Notas iniciais
Bem, tem bastante história nesse, pra compensar o dia inteiro sem história e o pouco que eu escrevi nas anteriores. E também tem um texto lá em baixo, como eu fazia no começo da história, só pra esclarecer mais as coisas e dar mais alguma coisa pra vocês lerem. Boa leitura!

Dezessete


_Bom dia, Amor._ Miguel me acordou com um beijo.

Eu abri os olhos, em fresta, porque o quarto dele estava muito claro_ da grande janela se tinha uma linda vista do sol e as casinhas que ficavam lá em baixo, contornando as ruas.

_Bom dia!_ saí da cama, com meu pijama micro, e fui andando em direção ao espelho. Eu podia perceber que Miguel me olhava_ Nossa, como eu estou feia.

De fato, estava “acabada”, não feia. O lápis de olho preto escorrido em volta do meu olho, parecia Alice Cooper. Ou um panda. O pouco do batom vermelho que sobreviveu depois dos beijos no Miguel estava em todos os lugares, menos na minha boca. Antes que ele pudesse falar algo como “não está não, está linda”, eu continuei:

_Como você pode dormir com uma garota tão acabada?

_Ela não é “acabada”. Eu que deixei ela acabada. Olha como ela me deixou, também._ ele olhava pra si mesmo, com uma camiseta cinza e uma cueca branca.

_Olha, Miguel, aqui ainda tem batom_ cheguei perto dele, sentei-me nas suas pernas e passei a minha mão no seu rosto, que estava todo marcado com batom.

Nós rimos, até que ele me olhou tão lindamente, tão calmo e silencioso. Eu o beijei. Ele me puxou pra cama, e eu cai em cima dele, e nós rimos novamente. Eu tirei a camiseta dele. Fatinha bate na porta trancada.

_Ô, senhor Miguel, é... me desculpa, mas o senhor vai querer que eu faça o almoço, hoje?

Ele se levanta rapidamente, e quando vai abrir a porta, eu o lembro que está sem camisa. Ele volta, pega a camisa comigo, e a veste rapidamente. Põe somente o rosto pra fora e avisa:

_Eu já falei que é só “Miguel”, não “senhor”._ ele sorri_ Obrigada, quero sim. Faz almoço pra dois, viu?_ ele vira o rosto pra mim, sorrindo.

_Ah, ela tá aí, também?_ eu pude ver que ela subiu na ponta dos pés e gritou_ a senhora quer alguma coisa?

Miguel abre um pouco a porta, nem pra que a Fatinha me veja, apenas pra eu gritar de volta:

_Não, Fatinha, obrigada.

_Capricha na mesa, viu, Fatinha?_ Miguel disse, quase fechando a porta_ Ainda vamos tomar café.

_Pode deixar, senhor... quer dizer, Miguel._ ela era gordinha e baixinha, como eu já havia dito, e a pude ver voltando pra cozinha, de costas pra porta do quarto.

Saí da cama, e fomos direto pro banheiro. Eu lavei o meu rosto até ele ficar civilizado, e ele também.

Saímos do banheiro e fomos tomar café.

_Hoje você tem que ir pro hospital?

_Não, hoje eu posso ficar em casa o dia inteiro.

Eu, passando manteiga num pedaço de pão, disse:

_Que tal a gente ir pro meu apartamento? Lá não tem empregada, se é que você me entende. E é bom que o porteiro te conhece, também.

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Era 11h40min quando fomos pro meu “apertamento”.

_Olha, não é muito grande, mas... cabe nós dois._ eu abro a porta.

_Não é tão ruim quanto você acha. Ou pelo menos, quanto você diz. Vamos ver se cabe nós dois mesmo?

Ele me imprensou na porta me deu um beijo. Nesse momento, uma senhorinha passa por nós e, andando, fala pra si mesma:

_Ah, que saudade desse tempo.

Eu e Miguel olhamos pra ela e começamos a rir. Ela nem deve ter percebido.

_Onde a gente estava, mesmo?

_Na parte que a gente fecha a porta.

Entramos e fomos pro meu quarto.

_O que tá passando na televisão?

Liguei a tevê. Estava num canal de gado. Depois, mudou pra um canal de compra, mais mil de desenho animado. Até que eu acho um de clipes dos anos 80. Estava passando Bon Jovi, com “You Give Love a Bad Name”.

“Um sorriso angelical é o que você vende
Você me promete o céu, e então me inferniza
Correntes de amor me prendem
Quando a paixão é uma prisão, você não consegue se libertar”

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Estávamos deitados, vendo clipes, quando a campainha toca. Eu sei, tem porteiro, mas ele só se certifica se as pessoas estão “armadas” ou não. Ou seja, podia ser o Andy Sixx batendo na minha porta e eu não saberia.

A campainha toca novamente, e eu corro pra atender. Até que quando eu atendo, bem, era o Nicolas.

_Oi, Magda. Quanto tempo eu não venho aqui...

Quando Miguel ouve a voz dele, ele vem andando pra perto de nós. Nicolas ainda não tinha visto que Miguel estava ali, e continuou falando.

_Eu queria pedir desculpas por ter te beijado, ontem._ ele sorriu com aquele sorriso que qualquer garota se derreteria. Menos eu._ Olha, trouxe essa caixa de bombom pra você...

Miguel aparece por trás de mim.

_Saia daqui, agora!

_Miguel, calma. Ele está se desculpando...

_Se desculpando, por que? Você não fez aquilo de propósito?_ Miguel está atrás de mim, tão grudado, que posso sentir seu calor.

_Não, Miguel, me desculpa, sério. Eu não fiz aquilo por querer... se tivesse, eu não estaria pedindo desculpa.

Miguel percebe que nem eu e nem Nicolas estamos de acordo com ele, entra de volta pro meu quarto, batendo a porta, de cara amarrada, com medo dele mesmo de fazer algo que não devia. Tanto comigo, quanto com o Nicolas.

_É... pelo visto, ele não quer nem falar com você.

_Poxa, Magda, fala com ele, por favor. Eu juro que eu pensei que era a Talita e...

_Ok, Nicolas, já entendi isso. Por acaso, ela sabe o que você fez?

_É, então... sabe. Ela se separou de mim.

Eu fiquei chocada. Não que um beijo em outra mulher não fosse motivo pra se separar, mas a Talita era fanática pelo Nicolas, amava tudo o que ele fazia, chegava a ser mais que amor, era obsessão. Ela nunca iria fazer isso, sabendo que ele não fez de propósito, e ainda, mesmo que fosse, ela não acreditaria.

_Nossa, sério? Mas vocês estavam indo tão bem...

E ele, quase chorando, com os olhos azul-piscina, já não mais sorridentes, disse:

_É, Mag. Estávamos indo tão bem...

E se vira, derrotado. Vai andando até pegar o elevador, cabisbaixo, como se eu tivesse tocado na parte onde mais doía pra ele: Talita. Antes de eu me referir a ela, ele estava bem. Mas eu perguntei sobre ela, e toda aquela gentileza de me pedir desculpas foi por água abaixo. Ele nem estava preocupado em não demonstrar sua tristeza, não era algo de extraordinário, nem uma novidade. Ele ama a Talita.

Entrei pra dentro do meu apartamento, meio triste por eles. Quem diria, eu era pra dar pulos de felicidade por eles terem terminado, já que eu amava/amo tanto o Nicolas. Mas é que antes, eles estavam felizes, e eu triste por eles. E agora, eu não conseguia ficar feliz por eles estarem tristes. Eu era fraca demais pra considerar que, pelo menos agora, eu tinha que sorrir. Eu era fraca pra desejar o que eu queria, só porque um outro será prejudicado. E agora, que eles estavam prejudicados, eu era mais fraca ainda pra fazer o que eu queria, por me sentir mal.

O Miguel é um caso isolado. Ele é o amor da minha vida, pelo menos agora. Ele é gentil, lindo, tem um emprego ótimo, uma casa e um carro maravilhosos. Um homem perfeito pra uma garota “fraca”. Se ele não tivesse aparecido até aí na minha história, é claro que eu me aproximaria do Nicolas, agora. Mesmo sendo amiga da Talita, eu já estava apaixonada por ele antes, e se tudo entre eles realmente tivesse terminado, não teria problema algum ficar com ele. Mas agora, essa hipótese se tornava quase impensável. Abandonar o Miguel pelo Nicolas era algo totalmente irracional de se fazer, porque, mesmo que eu amasse o Nicolas, o Miguel me amava, acima de tudo. O Miguel era quem me fazia feliz, o meu companheiro. Eu nunca tive uma relação séria com Nicolas, nunca rolou nada entre a gente. Mas com Miguel, foi inevitável. Eu não conseguia me controlar como eu me controlava com Nicolas, não fazia parte de mim aquela força que me empurrava, que me jogava pro Miguel. Eu nunca senti algo tão forte quando eu sinto pelo Miguel. E ele também se sentia muito atraído por mim, porque ele podia ter terminado comigo, assim como a Talita fez com o Miguel, principalmente por eu estar defendendo Nicolas, mas não o fez. Porque ele viu, e mesmo que não quisesse acreditar, mesmo que todas as provas acusassem de que eu amava Nicolas, ele iria negar em nome do amor dele por mim.

A Talita devia estar arrasada, sobretudo pelo término do namoro. Eu ainda não conseguia formular uma hipótese convincente sobre o por que do término, embora o beijo fosse um motivo muito óbvio. Talita não media esforços para agradar Nicolas, mas mesmo assim, foi ela quem terminou com ele. Pra ela, o beijo deve ter tido um significado de muito maior proporção do que realmente era. Talvez eu tente falar com ela, mais tarde, se é que ela não está brigada comigo, também.

_Amor?_ eu entro no quarto, já jogando a bomba, pra ele não ficar com raiva de mim_ A Talita se separou do Nicolas.

_Ah, que peninha. Não, mentira, adorei isso.

_Por que você está assim?! Por que você queria isso? Miguel!

_Magda, você não viu que o Nicolas te deu um beijo? Um beijo! Na sua boca! Ele te beijou com aquela boca que você nem sabe onde ele passa...

_Miguel, não foi um beijo. Foi tão rápido e bêbado que eu não senti nada. Praticamente não tocou a minha boca.

Ele me encarou, sem resposta. Não queria assumir que não foi nada demais, mas sabia que não era tão grave assim.

_Posso deitar aí, com você?_ mesmo que a cama fosse minha, perguntei pra mudar de assunto.

_Magda... já te disse que você me deixa louco?

_Disse. E eu disse que é você que me deixa louca!

_Pois saiba_ ele pôs a sua mão no meu queixo, me trazendo pra mais perto_ que eu sou inofensivo. Com você.

Nos beijamos, e continuamos vendo clipes anos 80, na minha cama.


Notas finais
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