Heróis modernos
1 O vigilante de Washington Beach
Desde que me entendo por gente eu quis ter superpoderes. Sempre quiser ser como os heróis das histórias em quadrinhos. Voar, escalar paredes, ficar invisível… Mas pensando bem eu não queria apenas ter superpoderes. Eu queria mais. Eu queria uma coisa diferente. Eu queria ser um herói. Ah como eu queria ser super herói. Como eu queria ser diferente, como eu queria ser especial… E hoje eu sou e não sei se ainda quero.
Antes de qualquer coisa quero deixar claro que antes desse lance de super herói eu era um cara comum. Apartamento pequeno, alugado, um empreguinho medíocre, encontros mal sucedidos e alguns amigos que me metiam em mais confusão do que me tiravam dela. Eu era o típico fedelho saído do colégio, sem perspectiva de uma faculdade, de um bom emprego ou de uma garota bonita me esperando em casa com o jantar quentinho.
Faz poucas semanas que descobri que tenho esses poderes. Aconteceu quando estava voltando para casa. Tinha ido com os amigos num bar de strip e depois de deixar até a grana do taxi resolvi voltar para casa a pé. É o tipo de vacilo que só gente como eu comete. O caminho mais rápido era pegar a zona portuária e depois cortar caminho pela ponte do clube de campo. Estava atravessando a ponte, assolado pelo vento da costa e pela solidão dos meus pensamentos quando ouvi uma explosão perto do porto. Pensei que algum navio tinha explodido ou que algum vazamento num dos antigos canos de gás tinha finalmente cobrado o preço do descaso das autoridades, mas era algo diferente. Apressei o passo, mas não deu. Alguma coisa me pegou. Fui coberto por uma nuvem de fumaça meio arroxeada. Faltou ar, sei lá. Acordei em casa. Não sei como fiz para chegar lá.
Bom, mas independente disso eu tenho alguns poderes agora. Ganhei uma resistência razoável (coisas como ser acertado por um ônibus a toda e sair andando… ok, mancando!), uma regeneração esquisita (ei, levei menos de duas horas para me recuperar totalmente da pancada do ônibus) e achoo que estou bem mais forte do que qualquer um que eu conheço (embora a minha aparência continue a ser de um magrelo de 60kg enfiado num chassi de 1,80). Enfim, eu acho que agora tenho o que é preciso pra inventar um nome legal, uma roupa estranha e sair por aí resolvendo os problemas dos outros e saindo na capa do jornal. Eu devo ser o cara mais burro do mundo. Eu poderia ganhar horrores como o novo campeão mundial de MMA ou o novo astro do futebol. Mas eu preferi vestir uma lycra colorida por cima de tudo e sair combatendo o crime.
Você acha que ser um herói é divertido? Que é um jogo? O herói é uma pessoa que fica à margem. O herói não faz mais parte do corpo da humanidade. Ele está fora da curva. O herói anda no fio da navalha entro o céu e o inferno porque não se importa com sentimentalismos ou fantasmas da opinião pública. O herói segue um padrão elevado de verdade e justiça. Pelo menos é isso que eu repito para mim mesmo sempre que eu volto para casa depois de uma noite de patrulha, caçando traficantes de esquina e batedores de carteira.
Herói é apenas um título deixado, em geral, para a posteridade.
E se eu for o único? Eu acho que não. Eu já vi coisas esquisitas nesta vida. Mas e se eu for? Como estar em todos os lugares para salvar todos? Como decidir qual vida tem prioridade? Como decidir o que é mais importante? Depois que eu salvei aquele moleque rico do porsche em chamas perto do centro eu me senti muito bem. Mas quando eu soube que ele atropelou uma freira na semana seguinte, bêbado como um gambá, eu me senti um lixo. Se não fosse por mim a irmã Gertrudes continuaria a fazer doces para o orfanato da rua Rudd.
Mas, dia desses eu estava andando pela Washington Beach. Era fim de tarde e vi ao longe um cara que parecia estar dançando. Achei que ele estava louco e acabei me aproximando para ver. Ele pegava estrelas do mar que haviam encalhado na praia – e portanto faziam à festa das centenas de aves marinhas que se banqueteavam com elas – e as jogava de volta ao mar. “Por que você está fazendo isto?”, perguntei. “Você não vê?”, explicou o velho, que alegremente continuava a apanhar e jogar as estrelas ao mar, “A maré está vazando e o as aves estão se reunindo para o jantar… elas irão morrer se ficarem aqui na areia.” Espantei-me com a resposta e do velho e achei mesmo que ele estivesse louco. “Olha só coroa, existem milhares de estrelas-do-mar espalhadas pela praia. Você joga algumas poucas de volta ao oceano, mas a maioria vai se acabar de qualquer jeito. De que adianta tanto esforço, não vai fazer diferença?” O velho se abaixou e apanhou mais uma estrela na praia, sorriu para mim e disse: “Para esta aqui faz diferença….”, e jogou-a de volta ao mar. Naquele mesmo dia não consegui dormir.
Hoje, do alto dos prédios de Washington Beach eu vejo o velho catador de estrelas-do-mar. Vejo o seu trabalho, ao cada fim de cada tarde, quando o meu começa. Eu coloco a minha máscara e olho para os becos. Lá longe ouço um grito de mulher. Mergulho para noite escura, por sobre os letreiros de néon. A imprensa sensacionalista me chama de Estrela Negra, de Predador Noturno, de louco… Mas as pessoas que eu ajudo sabem como me chamar. Me chamam de herói.
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