“Why can't it just be easy

The struggles gone on to long

And what's the use of dreaming

Everyday, everyday I'm all alone”



A vida lhe cobrava altos preços, e com isso castigava o corpo para alcançar os objetivos cada vez mais cruéis à um jovem que buscava apenas reconhecimento. O tremor que vinha com a fadiga muscular, o suor que embebia a testa. Os olhos azuis sem tanto foco, vendo turvo em boa parte do tempo enquanto basicamente se arrastava até o fim do tatame, sentando-se ali, jogando o corpo e ouvindo o baque.

A respiração pesada, espaçada enquanto buscava inflar o máximo dos pulmões a cada vez, para então soltar o ar vagarosamente. A toalha ao redor do pescoço, caída sobre os ombros em quase nada ajudava a secar o suor, e sua quirk também não, sendo que o intento da vez era treinar o corpo ao máximo. Sem dons adquiridos pela boa genética, e sim ao esforço próprio. Era isso o que havia ouvido antes de começar, diretamente de seu pai, que mantinha a cara fechada, como sempre. Ostentando no semblante a expressão blasé, de quem tinha poucos amigos por escolha própria, por selecioná-lo bem. Tudo na vida dele era assim, muito bem selecionado, menos o filho, claro. Aquele viera como um risco, um erro de cálculo que o deixou com uma ‘sequela’ para toda a vida, sua ou do garoto, dependeria do ponto de vista.

Todoroki Enji secava a testa com a toalha, tateava em busca da água que havia levado em uma garrafa, hidratando-se para que não perdesse de 0 a todo o suor que parecia debandar do corpo em alta velocidade.

O corpo dava claros sinais de que iria ceder. Ao cansaço, ao enjoo que vinha com o esforço. Precisou apoiar ambas as mãos a frente, curvando-se no tatame para refrear a ânsia que o tomou de súbito. A tosse veio em seguida, fazendo-o fechar os olhos com força enquanto a toalha escorregava pela lateral do pescoço, caindo sobre a mão esquerda. Pegou-a então para abafar os sons de tosse, ainda enjoado, ainda pensando em apenas deitar ali e ficar.

— Já descansando? Assim nunca chegará perto de ser o número um. É assim que pretende honrar à mim, à família? — A voz grave do pai o trouxe de volta, mesmo que em meio a crise repentina de tosse que não parecia querer deixá-lo.

Meneou a cabeça numa clara negativa enquanto se forçava a ficar de pé, notando que o equilíbrio não estava totalmente a seu favor. Mas por fim engolindo a tosse, pigarreando para limpar a garganta e voltando a treinar com o mudjong.

Gestos quase polidos, de uma perfeição ímpar, digna de elogios.

— Precisa melhorar.

Fora o que ouviu no lugar dos esperados elogios.

Esforçou-se ainda mais, sabendo que seria difícil fazer melhor nas condições nas quais estava, mas tentando mesmo assim. Sendo orgulhoso demais para ceder ao cansaço do corpo, da mente. Aos 9 anos era excelente em wing chun, mas para o patriarca dos Todoroki, aquilo não era nada ainda. Precisava de mais, mais treino, mais empenho. Ser mais!

E Enji buscava isso, ser melhor. Insistia nos golpes com maestria e um vigor que sequer tinha ainda há pouco. Tirando força do ódio, não tinha mais nenhuma outra fonte. Estava no auge de seus 16 anos e ainda era subestimado como se fosse o molequinho que começava a treinar aos 3. Totalmente privado de convívio social sadio, sem saber como era a vida normal de uma criança, desde sua pouca idade, até mesmo agora em meio ao treino.

Poucas coisas haviam mudado, a massa muscular era uma dessas. Havia crescido e se desenvolvido com um porte invejável, mas aos olhos do pai ainda era pouco, franzino e precisava ficar mais forte. Havia controlado a quirk ao ponto de unir-se à ela de modo nunca antes visto aos Todoroki, mas aos olhos do pai, ainda era emotivo e perdia o foco colocando tudo a perder.

Mais um golpe.

Não estava apenas treinando, vivia em mente todas as frases ditas por seu progenitor, cada crítica por ele dada de modo tão fácil, esquecendo-se que falava com o filho.

Outro golpe, acertando agora o mudjong com a perna, pouco abaixo do joelho, enquanto defendia o rosto com ambas as mãos abertas para ir de encontro à madeira. Expurgava cada uma de suas frustrações, mesmo que em meio ao enjoo e a crise de tosse que parecia prestes a ressurgir. Empenhava-se, não mais ouvindo o que o pai falava, porque ele ainda criticava, claro. Não perderia uma chance de colocá-lo abaixo de um erro qualquer.

Forçou-se ao limite, quase fraquejando, e sendo pego de surpresa pelas chamas que vinham por suas costas, acima do ombro esquerdo. Tendo tempo apenas de desviar e sentir o corpo aquecer, não por treino, mas por reflexo à um possível outro ataque.

A blusa queimou até que nada mais que farrapos estivessem sobre o tatame, os olhos azuis fixos na figura paterna que o olhava com desdém, mantendo a pose superior como se nada o atingisse.

— Se esse é o melhor que pode dar hoje, desista. Descanse, não será muito útil como herói se estiver desmaiado no tatame até o fim da tarde. Se você não aguenta a rotina, mude para algo mais fácil.

Era duro ouvir, mais ainda era ficar calado. Engolindo em seco à injúrias que lhes eram ditas de modo tão brusco e impensado. Ainda com o torso em chamas curvou-se em respeito ao pai enquanto via-o se afastar fechando a porta deixando-o ali, sozinho.

Notar as lágrimas era tarefa impossível, ainda mais quando evaporavam pelo calor das chamas que emergiam do rosto. Cansado, física e emocionalmente, mas mantendo-se de pé por puro orgulho. Despedaçado e sozinho.

Tão raro quando se permitia, quando deixava as lágrimas romper a barreira tão bem imposta de uma imagem que ele deveria passar. De alguém que não se abalava, frio, embora ardesse em chamas. Havia aprendido a fingir que não se importava, havia treinado a cara de complacência, indiferença e tantas outras.

Seria o número um, apenas para esfregar isso na cara do homem que duvidava. Seria o número um, provaria que o que suas mãos tocavam, não era apenas fadado ao desastre.

Quando acalmou os ânimos, ainda levou as mãos ao rosto, certificando-se de estar seco.

Moldava-se no fogo, na raiva, na dor. Moldou-se tanto que nunca mais voltou a ser o rapaz que treinava em busca de ser um heroi, mas sim um amargurado que vivia apenas em prol de provar que podia.

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