Hey Doctor
6 Testes
Notas iniciais
Bella's POV
A real é que eu acho que não tem como as coisas ficarem piores pra mim.
A não ser morrer, é claro. Morrer seria péssimo. Charlie ficaria arrasado e Renée sentiria culpa por não ter convivido tanto comigo nos últimos anos. Na verdade eu podia contar nos dedos as pessoas que sentiriam minha falta. Isso não me incomodava como deveria, eu acho. Suspirei e abotoei minha blusa. Eu deveria parar de pensar em morrer. Uma batida na porta me fez pular dos meus devaneios.
— Já está pronta querida? — Charlie com seu bigode grosso e barba por fazer me perguntou cauteloso enquanto se encostava na porta do meu quarto.
— Quase, pai. Só falta dar um jeito nisso. — falei apontando para o ninho de ratos que estava meu cabelo. Nós se acumulavam no meu crânio há dias. Pentei os cabelos com os dedos mas não tinha jeito e fiz uma trança de lado. Vesti minhas botas impermeáveis e escovei os dentes para ir para o Hospital.
Edward me mandara uma mensagem na noite passada lembrando-me que devo permanecer em jejum, pois seria “dia de testes”. Testes para saber se meu tratamento estava funcionando ou se eu estava estagnada. Eu odiava esses testes desde sempre. Quando eu os fazia e tinha boas notícias. Eu sentia que poderia flutuar. Uma onda nova de esperança me enchia. Era uma nova lufada de ar nos meus pulmões. Pura e esperançosa. Mas não era só de boas notícias que alguém se vive e eu já tive vários dias de teste que não foram bons e eles, cruelmente, são infinitamente horríveis.
Entrei no carro com Charlie e pela primeira vez ele parecia absorver meu estado de espirito. Olheiras profundas marcavam seus olhos acusando que ele como eu não tivera uma boa noite de sono. Suspirei e encostrei minha cabeça no banco fechando os olhos, mordendo o lábio.
— Está nervosa, filha? — Ele perguntou como um suspiro. Eu sei que ele estava.
— Não. — disse. — Só estou cansada disso. — Charlie assentiu mas não comentou mais nada. Não havia mais nada para dizer. Depois de um tempo, ele saturou o silêncio.
— Edward me ligou essa manhã. — ele disse, mordendo o lábio. Abri os olhos e o fitei — Ele é um ótimo rapaz, não acha? — perguntou olhando um pouco para mim.
— Ele é legal. — dei de ombros — Não acredito que Carlisle nunca havia me apresentado os filhos. São todos tão legais! Alice é um amor de pessoa também. — disse imaginando minha amiga saltitante. Alice podia ser um pé no saco as vezes mas era uma ótima conselheira. E ela parecia ser a única que não sentia pena.
— Também é? — Charlie perguntou fitando a estrada. Corei e olhei para janela. Eu estava realmente começando a gostar dos irmãos Cullens. Edward era ótimo médico mas também era um ótimo amigo. Era fácil demais conviver com ele. Éramos tão parecidos em alguns sentidos que me assustava.
— É. — disse. Minha barriga roncou alto e eu ri. — Caramba pai, estou com fome. Quero logo que isso acabe. — Charlie riu e bagunçou meu cabelo.
— Quando acabar vou pagar qualquer coisa que você queira comer, criança. Por minha conta. — eu bufei mas ri pensando se meu estado de espirito até lá não vai matar essa fome. Charlie dirigiu por mais alguns minutos e estacionamos no hospital. O tom de azul doentio estava lá e eu estava feliz que meu consultório particular tinha algumas cores para que eu pudesse me distrair do lugar que eu estava.
Passei pela recepção e assinei meu nome. A nova recepcionista sorriu e carimbou meu cartão do hospital e eu ri amargamente. A frente do hospital já estava toda carimbada.
— Algum problema, Bella? — ela perguntou educadamente. Notei que seus cílios eram incrivelmente longos e me perguntei se eram reais. Os meus ficaram curtos depois do tratamento.
— Não..nada. — disse e sorri me dirigindo ao consultório. — O corredor era o mesmo depois de todos esses anos. Uma iluminação brilhante demais no teto. Paredes azuis e portas de um mogno bonito. A porta do final do corredor tinha um adesivo de “Sorria, é um novo dia” e vários emojis colados em torno dele. Edward queria me animar de qualquer forma. Balancei a cabeça e entrei na sala. Ele estava sentado na cadeira atrás da mesa com um protetor nos olhos, as pernas em cima da mesa e os braços cruzados em cima do colo. Sua boca estava semi aberta então eu presumi que ele estava dormindo. Ri comigo mesma e decidi sentar e ler algum livro. Eu não tinha pressa mesmo para começar aquilo. Peguei qualquer livro da prateleira de Edward e sentei em minha poltrona perto da janela. Coloquei as pernas embaixo de mim e abri o livro. Era um romance policial meio tosco. Perguntei-me se Edward gostara dos personagens cliches e suas cenas romanticas a luz do luar.
Uma enfermeira entrou e me viu ali parada colocando as mãos na cintura.
— Bella, porque não acordou ele? — ela perguntou zangada fechando a porta. Caminhou até a mesa e cutucou o ombro dele. Fiz uma careta e fechei o livro. Hora do descanso para nós tinha acabado.- Dr, Edward. Acorde! Bella já está aqui?
— Que? Bel..- ele tirou o protetor e sentou exasperado me olhando. Sorri para ele e dei de ombros. Culpada por postergar o inevitável. Olhou ao redor e para o relógio batendo a mão na testa e passando nos cabelos que estavam desgrenhados. — Bella me desculpa! Deixei você aí esperando.. eu não dormi direito a noite. Foi mal mesmo. — Ele disse passando a mão no rosto. — Jessica, obrigada por ter me acordado. Bella ia ficar entediada a manhã toda comigo roncando aqui. — ele me olhou brincalhão e se espreguiçou levantando um pouco sua blusa. Senti minhas bochechas esquentarem e olhei pra janela.
— Foi mal. Eu não queria te acordar. — dei de ombros. — Além do mais, eu tava devorando esse livro aqui que eu achei e estou perplexa com seu gosto para livros Edward. Um tanto meloso não? — perguntei balançando o livro no ar. Ele corou e olhou para baixo.
— Estou tentando explorar esse novo genero chamado romance. — ele disse por fim. — Não é tão ruim, é só extremamente ilusório.- disse pegando papéis em cima da mesa.
— Não acredita então nesse tipo de amor? — perguntei mordendo o lábio. Eu tinha que parar de externar meus pensamentos sem filtrá-los primeiro.
— A-acho que sim. — ele disse virando-se para o aparelho no canto da sala. Acionou um bipe na parede para chamar a enfermeira. — Você pode começar coletando sangue da Bella, por favor? Eu preciso fazer uns ajustes no aparelho primeiro antes de começarmos as testagens. — Ele disse ainda fitando a máquina, mexendo nos botões com rapidez. Sentia que ele queria parecer indiferente mas algo estava transparecendo.
— Eu posso ir ao banheiro antes? — perguntei tentando adiar aquilo o máximo possível. Edward virou-se pra mim e assentiu apertando os lábios. Debaixo dos seus olhos também haviam olheiras profundas e ele parecia mais pálido que o normal. — Você parece que não dormiu nada, Edward. Você tá bem? — perguntei educadamente. Não queria parecer intrometida.
— É..só uns problemas Bella em casa. Não precisa se preocupar. Pode ir que quando voltar vamos começar. — ele abriu um sorriso torto e se aproximou. — Não vai fugir pela porta de trás.- rolei os olhos e fui ao banheiro trancando-me lá. Abri a torneira, lavei meu rosto e pescoço sentindo me febril. Eu estava nervosa, quem eu queria enganar? Aquela bendita máquina podia me destruir e quem me daria a notícia era Edward. Olhei para a porta de trás do banheiro e sorri. Fugir seria minha cara mesmo. Sai do banheiro e cadeira automaticamente.
— Pronto. — falei olhando a janela. A enfermeira começou o procedimento e eu já queria chorar. Depois de todos os anos sendo furada repetidamente, eu não havia superado minha aversão a agulhas. Ela enchia vários tubinhos com meu sangue e eu me senti nauseada então olhei para Edward. Ele estava me encarando da máquina, mordendo seu lábio. Seu cabelo bronze estava bagunçado e espetado para diversas direções. Ele parecia muito mais jovem assim, se não fosse pelo jaleco eu diria que ele era um adolescente normal.- Carlisle está aqui? — perguntei não desviando o olhar.
Ele balançou a cabeça e apertou os dedos, estalando-os. — Ele está atendendo o novo caso estilo domiciliar. — franzi o cenho e ele virou novamente para a máquina.
— Porque? — perguntei hesitante. A retirada de sangue já havia acabado e a enfermeira colocara um adesivo sobre meu braço.
— A paciente preferiu não vir mais e ser atendida em casa. Tem vários equipamentos lá então está tudo bem. — ele deu de ombros como se não fosse nada. Eu senti que ele estava sendo evasivo mas deixei pra lá.
— Pronto, Doutor. — a Enfermeira passou os tubos para Edward e ele foi organizando-os na maquina. Parecia tudo muito complexo para mim então decidi voltar ao meu livro enquanto precisava esperar. Edward ainda teria que me examinar enquanto a máquina processava mas ele não se moveu ainda fitando o equipamento.
— Pode colocar uma música? — Pedi um pouco nervosamente. Ele olhou de lado mas fitou rapidamente a máquina.
— Claro. O que você quer hoje? — Edward e eu criamos esse habito. Escutar música e ouvir músicas novas já que estávamos sempre escutando as mesmas coisas.
— Quero uma banda relaxante, meio folk..talvez — falei pegando meu celular e pesquisando alguma no google. Achei uma chamada fleet foxes e coloquei no aplicativo para tocar pareando com a caixinha de musica que Edward havia comprado para mim meses atrás. Uma musica chamada Mykonos começou a tocar e eu afundei na cadeira lendo o romance a minha frente. Vi que a enfermeira se retirou e Edward voltou a sentar na sua cadeira agora me olhando. Sentia seu olhar queimar as costas do livro mas ignorei-o. Eu não queria que ele visse que eu estava apavorada.
— Bella.. podemos conversar um minuto? — ele perguntou hesitante. A voz tremendo um pouco. Abaixei o livro e olhei-o nos olhos. Seus olhos verdes eram tão bonitos e eu me sentia intimidada por ter olhos tão comuns como os meus.
— É.claro. Que houve, Edward? — cruzei as pernas e abracei o corpo fitando desconfiada. Ele passou a mão nos cabelos parecendo nervoso.
— Bem na verdade não é nada demais. Esme está planejando um jantar beneficente e ela pediu para te chamar. Eu disse a ela que você não curte muito mas que ia tentar...fazer você aceitar. — ele mordeu o lábio e sorriu um pouco. Sorri de volta e dei de ombros.
— Eu só não tenho nenhuma roupa chique. Será que a Alice pode me emprestar? — perguntei sorrindo. Ele olhou surpreso e piscou algumas vezes.
— Você vai então?- ele disse numa voz engraçada. Ri baixinho e ele pigarreou. — Caraca, essa foi fácil... Posso te dar uma carona se quiser...Esme..vai ficar feliz em você estar lá. — ele disse sorrindo largo. Os dentes dele eram perfeitamente alinhados.
— Pode ser. — falei olhando de novo para janela. — E diga a ela que eu agradeço. Ela é muito querida. — falei lembrando da esposa de Carlisle que sempre foi carinhosa e companheira dele. Um rosto em formato de coração e bochechas arredondadas eram sua marca na minha cabeça. Ela era um pouco parecida com Renee também. Era uma mulher muito boa.
— Eu direi com certeza..- Edward disse virando para a máquina. Percebi que ele não parecia ele mesmo hoje. Menos falante. Mais observador. Fiz uma careta para máquina e rolei os olhos. Acho que vou ter pesadelos com esse equipamento hoje.
— Edward.- chamei-o. — Você vai me contar sempre a verdade não é? — sussurrei. Ele olhou para mim. Um olhar torturado. Cheio de dor e angustia e eu quis tirar dali imediatamente. Não combinada mesmo com ele. Era quase uma heresia que ele sentisse dor
— É claro que vou, Bella. — ele disse meio sufocada. — Você confia em mim, não confia? — eu assenti e ele atravessou a sala e ajoelhou perto da poltrona. — Eu prometo que vou fazer de tudo por você, Bella. Eu prometo. — ele disse. Senti minhas orelhas corarem e num impulso peguei sua mão que estava esconstada na poltrona.
— Obrigada. — falei apertando sua mão, sempre quente. — Obrigada por ter cuidado de mim nesses últimos meses..Eu sei que não fui fácil no começo. É que eu não reajo muito bem a mudanças..e eu senti um pouco de inveja também eu confesso.- ele franziu o cenho e brincou com meus dedos distraidamente.
— Inveja? De mim? Por que? — ele perguntou fitando nossas mãos.
— É que você é tão novo e já conseguiu tanto. Eu..queria isso também mas tudo bem.. eu já estou de boa com isso. — falei apertando sua mão novamente. Ele sorriu também e encostou nossas mãos na testa.
— Você vai ter isso e muito mais. Você vai ver. — ele disse fechando os olhos. Senti uma onda de emoção em mim, e mordi o lábio aproveitando o momento. Eu estava feliz de ter Edward ali comigo. Ficamos alí por algum tempo. Não queria me mover e eu acho que ele também não. Ele olhava a janela e ainda segurava minha mão o tempo todo. Olhei-o de rabo de olho e vi que sua barba estava crescendo um pouco. Senti vontade de passar minha mão por ela e sentir a pele do seu rosto que parecia tão macia mas me contive. Recolhi minha mão e suspirei e ele me deu um sorriso triste e se levantou em direção a máquina. Apertou alguns botões e de repente a impressora do pequeno consultório começou a rugir. Só significava uma coisa:
— Está pronto, Bella.- Ele disse baixo. Fitei as folhas brancas e as palavras sendo impressas e senti nausea. Edward organizada todas as folhas e as colocava em ordem, lendo uma por uma várias vezes sem me dizer nada. Levantei-me e fiquei na frente dele esperando. Ele leu e leu e leu. Escreveu nas bordas das folhas e por mim me olhou. Seu olhar já dizia tudo. E eu me senti desmanchar por inteira.
— Não reagindo. — ele disse por fim, sua voz esgasgada e entrecortada. E eu pensei. Seria esse o meu fim?
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