Hey you

1 Único - Hey You


Notas iniciais
Como a história é inspirada na música com mesmo nome, se quiser, coloque par tocar: http://www.youtube.com/watch?v=jQcBwE6j09U

Abraçando seus joelhos, a morena tentava de alguma forma manter o pouco calor em seu corpo. Os pubs já haviam fechado e a lua cheia com estrelas ao seu redor revelavam que já estava de madrugada. Estava com medo do que veria para frente, se é que acordaria viva. Já não sentia mais os dedos do pé, seria isso um sinal de que a morte estava próxima? Tinha medo de morrer. Não saberia o que iria encontrar. Não fora criada com nenhuma religião, não tinha a fé que os outros tinham.

Mas a única coisa mais forte que o medo é a esperança. E ao lançar o olhar para a velha janela de vidro da grande casa “abandonada”, viu um par de olhos claros. Um par de olhos claro olhando diretamente para ela. Iria a pessoa a ajudar?

Esperança.

Era tudo o que ela tinha no momento.

E tudo que ela precisava.

*

Dentro da grande casa, o homem fechou a cortina com força. Odiava o jeito como aquela mulher havia olhado para ele. Esperança. Coisa que ele já não tinha mais. Já teve, quando muito mais novo.

Ou na época que ele ainda tinha escolha.

Na época que a grama era mais verde, as luzes mais brilhantes, os sabores mais doces, as noites eram maravilhosas e tinha os amigos por perto.

Os amigos.

Onde estariam seus amigos? Ele não os via a pelo menos dez anos. Estariam bem?

Ora, quem se importa? Os amigos não o procuraram também. Que vão todos a merda! Se realmente se importassem com ele, não estaria como está hoje. Sozinho, delirado numa casa gigante.

Não... Sozinho ele não estava. Ele só não se lembrava do outro humano naquele assombroso lugar.

A mulher, sentada na borda da cama, que o observava dia após dia, noite após noite. Que deixava o chá na mesa e a comida aquecida. Tudo calada. Não sabia o que esperava do marido. Ele já nem devia se lembrar de quem era ela.

Ele nem a via mais. Esse era o problema.

Ela gostava de imaginar que aquilo não era culpa dela, e sim dos amigos dele. Ah claro. Os queridos amigos que não gostavam dela.

Ela não era chata! Não sabia da onde haviam tirado isso. Se não fosse por eles, seu marido ainda estaria bem. Ela tinha certeza disso.

Se não fosse ela, eles não teriam um filho.

Sim, eles tiveram um filho, que agora provavelmente só restava os ossos no pequeno caixão. Fora a doze anos atrás.

Ela ensinou para a criança que se deve olhar dos dois lados da rua para atravessar. Pediu que a criança esperasse. Mas não, a curiosidade venceu. Ou melhor, na corrida, o carro venceu.

Lágrimas já escorriam pelo seu rosto. E ela já não tinha mais o marido para consolá-la quando se entristecia.

Podia ouvi-lo gritando com ela quando descobriu o que havia acontecido. Sua voz alterada ecoava por todos os cômodos do apartamento pequeno enquanto ela chorava no chão. Ainda podia sentir a mão dele segurando apertado seu pescoço após ela lhe dar um tapa. Ainda via a decepção em seus olhos. Apenas dois amigos dele estavam no enterro. O resto havia discutido com ela e só queria distância.

Seria culpa dela? Ele não tinha mais ninguém por que ela havia interferido.

Agora, ela preferia uma faca atravessando seu peito do que ter que admitir que o estado do marido era por sua causa.

Sentia nojo de si mesma. Sentia o que o marido sentiu.

Ela odiava isso, queria se livrar o quanto antes.

*

Esperança. Esperança. Esperança

Ela precisa disso. Precisa se aquecer. Precisa viver. Ser uma sobrevivente. Só isso e ela já ficaria feliz. Ninguém quer morrer cedo. Muito menos ela.

A porta do casarão se abriu. Mas quem saiu não tinha os olhos claros, e sim escuros como um corvo. A loira que saiu da casa parecia desesperada. Os olhos cheios de agua, cabelo despenteado e nem usava roupas de frio.

Mas a morena não perdeu tempo, tentou se levantar, mas demorou para perceber que não conseguia movimentar as pernas a nenhum custo. Era desesperador! As pernas não se mexiam e as mãos latejavam como se houvesse varias abelhas picando-a, o ar gélido que entrava nos pulmões ardia. Mas era o único ar que ela tinha, então era respirar ou respirar. As orelhas começaram a arder também, a cabeça nem se fale, só piorava a cada segundo.

Mas ainda assim, ela tinha esperança. Tentava se arrastar. Conseguiu chegar na rua, e quando estava quase saindo da mesma, ouviu o som de um galho se quebrando. O único problema era que não se tratava de um galho. E sim seu fêmur. Um ou dois? Torceu para ser um. Menos problemas.

Suas mãos já doíam demais, e seus dedos se fechavam com dificuldade. Arfava, mas não suava. Ainda tinha frio. Viu a porta ser fechada e tentou gritar, mas não conseguiu. Sua garganta ardia como se pegasse fogo.

–Maldito vento! – foi tudo o que ela sussurrou.

A porta não estava trancada. Ainda não. Ela podia se arrastar até lá. Claro. Ela conseguiria. Seria uma sobrevivente!

*

O homem se arrastou até o banheiro. Qual lugar melhor para esconder drogas se não o banheiro? Ninguém nunca desconfia. Pelo menos ele tinha certeza sobre isso.

Lançou um olhar para o espelho. Nem ele conseguia mais se ver como era a doze anos atrás. Marcas de unhas eram visivelmente presentes no rosto todo. Os olhos já eram opacos e fundos. Não havia mais como sair. Era como um muro. Você o constrói em sua volta, mas alguns, como ele, construíram um muro grande demais para os próprio construtor sair. Ele podia arranhar, socar, tentar escalar, tudo em vão. O muro fora bem construído. Bem até demais.

–E se eu te mostrar o meu lado negro, você ainda vai me segurar a noite? – O rapaz alto perguntou, se divertindo com a namorada entre os braços. Ela apenas riu e ele continuou – E se eu abrir meu coração e te mostrar o meu lado fraco, o que você faria?

A loira ficou em silencio. Isso realmente incomodou o mais moreno.

–Você venderia nossa história para a Rolling Stone? Ou levaria as crianças embora e me deixaria sozinho?

–Nenhum dos dois, seu idiota! – Ela riu.

–Então o que você faria? Hein? – Ambos começaram a rir

O homem espantou as imagens de sua cabeça. Não era hora de pensar nisso. Não. Tinha coisas muito mais importantes em mente.

*

O frio dominava boa parte de seu corpo. Mas nada que a loira não pudesse ignorar. Já corria pelas ruas a pelo menos uma hora. Queria chegar em algum lugar onde ninguém a achasse. Mas estava difícil. Até que finalmente achou. Havia um lixo ali perto. Sem hesitar, colocou a mão até achar algo pontiagudo. Um caco de vidro. Sorriu como o gato de Cheshire*

*

O moreno já tinha a seringa pronta e em mãos. Tinha um pouco de receio que fosse muito. Mas ora, o que esse “um pouco mais” faria com ele? O mataria? Há! Grande coisa. Ele já não se sentia vivo a tanto tempo mesmo.

Ouviu o telefone tocar. Ah, isso o irritou profundamente. Que toque! Nada iria o impedir. Não mais.

Enfiou a agulha no braço, contendo um gemido de dor, sentiu o liquido se espalhando por seus vasos sanguíneos. Mas assim que sentiu o coração mais descompassado do que o normal, se arrependeu.

Teve tempo de apertar o botão de discagem rápida do telefone. Depois seria tarde.

*

Sem forças, a morena ouviu uma ambulância. “Finalmente!” Ela já havia perdido todas as esperanças. Fraca, com um ou dois ossos quebrados, sem sentir as pernas e o resto do corpo latejando. Não estava bem. Isso era obvio. Mas nunca ficou tão feliz ao ver aquela ambulância. Conseguiu vê-los chegando perto dela. Mas era tarde demais para sentir alguma outra coisa. Ela já havia apagado. Para sempre.

*

A loira segurava com força um pedaço de vidro sujo em suas mãos. Se não morresse por hemorragia, morreria por infecção. Afinal, aquele vidro era incrivelmente sujo.

Sentiu algo vibrando no bolso, e meteu a mão lá. Estava com seu celular e não sabia. Ficou surpresa com isso e olhou o número no visor. Sentiu seu estomago cair, mas mesmo assim atendeu.

–Alo? – Disse tremula

Ela apenas concordava e fixou-se apenas em uma frase de tudo o que o homem disse.

“Seu marido está morto”

Overdose de heroína.

Ele mesmo discou para lá

Estaria ele assinando seu próprio testamento?

Havia um testamento?

Quem se importa?

Ela não.

Não mais.

Segurou a lamina com as mãos tremulas. E finalmente fez o corte final.

Três mortos na mesma noite. Ninguém sofria mais. Na verdade, ninguém sentia mais nada

Afinal, a única verdadeira liberdade é a morte.

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*Gato de Cheshire é o famoso gato que aparece no livro e filmes “Alice no país das Maravilhas”

Notas finais
Alguém leu? Gostou? Espero que sim... Bom, deixe um comentário... Só pra saber como foi... :3 Obrigada a quem leu. XXX
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!