Hey there, Mr. Ghost
1 Capítulo único
Notas iniciais
Hey there, Mr. Ghost
Três alunos conversavam distraidamente no corredor, que se encontrava, como sempre, agitado durante o breve intervalo.
— Ei, vocês ouviram? Pelo jeito mais gente viu aquilo — a garota disse, de repente, trazendo à tona o assunto mais que popular naquela escola, sobretudo no mês de Outubro.
— Ouvi que foi o terceiro relato desde o começo do mês — acrescentou um dos garotos que a fazia companhia. Ele ajeitou os óculos sobre o nariz, o sorriso em seus lábios enfatizava seu interesse pelo assunto.
— Bem, vai chegando essa época do ano e de repente todo mundo tem uma história pra contar — o outro menino se recostou à parede. Diferente do seu colega, suas feições mostravam desinteresse.
— Verdade. Difícil até saber no que acreditar — a menina complementou, com um suspiro chateado. O seu amigo, o de óculos, apenas anuiu a cabeça em concordância, também um tanto descontente — Mas e ai, o que vocês acham? Vocês acreditam nele, ou não? — Ela se pôs novamente a sorrir.
— É claro que acredito! Negá-lo seria negar uma importante parte do nosso colégio!
— Bem, eu não acredito... Pelo menos não até ver com os meus próprios olhos — um dos garotos esclareceu, as expressões teimosas.
— Quem sabe você da sorte este ano. Eu também adoraria a oportunidade!
— Ah, na verdade, eu nem faço questão... Pra começo de conversa, não entendo porque tanta algazarra em cima dele.
— Eu é que não te entendo. Ele é o maior mistério da nossa escola! O nosso próprio fantasma! — O outro jovem replicou, incrédulo.
— Se você diz...
— Ah, vamos! Todo mundo conhece a história do garoto que pulou do terraço ao ter o coração partido…
— E cujo fantasma se vê incapaz de abandonar o prédio apesar de décadas já terem se passado... — Ele balbuciou, gesticulando tediosamente, completando as palavras do outro — Sim, eu sei. Impossível seria estudar aqui e não a ter ouvido pelo menos umas dez vezes. Eu apenas não me importo.
Os três caíram em silêncio e o assunto se encerrou. Pouco demorou até que um familiar som estridente alcançasse os ouvidos do trio.
— Ah! O sinal! Vamos, vocês dois. Ou vamos nos atrasar para a aula.
— Não seria má ideia... — Um deles murmurou, enquanto se punha em pé com a ajuda do colega.
Os três caminharam de volta à sala, misturando-se logo à massa.
Shinji Ikari questionava-se do porquê do dia insistir em permanecer tão radiante quando ele se encontrava perdido em tamanha escuridão. Ele se sentia sufocado por trevas, afogando-se em uma depressão que se via incapaz de superar.
Com os olhos distraídos com a brancura imperfeita das folhas de seu caderno e a lapiseira dançando entre seus dedos, só foi se dar conta de que era chamado depois do que teria sido a terceira ou quarta vez.
Erguendo os olhos, um tanto envergonhado por ter sua atenção chamada tantas vezes, encontrou sua professora postada ao lado de sua carteira, os olhos irritados e os braços cruzados. Aparentemente, ter de interromper sua interessantíssima aula sobre mecânica básica para recuperar a atenção dos alunos obtusos ao mundo não lhe agradava.
— Se não está interessado, a porta está aberta.
— Desculpe, professora — o tom do aluno foi monótono.
Ela rodou os olhos e o deu as costas, voltando à sua explicação sobre velocidade e aceleração médias.
Com um suspiro, ajeitou-se na cadeira, decidido a assistir ao menos ao que restava da aula. A sala permaneceu silenciosa até o tocar do sinal. Quando este se deu, Shinji não se demorou em apanhar os fones de ouvido e se permitir perder na música; a única capaz de dissipar seus pensamentos pessimistas. Entretanto, acabou por ter de logo retirá-los, devido à aproximação de sua colega de classe.
— Isso é o que acontece quando você fica brisando na aula da Misato, idiota.
A ruiva sentou-se na beirada da carteira do moreno e deu uma mordida na barra de cereais que tinha em mãos. Ele nada respondeu; a ideia de conversar com alguém, no momento, não o agradava, mesmo que Asuka fosse uma velha e importante amiga sua.
— Pensando em algo? Conhecendo você, aposto que estava se preocupando com algo estúpido, pra variar.
Ele se limitou a olhar para as próprias mãos, fugindo do olhar penetrante da outra. Manteve-se em silêncio. Realmente não estava para conversa.
Ao perceber que não receberia nenhuma resposta, Asuka irritou-se e se levantou, batendo com força na mesa do garoto durante o processo. Ela se afastou, deixando Shinji novamente sozinho. Respirando fundo, ele recolocou os fones, decidido a aproveitar o que sobrava do breve intervalo de troca de aulas. Ciente de que tratara a amiga mal, fez uma nota mental para desculpar-se na hora do almoço. Só então se permitiu fechar em seu pequeno e solitário mundo musical.
O Sol continuava forte ao meio-dia, de forma que, apesar de ventar, não era suficiente para afastar o calor. A sala particularmente se encontrava infernal, e Shinji não podia ter se satisfeito mais ao ouvir o sinal que anunciava o horário de almoço.
Erguendo-se da carteira, buscou a companheira de classe, encontrando-a no meio de uma pequena rodinha de alunas. Antes que pudesse se aproximar, porém, cruzaram olhares, ao que Asuka imediatamente virou o rosto, as feições irritadiças.
Sentindo algo entre choque e tristeza, apanhou sua marmita e saiu da sala, sem olhar sequer uma vez para atrás. Convencido de que ficar um pouco sozinho seria sua mais agradável opção, subiu as escadas, passando reto pelos andares do segundo e do terceiro, indo onde ele tinha certeza de que não seria incomodado.
Ao abrir a porta para o terraço, não se surpreendeu ao vê-lo vazio. Apesar de bastante popular durante o Verão e a Primavera, nos demais meses ele era evitado devido à ventania e ao frio presentes no local.
O vento que agitava seus cabelos trazia ao garoto um sentimento estranho de liberdade que nunca sentira. Todavia, o silêncio que o acompanhava deixava clara a solidão em que se encontrava, trazendo-lhe um aperto ao peito.
Sentia-se abandonado — como sempre se sentira desde a morte precoce de sua mãe — e o tratamento que recebera de Asuka mais cedo não colaborara para apaziguar esse sentimento. Sabia que estava sendo injusto e que não tinha o direito de culpá-la, pois sabia que a havia tratado mal. Todavia, não conseguia se impedir de ter esperança de que a amiga seria compreensível e paciente consigo, mesmo que ele não fizesse por merecer.
Deu meia dúzia de passos e parou diante da cerca baixa que o separava da borda. Seus dedos envolveram o arame, enquanto ele engolia em seco, sua mente possuída por pensamentos que ele muito desgostava, mas não conseguia evitar. Perguntava-se sobre o que era a vida e seu significado. Por que nascemos? Minha vida é realmente de alguma importância? O que aconteceria se eu de repente sumisse? O que isso causaria, o que mudaria? Às vezes, desejava obter as respostas dessas perguntas, mesmo que fosse ele a dar esse enorme e último passo.
As juntas de seus dedos começaram a doer, e só então é que se deu conta do quão forte se agarrava ao arame da grade. Suspirou fundo. Sabia que, apesar de tudo, não tinha coragem; nunca teve. Se apegava à esperanças vazias e assim acabaria vivendo até que se tornasse insuportável. Simplesmente acabar com tudo de uma vez e poupar-se de um sofrimento maior e inevitável, parecia-lhe muito mais agradável…
— O dia esta tão bonito, não acha?
As palavras que alcançaram seus ouvidos o surpreenderam; estava crente de que estava sozinho. Shinji rodou imediatamente nos seus calcanhares e se pôs a encarar o garoto que o observava, sentado na parede perto da escada.
Os próximos dez segundos foram silenciosos e desconfortáveis. Shinji encarava, perplexo, o garoto que sorria inocentemente para si, vestido com o familiar uniforme escolar. Em sua mente, amaldiçoava-se por ter sido visto em um momento tão deplorável por alguém da escola e rezava para que ele não tivesse compreendido realmente a situação.
Por outro lado, ao perceber o estado de choque em que deixara o outro, o misterioso garoto se levantou e se aproximou de Shinji. Perante a súbita aproximação, o moreno recuou um passo, não conseguindo se afastar mais do que isso por causa da grade.
— Quem é você? — As palavras saíram nervosas dos lábios de Shinji.
O garoto interrompeu seus passos ao se ver interrogado, percebendo então que forçar uma aproximação maior do que aquela não seria uma boa ideia.
— Kaworu Nagisa — respondeu, sem pestanejar.
— O que faz aqui em cima?
— Hum... Eu gosto das brisas de Outubro. São agradáveis — a resposta fora espontânea e imediata; além disso, o sorriso sincero que tomava as feições de Kaworu dava certa e incompreensível certeza a Shinji de que aquelas palavras não eram falsas. — E você, também gosta?
— Ah, bem... — Ao se ver subitamente questionado, Shinji se sentiu suar frio; não esperava por aquilo. Afastou-se da grade e tentou responder a pergunta do outro o mais calmamente que conseguiu — Sim, eu acho...
Os dois se encararam um pouco mais, os segundo passando silenciosos e, por algum motivo, nada desconfortáveis. Se questionando se devia diminuir a distância que os separava ou não, Shinji relaxou os músculos tensos de seu corpo. De alguma forma, não estava mais tão nervoso e sentia que podia confiar em Kaworu. Ainda assim, seus pés haviam se pregado ao chão e se negavam a mover sequer um palmo; da mesma forma, seus olhos se fixaram no jovem que o encarava com expressões indecifráveis, as mãos enfiadas nos bolsos da calça.
A explicação para todo aquele resguardo poderia parecer boba ou até apenas uma desculpa esfarrapada, porém, para Shinji — e provavelmente para qualquer aluno daquela escola —, Kaworu era uma figura espantosa e de aparência peculiar. Sua pele era clara, assim como os fios de seu cabelo, que tinham um tom branco acinzentado, e, destacando-se em meio a toda aquela brancura, estava um par de radiantes olhos escarlates.
Imediatamente, os rumores e histórias que sempre ouvira e ignorara desde que adentrou o colégio o atingiram em cheio, deixando-o perplexo por um momento. O albino ainda o encarava, a cabeça agora um pouco inclinada. Percebendo que se deixara transparecer, Shinji fez de tudo para novamente se acalmar. Respirou fundo e abriu um sorriso discreto, percebendo que estava sendo um tolo.
Fitando os olhos vermelhos do outro, se viu incapaz de desacreditar em sua impressão inicial. E daí que Kaworu era um fantasma? O que isso mudava? Nada, absolutamente nada. Shinji não tinha medo dele, não conseguia. Apesar da surpresa e choque iniciais, o moreno se sentia estranhamente confortável junto da figura fantasmagórica.
Ele deu alguns passos para frente e parou diante do outro, que o observava agora um tanto confuso. O moreno sorriu um pouco mais largamente, o que surpreendeu o albino.
— Prazer, Kaworu. Sou Shinji, Shinji Ikari.
Pouco depois de uma semana, sem muito entender o porquê, Shinji se viu ansiar cada vez mais pela hora de almoço — horário combinado entre ele e Kaworu para os encontros agora diários. O local, obviamente, não poderia ser outro além do terraço, que não apenas fora o local do primeiro encontro dos dois, mas que também os garantia certa privacidade.
Ignorando todos da sua sala, incluindo o olhar confuso de Asuka ao vê-lo se apressar porta afora no momento em que o sinal tocara, adiantou-se pela escada. Pouco depois de cinco minutos, já se encontrava no terraço, Kaworu a sua espera, como sempre.
Com um sorriso, sentou-se no chão ao lado do outro, que tinha as costas apoiadas na parede. Não demorou até que a conversa se animasse e eles começassem a falar sobre coisas mais interessantes do que as aulas que Shinji tivera até então ou suas reclamações sobre os professores e colegas de classe.
— Desculpe — Shinji disse de repente, surpreendendo o outro.
— Pelo quê?
— É que eu... Bem, estou sempre reclamando.
— Não tem problema, Shinji. Fico feliz de te ouvir, sempre.
— Mas eu acho tão chato isso... Quero dizer, você deve ter problemas bem maiores. Eu me sinto mal por te empurrar toda essa bagagem e você permanecer quieto.
— Não tem problema.
— Tem sim! — Shinji esbravejou — Eu quero ser alguém com quem você possa contar quando estiver mal. Quero que confie em mim, assim como confio em você. Quero saber mais sobre você. Eu não gosto de ver como algo te prende e te impede de seguir em frente, e eu não sei nem mesmo o que é.
Kaworu se limitou a fitar Shinji com surpresa, de tão inesperadas que aquelas palavras o soaram. O moreno, ao ver o estado do amigo, preocupou-se; talvez tivesse sido um tanto intrometido.
— Desculpa. Esquece. Não é da minha conta.
O albino levemente sorriu, as feições do rosto agora mais suaves.
— Minha mãe.
— Hum? — Shinji ergueu o rosto, agora sendo sua vez de ficar surpreso.
— Minha mãe está doente. Ela sempre cuidou de mim, sozinha. Acho que se esforçou demais, trabalhou demais.
— Ahm, ela...
— Não, ela está estável — Kaworu respondeu a pergunta iminente de Shinji, que se aliviou com a resposta — Mas está internada há tanto tempo que já perdi a noção das semanas. E, às vezes, ela tem umas recaídas bravas. Eu fico bem preocupado.
Shinji sabia que não devia invadir tanto a privacidade de Kaworu, todavia, não conseguia se conter. Ansiava por mais e prosseguiria com suas perguntas até que o outro o impedisse, alegando invasão de privacidade. Até lá, aproveitaria para descobrir o máximo que pudesse sobre o misterioso fantasma.
— Sozinha?
— Eu apareço lá quando possível.
— Não tem ninguém mais da sua família que vá vê-la?
— Só éramos eu, ela e meu pai. Bem, aí meu pai foi embora, e ficamos só eu e ela.
— Oh… — O moreno sentia que havia pisado em uma mina terrestre, e agora torcia para que o dano não fosse muito grande.
— Tudo bem. Eu era pequeno e nem penso nele como alguém importante.
— Bem, de qualquer forma, desejo melhoras à sua mãe. Coitada… Deve ser realmente difícil ficar lá sozinha, e há tanto tempo. Queria poder vê-la um dia.
— Ela certamente apreciaria — ele respondeu, com um sorriso educado.
Olhando um pouco para o céu e permitindo que o silêncio se instaurasse por um momento, Shinji não pode evitar de pensar sobre cada palavra proferida pelo amigo fantasmagórico. Sua mãe… Quantos anos ela teria? Kaworu já estava há pelo menos umas duas décadas em sua escola, caminhando para a terceira. Será que ela ainda estava viva? Será que Kaworu é incapaz de perceber a passagem do tempo?
— É por isso que você continua aqui? — Os lábios de Shinji se moveram involuntariamente. De repente, sentiu-se triste; mas sua tristeza dessa vez não era por causa de seus próprios problemas, mas pela condição do jovem sentado ao seu lado.
— Não entendo o que quer dizer.
— Digo, sua alma, seu espírito… — Shinji se viu sem palavras, afinal não sabia bem o que Kaworu era. Decidindo por não pensar muito, optou por cuspir as palavas que já há algum tempo se pendiam à sua garganta, suplicando por libertação. — Por que vive como um fantasma, preso a este mundo e há tanto tempo?
Kaworu apenas observava o moreno atentamente, seus lábios entreabertos e suas feições bem confusas. Shinji, por outro lado, esperava pela resposta do outro, suas emoções variando da ansiedade ao medo. Os dois mantiveram uma silenciosa e penetrante troca de olhares até que Kaworu a rompesse, virando o rosto aos seus pés e se tornando um tanto apreensivo.
— Eu não me importo que você seja um fantasma — Shinji fez questão de exaltar, suas palavras saindo aos tropeços de seus lábios. De repente, sentiu que tinha realmente ido longe demais. Ver o estado em que suas palavras deixaram Kaworu o magoaram mais do que qualquer problema pessoal que enfrentara até então.
— Hum, bem… — O albino parecia meio incerto sobre como conduzir aquela conversa.
— Eu vou estar sempre com você, até que você sinta que pode partir. Porque eu entendo que deve ser difícil superar tudo que te aconteceu, ainda mais ter de passar por tudo isso sozinho. E eu, que estou sempre sozinho já que meu pai mal para em casa desde que minha mãe morreu, sei como dói — ele continuou, mal dando tempo para que o outro se pronunciasse, sua voz saindo fraca e chorosa. Ele se questionava sobre como ainda conseguia conter o choro.
Shinji, pela primeira vez desde que conhecera o fantasma, se sentiu comover por sua história, que sequer conhecia totalmente; estava ciente de que ainda faltavam pedaços, os quais provavelmente nunca obteria. Mas de uma coisa o jovem tinha certeza: nenhuma das baboseiras que falavam nos corredores daquela escola correspondia à grandiosidade dos problemas do garoto albino. Um coração partido? Só se for de angústia pela mãe doente.
Shinji muito desejou naquele momento que Kaworu não fosse um fantasma. Assim, poderia o abraçar forte para mostrar seu suporte; gesto que muito ansiava quando se sentia triste, mas lamentavelmente nunca recebeu. Pensando então em compensar com mais algumas palavras, abriu os lábios, mas o sinal o interrompeu.
— Ah… — os olhos do moreno trilharam do albino à porta que levava às salas, e lá estacionaram.
Shinji ficou a encarar a superfície metálica, seus olhos refletindo sua má vontade. Não queria ir. Queria ficar com Kaworu e falar mais com ele. Não queria o deixar sozinho minutos depois de dizer que estaria sempre consigo; sentiria-se um traidor, um mentiroso. Mas a ideia de ter seu pai chamado à escola por ele estar matando aula tampouco o agradava.
— Shinji, se você não se apressar vai chegar atrasado.
— Mas — Shinji imediatamente virou sua atenção de volta ao fantasma, cujas expressões haviam repentinamente se tornado sorridentes. Era como se nada tivesse sido dito.
— Não se preocupe. Nos veremos amanhã, certo? Agora você deve ir. Não quero que você se meta em encrencas por minha causa, e dizer que um fantasma estava te segurando não será uma desculpa muito convincente.
Depois de piscar meia dúzia de vezes e fitá-lo por quase um minuto inteiro, permitiu-se sorrir também. O moreno se ergueu do chão e se despediui, prometendo tentar chegar mais cedo no intervalo do dia seguinte, o qual ele certamente ansiaria mais do que nunca.
Era uma segunda como qualquer outra. Já fazia quase três semanas que Shinji e o popular fantasma haviam se encontrado pela primeira vez. Desde que as revelações começaram a serem feitas, muito haviam descoberto um sobre o outro, inclusive coisas completamente banais. Por exemplo, Kaworu confessara seu amor pela música e pela astrologia, enquanto Shinji comentara sobre como nunca aprendera a nadar, mas era um ótimo cozinheiro. O moreno nada mais perguntou sobre o passado de Kaworu, decidido a focar-se no garoto e não no fantasma, e ele sentira que essa fora a melhor decisão que podia ter tomado; duvidava que teriam se aproximado tanto se continuasse a se prender a detalhes.
O moreno subia as escadas, um sanduíche de atum nas mãos — seu almoço daquele dia — e um sorriso nos lábios. Tinha que admitir: não podia estar mais grato de ir à escola. Antes, ia na mal vontade, apenas para que seu pai não o abandonasse de uma vez. Porém, agora, acordava de manhã já ansioso pela chegada do almoço, e mesmo a sua convivência com seus colegas de classe se tornou menos importuna. A visão de Kaworu tornou-se não uma rotina, mas uma benção diária que Shinji nunca pensou possível de obter por simplesmente arranjar uma boa companhia para o horário do almoço.
Entretanto, foi só abrir a porta do terraço que teve sua animação abafada. Rodou os olhos ansiosos pelo amplo espaço vazio, que sequer uma mísera sombra possuía. O Sol das doze horas era forte e o vento também, como se costume. O que estava errado e incomodava o garoto era a ausência de seu colega albino, que sempre o aguardava com um sorriso nos lábios.
Olhando para o relógio do celular, constatou que estava no horário habitual. Perguntou-se onde ele poderia estar, mas não obteve resposta. Por fim, decidiu que nada poderia fazer além de o esperar. Sentou-se no canto de sempre e se pôs a comer o seu lanche, os olhos vagando a cada três segundos à única entrada para o local — se bem que Kaworu era um fantasma, então ele não necessitava realmente vir por ali, Shinji se viu pensar.
O intervalo se arrastou e, depois de uma hora — hora essa que parecera ao moreno muito mais tempo —, o sinal já tocava. Shinji esperou mais um, dois, três minutos e então suspirou. Percebendo que nada ganharia por esperar por mais tempo, levantou-se, batendo em sua roupa assim que se pôs de pé, a fim de se livrar de alguma sujeira indesejável que houvesse grudado em seu uniforme.
Desceu as escadas, não muito feliz e um pouco preocupado; não era de feitio do albino simplesmente não comparecer. Até porque, o que mais ele poderia estar fazendo? Resolveu que o perguntaria no dia seguinte e evitou de pensar muito sobre o assunto pelo resto do dia, ciente de que isso só o desanimaria.
Entretanto, não foi no dia seguinte que Shinji obteu sua resposta, ou mesmo no próximo ou no próximo do próximo. Logo, uma semana incrivelmente longa havia se passado e nada de Kaworu dar as caras. Shinji não mais conseguia conter sua preocupação e suas noites acabaram por ser invadidas por pensamentos não muito positivos sobre o albino.
Shinji Ikari sentia-se abalado como não se sentia há muito tempo, e não havia nada que pudesse fazer.
Foi só na quarta-feira da semana seguinte que Kaworu enfim apareceu. Era cedo, bem cedo, por volta das sete e dez da manhã. Faltava pouco menos de dez minutos para o início das aulas quando o albino se adiantou pelos corredores do primeiro andar, direcionando-se à sala do colega que não via fazia mais de uma semana, e com quem decidira esclarecer as coisas.
Kaworu estava cansado das mentiras, das quais nunca gostara. Por culpa delas, quase sempre chegara atrasado às aulas da tarde naquele que fora seu primeiro mês no terceiro colegial desde que voltara à escola; a qual teve de interromper para ficar com sua mãe, que adoecera nas últimas férias de Verão. Além disso, por ser um fantasma, seria estranho pedir o número do celular de Shinji, e, por causa disso, não pode entrar em contato com o garoto quando acabou tendo de faltar subitamente.
Ele sabia que Shinji dependia da sua parte fantasma — mesmo que ela nunca tenha existido — e temia o que aconteceria se ele descobrisse que ele era nada além de um garoto comum. O fato de tê-lo encontrado pela primeira vez com cara de quem pularia do prédio se tivesse oportunidade tampouco ajudava. Ele provavelmente apenas se aproximara de si porque sabia que um fantasma não era realmente alguém que pudesse sair por ai dizendo o que quisesse. Ainda assim, sentia-se mal por ter sumido de repente sem qualquer aviso e, sobretudo, por ter mentido por tanto tempo para alguém que se tornara rapidamente tão importante para si.
Ao ver a placa que exibia o número da sala de Shinji Ikari, sua ansiedade e seu nervosismo apenas aumentaram. Aproximou-se da porta e espiou para dentro, mas não viu o moreno em canto algum. Porém, para sua sorte, Kaworu não era exatamente uma pessoa discreta — seu cabelo e seus olhos sempre cuidaram de atrair todos os olhos das redondezas para si, mas isso era algo ao qual ele já estava bem habituado —, e não demorou até que uma garota ruiva e de cabelos compridos se adiantasse em sua direção, analisando-o de cima a baixo.
— Em que posso ajudar?
— Shinji Ikari — disse, sem perder um segundo sequer. — Estou procurando por ele.
— Eu também adoraria saber onde o idiota está — ela disse, cruzando os braços sobre os peitos e fazendo cara de irritada. — Eu tenho certeza de que o ví entrando no prédio, mas quando dei por mim ele havia sumido.
— Sumido?
— Pra variar. Ele não faz nada além disso no último mês. Se bem que ele andou de melhor humor. Até andou conversando com um povo da sala…
Kaworu não pode conter um sorriso ao ouvir o relato de Asuka. Se havia algo que Shinji sempre reclamara era sobre como se sentia sozinho, e saber que estava ampliando seu cerco de amizades o trazia, além de alegria, alívio. Porém, foi só a garota continuar seu discurso que a situação se inverteu totalmente.
— Se bem que ele tem andado bem para baixo nos últimos dias. Mas acho que um idiota é sempre um idiota. Ele logo aparece. Quer que eu deixe recado ou algo assim? Não que eu esteja prometendo nada. Vai depender do recado.
Mas Kaworu não mais dava atenção ao que a ruiva dizia. Virou-se e saiu correndo, ignorando os olhares que o alfinetavam as costas e os gritos irritados da ruiva, adiantando-se ao terraço e rezando para que seu maior medo não se concretizasse.
Ele subiu as escadas e, ofegante, abriu a porta do terraço, que, apesar de pesada, voara ao ser forçada pela angústia do albino. Os olhos escarlates imediatamente se fixaram nas costas do garoto que se encontrava plantado alguns passos distantes, o vento soprando os fios curtos e negros de seu cabelo. Kaworu ficou a encará-lo, o fôlego demorando mais do que deveria para de normalizar — provavelmente porque não estava acostumado a corridas como aquela.
— Bom dia — Shinji o cumprimentou e se virou lentamente, suas expressões impassíveis — Você sumiu.
— Shinji — Kaworu fez menção de se aproximar, mas não o fez; sentia-se mal e todo o sentimento de culpa que carregava se tornou, de repente, insuportável. Ele ficou em silêncio por um momento e então engoliu em seco, percebendo que não podia prolongar aquilo por muito tempo — Me desculpe. Eu menti pra você durante esse tempo todo. Eu não sou um fantasma, só não estava presente antes de nos conhecermos porque estava cuidando de minha mãe. Esse também foi o motivo de eu ter faltado. Eu devia ter te contado antes.
Kaworu encarava os próprios pés, incapaz de olhar Shinji nos olhos. Tinha medo de ver com que olhos ele o encarava ao descobrir que tudo fora uma mentira, uma grande e cruel mentira. E por ter os olhos para o chão, não viu quando Shinji se aproximou, apenas sentiu quando foi abraçado por braços magros e não muito compridos.
— Eu já sabia.
Kaworu fitou os fios rebeldes do cabelo do garoto que se grudara ao seu peito. Sentiu seu coração bater mais forte e sabia exatamente o porquê. Respondendo ao afeto, envolveu o corpo de Shinji e apoiou sua cabeça na do menor. Ele não sorria, não conseguia. Uma seriedade, correspondente à sua ansiedade, tomava suas expressões.
— Desde quando?
— Já faz um tempo, umas duas semanas — Shinji diz, sua voz um tanto abafada pelo tecido da blusa do colga — Eu não sou tão irrealista assim para realmente acreditar em coisas como fantasmas.
— Então por que…?
— Era mais confortável e menos embaraçoso, por isso te tratava como um. Desculpa.
— Eu que menti. Se eu tivesse negado…
— Eu agradeço por ter mentido. Não sei como eu teria lidado com a situação, para ser sincero. Então obrigado.
Só então Kaworu se permitiu sorrir; um sorriso mais verdadeiro e sereno. Gostava da sinceridade se Shinji. Achava-o uma pessoa interessante e estava feliz por ter se aproximado de si.
— Eu fiquei preocupado com você, preocupado que você cometesse alguma loucura.
— Bem… — o moreno agarrou-se à blusa do outro, certamente a amarrotando, porém, nenhum dos dois podia se importar menos com a condição do uniforme. — Eu me senti triste sim, e abandonado. Mas como eu poderia te ver se eu desistisse de tudo? Eu já disse, não acredito realmente em fantasmas.
Kaworu o abraçou mais forte, mas Shinji acabou por pedir por um pouco de espaço; pedido que ele não pode recusar, apesar de sua má vontade de se afastar do rapaz. Quando se afastou, deixou que seus olhos finalmente caminhassem até os do outro, que também encaravam os seus fixamente.
O albino se abaixou um pouco, o suficiente, e colou os seus lábios aos do outro. O beijo não foi apaixonado ou longo, tampouco os deixou sem fôlego. Foi apenas especial.
Ao que se viu livre, Shinji corou fortemente ao perceber o que ocorrera e voltou a se esconder no peito de Kaworu, que riu brevemente da atitude do mais novo, sua própria face tomada por uma leve coloração rosada.
— Eu te amo, Shinji. E, dessa vez, sou eu quem prometo estar sempre com você.
Era intervalo do almoço. Desta vez, apesar de ensolarado, não ventava, o que deixava o tempo ainda mais abafado. Shinji e Kaworu se encontravam sentados junto à escada, fugindo do Sol escaldante.
— Então sua professora não te deixou entrar?
— Não, a Misato pode ser bem cruel quando quer. Já vi que vou ter que ligar para o meu pai depois.
— Tenho certeza de que ele vai entender.
— Acho que não, mas obrigado — Shinji sorriu um tanto torto, ciente da bronca que levaria. E ainda tinha de pensar numa desculpa minimamente decente. — Isso me lembra, e a sua mãe?
— Ah, está um pouco melhor. Ela não tinha uma recaída tão grande desde as férias. Eu fiquei bem preocupado.
— Fico feliz que ela esteja um pouco melhor. Sem dúvidas ela vai melhorar em breve — Shinji fez uma breve pausa, na qual se ocupou brincando os próprios dedos — Ei… Será que posso ir visitá-la um dia desses?
Kaworu se virou imediatamente em direção a Shinji, surpreso com o pedido inesperado. Da última vez que ele comentara algo do tipo, dissera apenas por educação, então não imaginava que ele realmente a quisesse ir ver.
— Claro! Ela ficaria muito feliz! — O sorriso que tomava os lábios do albino era largo.
— Então vamos depois da aula de sexta, que tal?
— Não vejo data melhor.
Shinji riu brevemente, o que deixou Kaworu um tanto confuso.
— O que foi?
— É que você está tão feliz.
— É claro que estou!
— Adorável — Shinji disse, com um sorriso, inclinando levemente a cabeça.
As palavras de Shinji, que pegaram o albino de surpresa, trouxeram uma coloração rubra ao rosto do garoto, que laçou o moreno com seus braços. Ele o abraçou e beijou o topo da cabeça do outro.
— Eu acho você bem mais adorável.
— Okay, okay, agora me solta — Shinji riu novamente, sua face agora corada. Ele então sorriu, segurando a face de Kaworu em suas mãos. O gesto causou um sobressalto ao albino, mas este permaneceu imóvel — Sabe. Olhando bem, não sei como pude te confundir com um fantasma quando te conheci. Eu devia estar cego.
— Deve ter sido o cabelo. Não é a primeira vez que esse tipo de engano acontece, principalmente desde que entrei nesta escola.
— Não, não tem nada a ver. Porque você parece bem mais com um anjo, Kaworu.
Ele sorriu ao ouvir as doces palavras e juntou as duas testas.
— Acho que isso me faz seu anjo da guarda então.
Eles então se beijaram pela segunda vez.
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