Hiato

2 A persistência é o menor caminho do êxito.


Notas iniciais
Titulo do capitulo por Charles Chaplin

-Você não pode passar a vida inteira sentado de frente para essa cama Daniel- A voz de Tom me assustou no exato momento que pronunciou o “você” e me fez bufar de nervosismo no resto da frase. Eu nunca vou entender a capacidade que as pessoas têm de sempre tentar me convencer a fazer algo que eu não quero, pode me chamar de mimado nesse momento, mas eu não acho que estou fazendo errado ficando ali. Na verdade, acho que Luiza merecia muito mais do que isso. Quer dizer, ela estava ali por minha causa, não que eu me culpasse, mas seria eu ali, se ela não tivesse entrado na frente.

Me recostei na cadeira com os olhos fixos na menina que tinha vários aparelhos ligados a ela e uma mascara de oxigênio.

-Posso sim, e devo- Falei num tom rouco, fazia tempo que dormir não era uma das minhas prioridades, me sentia cada dia mais cansado alias, tinha voltado para casa umas dez vezes no máximo e depois fiquei direto no hospital, até os paparazzis estavam cansando disso. Aquele era o primeiro mês.

-Você já está há dois meses aqui Danny, daqui a pouco vai ficar mais doente do que essa menina- Ou dois meses, eu meio que perdi a conta.

-Tom, eu não espero que você entenda, mas não se preocupe.

-Não me pesa algo assim, você é meu melhor amigo! Eu sempre vou me preocupar com você. Pare de se culpar, sei que a situação é delicada, mas haja o que houver, não se culpe ok?

-Essa garota salvou a minha vida!

-Você não pediu para que ela fizesse isso- Levantei e o encarei abismado, Tom entendeu que tinha ido longe demais, alias, ele começou a ficar vermelho pelo que tinha dito. Tenho certeza que ele só estava tentando me ajudar, me tirar dali, talvez me fazer comer algo que não fosse comida de hospital. Tom é meu melhor amigo e eu sei plenamente que ele jamais diria algo assim se não estivesse desesperado. Aproximei-me dele colocando uma das mãos em seu ombro e fazendo com que ele me encarasse, acho que ele conseguia entender e por isso estava desesperado para me tirar dali, a culpa podia me matar aos poucos assim como Luh morria aos poucos.

-Eu vou ficar bem- Disse tentando passar mais confiança do que realmente sentia ter.

-E como fica a banda nesse tempo?- Dessa vez fui eu que abaixei a cabeça.

-Não tenho certeza...- Nesse momento o barulho do celular me salvou de responder o que eu tinha pensado muito nesses dois meses, era muito cedo ainda para tomar uma decisão, mas eu não podia simplesmente continuar vivendo sabendo que era para estar no lugar daquela menina, eu sentia que só poderia viver de novo quando Luh acordasse, quando eu olhasse para o castanho de seus olhos e tivesse certeza de sua lucidez. Fiz uma promessa, uma promessa a mim, só conseguiria viver minha vida, quando a dela estivesse restaurada e eu estava rezando para que isso não demorasse.

Andei devagar até o celular e atendi ouvindo uma voz que se tornou conhecida aos meus ouvidos depois do acidente que envolvia Luh. “Daniel? Chegamos em Londres”, a voz era do pai de Luh. Eu suspirei, não sei exatamente se de alivio ou nervosismo, metade do meu cérebro dizia que era alivio por não ter que passar por tudo isso sozinho (eu sempre me sentia perdido quando os pais dela voltavam para o Brasil em busca de resolver alguns assuntos pendentes) e a outra metade, bem, essa era uma metade bem maior que dizia que o pai dela estava a ponto de me matar a qualquer momento por ter sido o culpado. Só que ele parecia compreender bastante tudo o que tinha acontecido, eu não previ por aquilo e não queria que acontecesse, se pudesse voltar no tempo jamais teria deixado uma menina se posicionar a minha frente.

-Ótimo- Disse um pouco alto demais e depois encolhi meus ombros- Sabe em que hospital estamos?- Perguntei pela milésima vez e o ouvi bufar do outro lado simplesmente me ignorando “Vamos apenas guardar as malas no hotel e já chegamos ai, como ela está? Apresentou alguma melhora?”

Naquele momento meus olhos foram parar no rosto de Luiza, sua pele cada vez mais clara pela falta de sol, a toquei de leve sentindo a maciez de suas maças ainda levemente rosadas. Era tão linda, tão jovem, eu poderia ter me apaixonado fácil por aquela garota, mas não havia nem prestado atenção no primeiro momento em que a vi.

-Igual- Falei com um pesar na voz, uma dor que me corroeu cada vez mais. O suspiro do outro lado da linha também foi pesado, a dor de um pai com certeza deve ser pior que a minha dor, mil vezes pior, eu nem a conhecia! Só que, ela salvará minha vida. “Chegaremos em meia hora” dito isso ele desligou o telefone e eu sentei mais uma vez na cadeira cruzando os braços em cima da cama de Luh e a observando, esperando que algum milagre fizesse aqueles olinhos se abrirem pra mim.

Não me lembrava de que Tom ainda estava no quarto, só fui me recordar quando sua mão apertou meu ombro com força e eu escondi meu rosto entre meus braços.

-Danny..- Sua voz era de sofrimento, será que era possível passar o sofrimento para alguém que se ama tanto quanto um amigo? Quando Tom estava por perto eu não me sentia tão miserável, mas ele parecia se sentir mais triste ao me ver sofrer, acho que amigos devem ter esse poder de puxar nossa dor.. Nem que seja um pouco.

-Vai dar tudo certo- E essa foi a primeira vez que ele não tentou me convencer de que aquilo era uma loucura, de que eu devia voltar a ensaiar, de que ainda tinha uma vida. Essa foi a primeira vez que ele estava só ali, acho que reconhecendo minha teimosia. Eu sabia que Tom tinha tentado me convencer a voltar ao normal, mas vendo que era quase impossível, ele simplesmente se importou em me apoiar e isso me fez levantar e abraçá-lo com força.

-Obrigado.. De verdade- Ele me abraçou de volta e depois deu um empurrão leve.

-‘Ta ficando sentimental demais, cuidado com essa sua gayzisse- Disse rindo e batendo no meu ombro- Me liga qualquer coisa.

Sorri de leve ao vê-lo sair (rir, não conseguia fazer isso a um bom tempo) e logo em seguida mergulhei no ato que era observar o sono profundo de Luh, gostava de pensar que era um sonho o que ela estava tendo, imaginando se quando eu dormia perto dela nossos sonhos poderiam se ligar e eu a conheceria melhor daquele jeito. Era muito patético pensar nisso, mas eu estava tendo uma necessidade tão grande de conhecer aquela menina. Ela tinha feito algo tão corajoso por mim e eu não sabia nem sua cor favorita, o que gosta de comer, se prefere gato ou cachorro. Os detalhes, os detalhes que eu queria. Já que bonita eu podia ver que ela era.

Meu celular apitou mais uma vez e eu li o nome de Georgia na bina, eu a estava evitando todos esses dias, o que diria a minha namorada? Ela foi compreensível quando disse que precisava ficar um pouco no hospital já que uma de minhas fãs tinha salvado minha vida, nas duas primeiras semanas ela até me fez companhia, mas depois a situação apenas me deixou parecendo um louco obcecado e agora ela sempre ligava para falar (entre linhas) que estava sendo trocada por uma “quase morta”, não que Georgia tenha usado essas palavras, mas eu sentia que ela usaria logo. Fiquei entre atender o celular e acabei demorando demais, tempo suficiente para que o celular parasse de apitar. Logo em seguida uma mensagem chegou.

Precisamos conversar –Georgia xx. Pois é, essas palavrinhas já são bem obvias. Eu sabia que isso aconteceria uma hora ou outra, passar mais tempo observando uma garota dormir profundamente do que com a própria namorada definitivamente não era normal, mas o que eu podia fazer se não conseguia sair de perto de Luiza sem me sentir um caco? Se perto dela eu já me sentia terrível por dentro, longe dela tentando esquecer tudo o que havia acontecido eu me sentia um falso, alguém tentando viver uma vida de mentiras.

Deixei que minha cabeça caísse no encosto, não sei em que hora adormeci ao fazer esse movimento, mas não durou nem dois segundos com certeza já que os paços se aproximando me alertaram. O quarto de Luh era longe de todos os outros, eu paguei por aquilo para ter mais espaço, já que estava disposto a ficar por ali então aquele quarto tinha que ser habitável pelo menos. Muitas das minhas coisas já estavam lá, incluindo meu computador, mas eu ficava nervoso demais vendo algumas fotos minhas tiradas por paparazzis, era nesse momento que eu percebia o quanto estava acabado.

-Danny, querido- A voz feminina me fez relaxar, era a mãe de Luh, uma mulher tão calma em uma situação como essa. Acho que essa família já passou por tanta coisa que aquilo tudo seria superado com força, eu me sentia fraco perto deles, nunca tive uma situação tão delicada quanto aquela. A mulher me abraçou, ainda não estou tão acostumado com a facilidade que ela tem em ser calorosa quando eu fui o culpado de ter deixado sua filha naquele estado.

-Você está um trapo querido, precisa de um bom banho e uma bela noite de sono.. Por que não vai para casa descansar?

-Eu estou bem senhora Pohl- Sorri da forma mais doce que pude, mas tenho certeza que pareceu uma careta- Daqui a pouco tomo um banho ali mesmo.

Sim, o quarto tinha um banheiro, e até que grande, quando eu disse que tinha pagado a mais por isso eu falei sério.

-Daniel, tem certeza que todos esses custos não são dem....

-Por favor- Parei a fala do Sr. Pohl suspirando pesadamente- Eu já me sinto culpado o suficiente, acho que esse é o mínimo que eu tenho de fazer.

-Concordo- Disse o irmão da menina que até então estava apenas parado no batente, Diogo sempre me pareceu o único que concordava com a minha culpa, por isso eu gostava dele. Essa falsidade toda de todos me dizendo que eu não sou o culpado pelo estado de Luh simplesmente me irritava ao extremo! Ao menos ele era sincero no que pensava e com certeza devia sentir mais falta da irmã do que eu.

-Diogo!- A mãe o repreendeu e ele simplesmente revirou os olhos se aproximando da menina, os dois eram muito parecidos, a semelhança genética foi forte ali, tenho certeza que se Luh fosse menino seria quase que gemia ao seu irmão.

-Deixe, ele está certo... Eu faço questão de pagar por tudo- Sorri de canto.

-Pode pagar por tudo Danny, mas vá para casa, não sabemos quando Luh vai acordar, você não pode ficar aqui eternamente- Ela me olhava como uma mãe preocupada, a Sra. Pohl sempre foi gentil demais, tinha medo que eu acabasse com minha vida assim como Tom, mas a diferença era que Tom é meu melhor amigo e a Sra. Pohl não tem essa obrigação comigo. O que a transformava em um ser mais adorável ainda.

-Tenho uma idéia que talvez possa ajudar- Disse Sr. Pohl se sentando na cadeira onde eu estava- O estado dela é delicado, mas o que você paga nesse hospital deve ser o mesmo do que se a mantivesse em sua casa.

Isso eu não tinha pensado, olhei para a menina deitada, tão serena dormindo daquele jeito.

-Eu queria levá-la para casa- A voz de Diogo chamou minha atenção, ele estava ajoelhado de frente para a cama segurando na mão da irmã, parecia se lamentar por aquilo tudo tanto quanto eu.

-Isso seria perigoso demais filho, a casa de Danny é um pouco mais perto do que nossa casa- Disse sra. Pohl rindo baixinho, mas logo parando como se fosse uma risada de tristeza.

-Não teria mesmo problema?- Perguntei voltando a olhar o Sr. Pohl.

-Com todos os equipamentos e ao menos uma enfermeira tomando conta, não vejo porque teria problema- Sr. Pohl sorriu de leve me fazendo sorrir também, acho que seria melhor, mais fácil para mim ao menos, não sei porque as pessoas tentam facilitar tanto a minha vida quanto a isso, eu sentia que merecia uma punição, mas acho que no fundo elas sabiam o quanto ia demorar. Acho que no fundo ninguém acreditava mesmo que Luh um dia fosse acordar. E era isso que me causava mais punição... Acreditar neles.