Hey, my little winter
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E a playlist dessa foi:
Singularity- LY: Tear- BTS
Shine- Pentagon
Paper Hearts- Tory Kelli
Happier- Ed Sheeran
E o resto do novo álbum do BTS (porque eu não tenho culpa de não escutar quando ele saiu)
Enjoy!
Faz tempo que não a vejo. Ela, como uma boa garota esforçada, anda tão ocupada estudando que se esqueceu de sair, ou sequer mandar um sinal de fumaça. Com isso, vive me deixando preocupado, alegando estar tudo bem. Nunca acreditei.
Mesmo assim não gosto de pressioná-la. Sei que ficará mais complicado de me contar algo depois.
Peguei o celular sentindo-o deslizar suavemente pelo suor em minhas mãos, digitando pela milésima vez naquele dia as mesmas palavras.
“Você está bem? ”
Já me preparava para desligá-lo novamente quando a vibração de uma nova mensagem me atingiu a ansiedade.
“Você pode vir aqui? “
Bendita seja a falta de vontade de estudar.
(...)
Fiz um caminho já conhecido por meus pés, aquele que eu há muito tempo não tomava. O coração batendo violentamente enquanto os flocos de neve discretamente caiam sobre meus ombros aveludados. Consegui chegar rapidamente, minha mão já alcançava sua porta com estalos secos e cheios de nostalgias.
A mesma se abriu lentamente, me revelando 1,62 de olheiras e pequenos cachos em desordem cabíveis numa blusa de moletom marrom, por sinal minha. Um pequeno sorriso se abriu num suspiro aliviado naquela face cansada. Um sorriso que doeu em mim de tão falso.
Minha urgência se resumiu em largar o casaco mais pesado e a bolsa, que na verdade se fazia inútil para tal situação, no chão de madeira envernizado e andar três estúpidos passos para quebrar de vez a barreira fria que se encontrava entre eu e ela. Uma barreira de três meses que mais parecia ser feita de uma eternidade bem próxima de nossos corações que batiam acelerados.
As primeiras lágrimas de saudade foram derrubadas, seguidas de uma cachoeira de mágoas que ela estava suportando sozinha trancada em um quarto, estudando para uma prova de bolsa da faculdade de seus sonhos. Nesse meio tempo, viu de tudo: amargas brigas de casal e uma separação. A pressão sobre o irmão mais novo, que fez as malas ainda assustado e sobrevoou um oceano para morar com a avó paterna no Japão. O afastamento de seus antigos amigos.
Todas elas, era como se eu pudesse sentir o peso de todas pelo abraço que nos unia. De instinto eu sabia, que aquilo era o suficiente para que eu a colocasse no lugar.
“Achei que tivesse se esquecido de mim. “
“Acredite, você foi a pessoa em que mais pensei durante todo esse tempo. “
“Porque não me procurou antes? “
“Eu tenho vivido dias frios... “
O silêncio bastou para que eu traçasse meus pensamentos com os dela. Eu a conhecia tão bem. Mas esse tempo foi o estopim para que todas as máscaras fossem colocadas. Agora, em meus braços, confusa, ela já não era a mesma. E eu deveria ter imaginado isso.
Talvez fosse mais reconfortante suportar tudo sozinha? Talvez eu não devesse me meter? Não era de se admirar: um inconsequente jovem como eu deixasse uma barra de ferro personificada cair como uma massinha.
Ela era tão persistente e admirável. Mas seu coração cortado amassara qualquer resquício de esperança. O frio incômodo só piorou tudo. E eu ali, reclamando da rotina pausada quase que retardada, enquanto ela fazia de tudo e mais um pouco para não cair.
Por Deus, reflexões nos machucam.
Completei minhas hipóteses ao varrer a casa e não encontrar nenhuma alma viva além de nós dois. Perguntar aonde estariam todos seria como aprofundar uma agulha numa veia sensível. Deixei que meus instintos me guiassem: subi as escadas para adentrar um quarto.
O mais bagunçado que vi em toda minha vida. Nem o meu chegava no caos que ali estava.
Não era uma bagunça normal. Mas pelo cúmulo dava a perceber que a cada mês muitas coisas saíam do lugar de propósito. Acessos de raiva.
Olhei diretamente nos olhos perdidos da garota ao meu lado. Pareciam gritar por descanso. Forcei seus ombros para trás, para que aquele corpo se sentasse. E fiz eu mesmo, o que eu chamo de um possível Restart.
Ela, assistia a tudo com meio sorriso no rosto, as costas um pouco curvadas. Estática.
Até que uma pantufa voadora lhe atingiu em cheio. Arrancando do peso uma risada baixa. A chave para o desespero que meu coração sentia toda vez que a ouvia. A observei abaixar a cabeça, pensativa.
Só não imaginava que atiraria a pantufa de volta e dispararia escada abaixo, num pedido para segui-la num pega-pega. Pena que eu já sabia de seu esconderijo, tardio e secreto.
Ah que saudade de procurar incansavelmente por toda a casa e achá-la aos risos debochados debaixo do último armário da despensa, que fazia exatamente o seu porte eternamente pequeno.
Eu estive procurando por todo esse tempo. Apenas uma lembrança me deu o que eu queria.
(...)
O sofá foi preenchido por cobertas grandes e gordas. Não queríamos assistir nada. Eu podia apenas ver o frio ser preenchido por acordes muito bem dedilhados num violão marrom bétula.
Aquele que ficava no canto do quarto. Abandonado porque todas as suas prematuras tentativas de aprender novas músicas sempre davam em choro. E em todas elas eu estava ao seu lado. Acompanhando, sem forças para simplesmente dizer que ela deveria parar de chorar e tentar novamente.
Prematuros pensamentos de adolescentes experimentando algo novo. Mais do que crises e espinhas invasoras.
A música deslizava com ondas sonoras bem desenhadas e pautadas numa nova composição, de mãos dadas com a bela e doce voz da menina ao meu lado, numa língua oriental.
Eu só conseguia vê-la num esboço de anjo sem asas. Uma espécie de reconforto para meus olhos realistas e cinzas, assim como o céu lá fora que fazia chover gotas no tempo perfeito da melodia e também em seu término.
Ah, como era bom não fazer nada por ela naquele tempo. Agora vejo que ela seguia sozinha as próprias linhas sem olhar ao menos uma vez para meus dedos um pouco mais experientes. Marcados pelos calos de um violonista herdado.
(...)
A noite caía em suas primeiras estrelas...
“Oppa.”
Ah, esse apelido que cortava mais do que mil facas toda a sanidade que eu desejava manter.
Um simples drama coreano visto clandestinamente às pressas numa noite estrelada e, peculiarmente chuvosa. Eu e ela, com medo de um possível blackout feito duas criancinhas iludidas. Sua mãe já havia me alertado que a qualquer momento poderíamos nos assustar. Eu queria um terror. E ela, um romance melação.
Só pra me irritar. Algo que gerava nela prazer porque eu não me contentava com os beijos mal feitos e as falas nada a ver com o contexto. Sempre a ouvia cair na mais satisfeita risada.
E confesso, ainda os acho a mesma porcaria. Porém fazê-la queimar as bochechas com as cenas de casalzinho mais uma vez, se tornara a prioridade. Eu apenas queria reviver os primeiros momentos. Estes que consegui resumir em um apelido muito bem pensado, cujo fazia um par com o que ela me dera.
“Jagiya “
A voz falha por me encontrar quieto demais durante o tempo em que visei absorver cada detalhe de seu rosto. Para desenhar uma imagem mental. Uma ponta de saudade batendo da vergonha que sentia ao olhar em seus olhos. Esta que sumiu junto a minha vontade de nunca amar nenhuma garota.
Porque eu estava diante do par de olhos castanhos que me causavam um furacão interno.
“Eu preciso voltar a estudar. ”
“Não. Você já fez isso. ”
Ela pensou. Mas desistiu de tentar lutar contra os fatos que já estavam expostos a muito tempo. A prova, segundo o calendário que vi de relance pendurado em seu mural dizia que a data era amanhã.
Mas nós dois sabíamos que ela já era capaz de fazer tudo sem ao menos revisar conteúdo algum. Não por uma projeção falha de nossas cabeças, mas uma certeza que eu desenvolvera no abraço que abriu o começo da história.
Senti os fios encaracolados escorregarem do apoio de meu ombro direito para meu peito. O drama na tela brilhante ia emudecendo até que fosse possível escutar apenas os grilos corajosos em meio ao frio de brisas negativas.
Os pequenos olhos puxados foram se fechando lentamente até Elise apagar em meu colo. Ela, adormecida e serena.
Já eu, vítima daquela inocência angelical, cheio de estragos. Meu pulso acelerado me confirmava o inevitável. Apaixonado. Perdidamente apaixonado por ela. Ali. Naquele momento. No frio inesquecível de um inverno.
Acariciei sua cabeça, cantando uma melodia suave em minha voz grave. Algo como a singularidade que me permitia observá-la bem de perto.
Nunca senti tanta euforia em me perder em algo. Perder o controle de meus batimentos cardíacos. E ganhar os de uma menina adormecida.
“Talvez eu esperasse para reviver o que ficaria apenas como uma nostalgia. E nunca quis mais do que um desejo, repassar essa fita cheia de sorrisos em meu coração. A projeção que antes eu tinha de você congelou com o tempo, caindo nos ladrilhos, estalando como cristais de gelo tudo o que guardei de nossos memoráveis invernos. Mas, nenhum tão frio como esse me fez descobrir o quão quente e reconfortante é ver seu sorriso voltar. Como invernos em fases, e meu amor por você em frases. Não me admira. A melhor temperatura negativa que já cheguei a tocar. Por favor, não vá embora tão cedo. Eu só imploro por mais desse frio que você me traz. No realista, frio demasiadamente. No que eu sinto, o fogo de um novo amor incendiando tudo o que já cheguei a ser. “
“Oppa? Você canta...”
“Hey, my little winter”
“Sim?”
"Eu te amo."
Notas finais
Comente pra eu saber se você gosta de histórias assim.
Quem sabe eu faço de outro gênero né?
Podemos dizer que é uma coleção de histórias curtinhas. Ou seja, uma extensão para Shakespeare Café (se vc não leu corre lá)
Beijos estelares...
Adios S2
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