensação de girá-la, Katarina Du Couteau abriu um pouco a porta, sem ouvir o costumeiro ranger.

Os seus olhos estavam baixos, ela geralmente entrava ali de cabeça baixa. No entanto, a sombra cobriu sua face e suas pupilas instintivamente se dilataram.

Ele estava ali.

Talon estava ali. Ele simplesmente estava parado ali. Parado na janela como se ela fosse sussurrar-lhe segredos. Parado ali de forma prepotente, como se não se importasse com nada. Parado, quieto, e no mesmo ambiente como se Katarina não fosse nada.

Como se o seu coração não fosse nada.

Ele, o homem que mais confiou. Ele, o homem que mais a entendeu. Ele, o homem que lutou tantas vezes ao seu lado. Ele, o homem que ela odiava e... amava. Ele, o mesmo homem que a traíra e fugira.

Ela o mataria mil vezes.

A primeira coisa que apareceu em sua visão foi uma estátua de bronze, e antes que seu corpo falhasse e pudesse a trair também, ela pegou o objeto com força e foi até ele. Acertaria bem na merda da cabeleira castanha.

Cabelos que de tão longos, um dia já se misturaram aos seus.

Mas antes de o acertar, a mão dele parou seu movimento no ar. Houve milésimos de segundos perdidos, no qual os olhos verde transbordavam em surpresa, camuflando a ira. E com seus pés ainda nus, Katarina se preparou, pegando impulso para começar a rodopiar naquela cara bonita.

Só que ele soube disso também.

Ela queimou por dentro quando ele se virou, imobilizando as duas pernas nuas. Perguntava-se se continuava sendo estúpida, perguntava-se ainda era facilmente decifrável diante dos olhos negros. Mas ela sabia que não poderia demonstrar fraqueza alguma, aquele na sua frente era o homem que a abandonara em um dia de chuva. E aquela era a merdinha de um homem que voltava com a mesma maldita chuva.

Então, ela levantou sua cabeça e o olhou. A claridade de um dia nublado enegrecia seus belos olhos verde-água, mas também iluminava sua face.

A dicotomia englobou toda a sua visão. O mundo cinza lá fora e a sombra que a impedia de ver o rosto dele.

Katarina se aproximou mais, tentando confrontá-lo com as mesmas pupilas que um dia já o olharam tão amáveis. Mas os olhos castanhos que a fitava estavam tão negros, tão frios, que apenas refletiam a própria imagem de Katarina.

Ela ameaçou a dar-lhe um soco, mas ele freou novamente seu movimento, tão rápido que ela duvidou que ele sequer a olhava.

Perceber aquilo foi igual um corte físico. E não era só isso. Talon entrou em sua casa como fazia há dois anos. Olhava-a como se ela mesma estivesse perdida no tempo, cega e olhando apenas para o passado. Em seu olhar frígido havia apenas pena, pena por ela ainda estar girando no mesmo carrossel em que ele deveria também estar. Mas não, não estava.

Era a única que continuava se importando com as coisas há muito tempo resolvidas.

Por isso, as tentativas de escapar de seus braços e desviar o olhar de olhos tão negros se tornaram desesperadas. Como se houvesse vários insetos subindo e andando por sua pele, se enraizando em suas entranhas até chegar a fervura que era seu sangue.

Conseguiu livrar uma de suas pernas, e antes que pudesse hesitar novamente, passou-lhe uma rasteira, levando os dois até ao chão gelado.

Quando viu seu corpo por cima do dele, a única coisa que passou por sua mente foi enfiar aquela estátua de bronze na cabeça dele até que ela mesma se fincasse e rachasse o chão.

Seus olhos não hesitaram por algum momento, permaneceram o olhando durante todo o processo. Pupilas dilatadas travadas, imóveis. E no momento que as mãos de Talon percorreram desde a sua cintura lisa até beliscar o bico de um de seus seios, Katarina Du Couteau soube que ia quebrar.

Quebraria bem ali no chão, na frente daquele homem sujo e desprezível que ela ainda amava. Quebraria pelo tanto que suportara com dificuldade esses anos. Quebraria por tudo que tinha lutado com muito esforço para esconder, para camuflar. E quebraria porque no fim, Talon estava de volta.

E quando ele inverteu as posições, ela continuou a olhar para a face neutra, como se ele olhasse o nada.

Fadados a todo o silêncio.

E talvez por ter esperado qualquer reação que fosse dele – seja um maldito olhar cínico ou a curva de um sorriso –, ela soube que ele não era mais ele. E prometeu que não. Ela não se quebraria na frente de um estranho.

Apesar de as suas lágrimas já molharem toda a sua face, ela diria as mesmas mentiras de antes: Eu não vou quebrar.

Notas finais
Não, o Talon não vai estuprar ela no final tá gente? Eu não sei se foi só na minha cabeça que deu a entender isso, mas ele não vai nem tocar nela direito. :(
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!