Notas iniciais
Desculpa pela demora, amores! Estou muito ocupada. Mas quando tiver um tempo, atualizo.

Trinta e três

_Alô?

_Magda? Você está bem?

_Estou._ passei a mão na cabeça, ainda tentando reconhecer a voz familiar que falava comigo. Olhei para o relógio, eram 6h30min da manhã._ Quem está falando?

_Sou eu, Talita, poxa!

Uma pausa.

_O Miguel me ligou dizendo que, ontem, você foi lá ver ele e um cara...

_Ah, ele te contou?_ fiz careta._ Então quer dizer que estamos nos falando?

_Quem? Você e ele? Ué, devem estar._ disse Talita, não entendendo o que eu queria dizer por não saber que eu estava totalmente decepcionada com Miguel.

Ela continuou:

_Sabe, Magda, a gente não sai mais! Você está brigada comigo?

_Não, claro que não...

_Então vamos sair hoje?

_Vamos... ir aonde?

_Ah, eu não sei. A gente podia ir no restaurante italiano que abriu aqui perto de casa. Tem alguém que pode te trazer aqui ou quer que eu vá de carro e...

_Tem, sim, Tatá._ me lembrei do Afonso, já que ele estava doido por uma chance de sair comigo e eu para esquecer o Miguel.

_Bem, então tá. Te vejo às oito?

_Pode ser. Beijo.

Liguei imediatamente para Afonso.

_Alô?

_Oi, Afonso.

_Oi, gatinha! Tudo bom?

_Tudo sim. Aqui, a minha amiga me chamou pra sair, você não quer ir com a gente?

Deu-se uma pequena pausa até que Afonso diz:

_Você está falando sério?

_Estou, sim, por...

_Claro que eu quero! Quando eu te encontro?

_Bem, então... na verdade eu queria ir pra sua casa mais cedo. Não tem nada pra fazer aqui em casa, mesmo. Será que eu posso ir aí?

_Pode, pode sim. Que horas?

_De tarde eu bato na sua porta_ quando acabei de dizer isso, podia ter quase certeza de que ele estava rindo do outro lado._ Beijo.

_Beijo, gatinha._ ele falou, indiferente, como se "gatinha" não fosse pra chamar a minha atenção, mas como se tivesse saído naturalmente da sua boca.

Fui tomar banho. Saí, verifiquei meus e-mails. Nicolas não tinha me mandado nada, e Roberta tinha me mandado uma mensagem de "Bom Dia", com um ursinho rosa bem chamativo, sorrindo. Eu retribui a mensagem, embora ela mesma soubesse que eu não fazia coisas "fofinhas" do tipo.

Mas onde estaria o Nicolas? Ocupado demais pra falar comigo?

Tenho medo de que sim.

__________________
Eram 5h40min. Fui para casa do Afonso.

Apertei a campainha, e ele já veio correndo abrir o portão. Estava sem camisa, de bermuda, como quem acaba de tomar banho e fica à vontade dentro de casa, mostrando seu corpo escultural e masculino...

_Oi!_ ele já veio me abraçar, me beijar na bochecha.

_Olá..._ eu, meio sem jeito por não saber o que fazer. Afonso agarrava as pessoas, eu não.

Entramos pra casa dele, e pela primeira vez eu posso observar os detalhes, sem ter medo de ele ser um maníaco querendo me prender lá. E, é claro, ele não podia perder a piada:

_Dessa vez você não vai sair correndo, com raiva de mim, não, né?_ ele sorriu.

_Bem... naquele dia eu era pra ter acordado no seu carro. Ia me dar dor nas costas mas pelo menos eu não ia sair como uma louca nessa história_ eu ri, tentando não deixá-lo sem graça; mas eu e Afonso tínhamos algo que nos deixava tão à vontade um com o outro, como se fôssemos conhecidos de longa data, amigos íntimos, quem sabe, irmãos.

Ele me levou na cozinha.

_Está com fome?

Eu olhei para a mesa, estava cheia de salgadinhos, chocolate, Coca-Cola, biscoitos.

_O que é isso?

_É que eu não sabia do que você gostava, então eu comprei o mercado inteiro._ nós dois rimos.

_Você é louco, mesmo!

_É... só pode ser.

Olhei mais detalhadamente a mesa, e encontrei até Nutella. Nutella? Nutella... Miguel. Bagunça, amor, risos... ah, como tudo me lembra esse homem!

_O que foi?

A minha desilusão era mesmo tão visível? Fiquei surpresa. O que eu podia dizer?! Olhei nos olhos dele, confusa.

_Eu sei._ ele me olhou, esperando minhas reações com o que dizia_ É difícil esquecer ele. Mas eu estou aqui, também. Por que você não me deixa te mostrar que sou bom o bastante pra você?

Ainda bem que ele havia dito aquilo. Mesmo sendo o que eu queria ouvir, mesmo querendo esquecer Miguel o quanto antes possível, mesmo Afonso sendo bom, sim, suficiente pra mim... ele me deu a oportunidade que eu precisava para negar o seu pedido_ quase irresistível.

O abracei, tentando "apagar" o fogo.

_Afonso, acredite. Eu SEI que você é bom o bastante pra mim_ pisquei pra ele_, mas..._ eu o soltei, passando minha mão pelo seu ombro e descendo, até chegar no seu peito malhado, onde eu simplesmente não conseguir mais completar meu raciocínio.

Nem eu sabia o motivo de não dar uma chance pro Afonso. Miguel até agora tinha ocupado todo o meu tempo, sendo me fazendo feliz ou me dando trabalho. Eu nunca tinha tido ninguém mais importante que ele na minha vida, mas agora era como se fôssemos conhecidos... porque ele quis.

Eu tentei de todas as maneiras ficar com ele, disso e não tenho dúvidas. Tentei mesmo não sabendo dos seus mistérios, tentei mesmo tendo uma só certeza: de que eu o amava. Tentei depois que Paola chegou novamente, e, veja só, depois que ela foi embora definitivamente.

Ele me empurrou para a parede:

_Mas... o que?

Afonso pressionou sua boca contra a minha. Ele era mais forte que Miguel. Depois, ele começou a beijar meu pescoço, tão quente e dominador...

_Afonso, é... eu estou com fome.

_Eu também, Magda._ ele levantou sua sobrancelha, não querendo parar.

Uma pausa.

_Tá, vamos buscar alguma coisa pra comer.

Fomos pra cozinha carregada de comida e catamos uns pacotinhos de biscoito salgado e Coca-Cola.

_Então... o que você faz?

Ele se encostou no balcão do lado oposto da cozinha, tentando ao máximo me observar de longe, sem me tocar, sem me assustar. Ele e Miguel fazem isso, mas Afonso faz de propósito.

_Eu desenho. Não profissionalmente, mas passa o tempo. Ah, e eu ouço rock, isso é quase uma profissão pra mim._ ele me olhava, ainda atônito quanto à minha escapada._ E você?

_Eu faço poemas. Mas como a casa que eu moro é dos meus pais, eu não trabalho... sério que você desenha? E ouve rock? Que perfeito!

Ele sorriu como se fosse realmente perfeito. Aposto que tinha pensado: "se eu sou tão perfeito assim, por que diabos você não quer me namorar?".

Ele desencostou do balcão e olhou pra mim, andando em direção ao corredor, de modo à me fazer segui-lo. Fomos para o quarto dele, nos sentamos no chão, de frente a um armário, de onde ele puxou vários papeis de dentro de uma gaveta.

_Vê se você gosta deles.

Eu puxei um papel, o qual Afonso desenhou, em preto e branco com traços finos e simples, duas pessoas nuas, abraçadas, entrelaçadas em um cobertor pesado.

_Foi você quem fez?!

_Sim..._ ele olhava para o lado_ por que?

_Porque é lindo, Afonso. Olha esses traços, essa delicadeza... daria uma ótima inspiração para eu escrever_ rimos.

Ele me olhou, como se quisesse que eu visse mais desenhos. Eu peguei outro papel, dessa vez com um desenho colorido, de uma criancinha correndo atrás de um cachorro, num campo grande e verde. Outro, um esqueleto tocando guitarra. Em nenhum dos desenhos, havia rostos e formas definidas, apenas a noção de corpo e de ser. Os traços eram tão fortes e ao mesmo tempo finos... eram lindos.

_Eu nunca pensei que você...

_...Desenhasse?_ ele riu_ Ninguém pensa isso. As pessoas acham que eu fico trancado no quarto, ouvindo rock o dia inteiro, só saio pra comer e ver vídeo pornô..._ nós rimos, e eu não podia desmenti-lo, sobretudo porque eu não sei quem são as "pessoas" de quem ele falava_ mas na verdade eu preciso de coisas que passam meu tempo, que me divirtam, que me tirem do tédio.

Seu olhar se torna tão vago quanto o do Miguel. Mas tinha algo neles que eu não podia decifrar.

O do Miguel eu sabia que era distância, tristeza, muitas vezes arrependimento, desilusão. Mas o do Afonso era impossível de entender. Eu não sabia se ele estava triste ou alegre, lembrando-se de alguma coisa ou pensando em fazê-la. Era um olhar só dele.

Ele, então, olhou de volta pra mim, na mesma intensidade que o meu olhar. Passaram-se mil coisas na minha cabeça. Os olhos dele simplesmente pareciam assistir o que passava pelos meus, apenas admirando, vendo, enxergando-me.

_Depois você me deixa ver os seus poemas?

_Claro. Mas eles são ruins...

_Por que você acha isso?

_Porque são de amor.

_Mas isso é o que fazem eles serem bons. Você não acha? Amor é um dom. O que tem amor é divino.

O encarava, com os olhos castanhos espantados.

_Você é o mesmo Afonso daquele dia? Que foi atrás de mim na boate, que me levou pro carro dele?...

Ele riu, tentando se explicar imediatamente. Bem, não se explicar em si, mas explicar os fatos.

_O que a gente fez naquele dia não foi... o melhor que a gente podia. As melhores coisas acontecem com amor. Por isso que eu acho que os seus poemas devem ser tão bons quanto a dona deles.

Por que ele não havia dito aquilo antes?

Afonso era tão meigo... mais meigo do que eu realmente pensei que fosse. Era loucura pensar que já o conhecia com uma noite e um dia passados. Mas era loucura pensar que o mesmo homem daquela noite era o homem que falava comigo agora. Afonso era homem tanto de conversa quanto de atitude.

_Você... tem certeza que..._ ele se aproximava novamente, olhando para o meu decote sem ter intenção_ não quer que..._ ele engoliu em seco, e eu fui me afastando vagarosamente, sem querer ficar longe, de fato.

Afonso me beijou, como já se era de esperar. Mas nós nos beijamos intensamente, como se algo nos proibisse esse tempo todo e precisássemos nos reencontrar. Urgentemente.

Ele veio pra cima de mim, jogando seus desenhos longe, ainda me beijando com força, mal podendo encostar em mim sem que eu caísse no chão do quarto dele. Ele imediatamente me pegou no colo e me pôs na cama.

_Melhor assim, não é?_ ele disse.

Mas eu só conseguia observá-lo. Não podia crer no que via, apenas via. Ele veio para cima de mim, com a mesma vontade que eu tinha dele.

_Ah...

_A... de Afonso? Acho que não, hein?_ ele piscou, extático.

Notas finais
Reviews?? ):