Perth
Agora


— Há um pouco de história aqui. — “Chaos” comentou, encarando as poucas estrelas que podiam ser vistas no céu. As noites de Perth cegavam o céu. – A Austrália Ocidental só ganhou reconhecimento quando os exploradores descobriram ouro aqui. A própria rainha Vitória nos deu status de cidade em 1856, você sabia? Muita gente enriqueceu durante a corrida do ouro, mas os cristais vieram antes, não vieram?


— Por favor… — Choramingou a criatura, pateticamente pendurada pelos pés com o rosto virado para baixo. “Tão humano”, Chaos pensou, enquanto olhava seu corpo se mexer, com nada além de uma corda e alguns nós separando-o da frieza da calçada, dezenas de andares baixo.


Ele era o CEO de uma das mais antigas companhias de mineração de Perth. Da sua cobertura, sentado em uma ótima poltrona com seus filhos enquanto bebia os mais delicados vinhos, talvez ele tivesse se sentido poderoso. Talvez ele tivesse se sentido feliz. Talvez ele tivesse se sentido seguro. Não naquela noite.


— Cristais, senhor Carter. – Repetiu Chaos, fingindo receio de não ter sido compreendido. – Do tamanho de uma caneta, mas com os poderes de um deus. Bem difícil não ter sido notado por alguém tão inteligente quanto você.


— Eu… — O homem gaguejou brevemente, arrancando um suspiro entendiado de Chaos.


— Você. – Repetiu Chaos, dando um peteleco na corda, fazendo-a se balançar. – Você, você, você. É tudo sobre você, não é mesmo, senhor Carter? Me dê o que quero e eu não matarei sua mulher e seus infantes chorões, parece um bom negócio?


O homem respondeu baixinho, tendo suas palavras roubadas pelo vento que insistia em chacoalhá-lo. Chaos colocou a mão nas costas da orelha, virando a cabeça para o lado:


— Eu não estou ouvindo!


— No cofre! Atrás do Renoir! Um, sete, sete, cinco! – Berrou, com tudo o que tinha, em seu desespero. Ele não queria morrer. Não podia morrer.


Chaos sorriu: — Jellyfish.


Tendo sua assistência solicitada, Jellyfish voltou para a casa, ignorando a família apavorada de Ian Carter que chorava silenciosamente na sala. Talvez por causa das mordaças. Andou até o escritório pessoal do empresário, onde um belo quadro se achava perfeitamente colocado em uma das paredes. Le bal du moulin de la galette de Pierre-Auguste Renoir provavelmente valia 140 milhões de dólares. Jellyfish riu daquela informação quando rasgou a pintura em duas, revelando o cofre secreto.


Digitando a combinação indicada, pôde ver a caixa comum que o cofre abrigava. “Que idiota”, Jellyfish pensou enquanto levava a caixa. Ian Carter devia confiar muito em sua equipe de seguranças para colocar tão poucas barreiras entre os cristais e invasores. Uma pena. Os dezessete integrantes dela estavam mortos. E os cristais agora pertenciam a Chaos.


— Mestre. – Sinalizou, abrindo uma pequena fresta que iluminou o rosto de seu mestre com a luz roxa. Os dentes expostos em um sorriso brilhavam com o reflexo.


— Bom, parece que é a minha vez de cumprir o acordo. – Chaos ponderou, levando a mão ao queixo. – Exceto que… Desejar poder não é um pecado. Pelo contrário, é uma virtude. Humanos precisam dessa fé. Em algumas gerações de exposição, sua família também teria as dádivas dos neoseres. Oh, isso seria maravilhoso, não é mesmo? Eu nunca o puniria por desejar isso. Mas você, senhor Carter, você confundiu dinheiro com poder. Isso requer uma punição. – Ele se virou para apanhar a caixa. – Jellyfish.


Ian Carter gritou e implorou. Ofereceu tudo o que tinha de valioso como se ainda fosse dono de algo. Ele chorou e se debateu. Quando Jellyfish cortou a corda, ele nunca mais fez nada. E na mesma noite, sua família seria encontrada também sem vida. Fecham-se as cortinas. É o fim da tragédia. O público não se importaria.


Antananarivo – Madagascar
1 de Janeiro de 2009


— O que acontece agora? – Oliver perguntou para Thalia de um modo que só ela pudesse ouvir. Estavam todos reunidos no aeroporto, esperando seu avião estar pronto para recebê-los. Tinham cumprido a missão. Eram heróis.


— Você sabe o que acontece. – Thalia suspirou, olhando para o chão. – Revolta. Golpe. Revolução. Massacre. Quem vencer vai decidir do que chamar, mas as coisas vão mudar e não podemos interferir. É complicado.


— Não importa do que chamem, pessoas vão morrer. Pessoas que deveríamos salvar. Isso não é complicado. – Ele retrucou, sentindo a crescente irritação em seu interior.


— Pessoas vão morrer. – Ela concordou. – Pessoas sempre vão morrer. Aqui. Em Perth. Na Bulgária. Fazendo o que fizemos hoje, o mundo vai viver. É nossa responsabilidade pagar esse preço por quem não pode decidir.


— Isso não basta. – Respondeu desolado, torcendo, no fundo, para que uma resposta caísse no seu colo. Thalia percebeu aquilo e colocou a mão no seu ombro, respirando fundo pois sabia o que precisava pedir para ele e que seria de imediato recusada e odiada por aquilo, mas não tinha escolha.


Perth
Agora


Elizabeth estava tendo um dia infernal. Aqueles que estavam abaixo dela queriam respostas. Seus superiores queriam respostas. A imprensa queria respostas. O público queria respostas. Até ela queria respostas. Mas ninguém sabia explicar o que tinha acontecido no Brookfield Place.


Até onde ela sabia, um pequeno grupo extremista tinha organizado tudo online. Do dia para a noite, dois jovens de 17 anos tinham conseguido, aparentemente, 250 mil dólares australianos em equipamento militar e mercenários. Mais do que ela ganharia em três anos de trabalho. Além disso, ela precisava acreditar que uma outra pessoa apareceu para impedir aquilo. Sozinha.


— Precisa de uma pausa? – Robert perguntou, depositando um copo de café na mesa lotada dos depoimentos que Elizabeth estava lendo. – Talvez pra sempre?


— Você fez faculdade, né? – Ela perguntou, sem tirar os olhos do papel. — Qual a velocidade de uma bala?


— Se a arma for boa? Entre 222 e 277 metros por segundo. – Ele respondeu prontamente, embora não entendesse a comparação.


— Ou 559 milhas por hora, 820 pés por segundo, 485 nós, 0,25 quilômetro por segundo… — Enumerou aborrecida, fechando a pasta que estava lendo. – Então, me diga, como você desvia de um tiro direto?


— É impossível. – Concluiu calmamente, seguindo o raciocínio dela.


— Mas ele fez, não é? Esse “Pensador”. – Ela jogou um conjunto de fotos na mesa, deixando-as se espalharem. – Buracos de tiro no teto e nas paredes. Dificilmente alguma dessas balas foi nele. Todos esses depoimentos confirmam isso.


— As pessoas costumam imaginar essas coisas em momentos de tensão. É uma medida de proteção…


— Sem essa besteira de “alucinação coletiva”, por favor. – Interrompeu a detetive, irritada. – Não vou culpar as vítimas por um caso que não sei explicar.


— E o que a senhora sugere? – Ele perguntou, puxando uma cadeira.


— Duas garrafas de vodka. – Elizabeth suspirou. – O que você acha? Vou atrás de um louco fantasiado que pode desviar de balas.


Antananarivo – Madagascar
1 de Janeiro de 2009


Arno percebeu antes de todos o que estava por vir, mas não pôde evitar. Quando um Oliver enraivecido socou Thalia no queixo e se pôs a correr, todos se viraram para vê-lo fugindo em disparada dali.


— Peguem-no! – Thalia gritou, do chão, enquanto segurava o maxilar torcendo para que nada ali tivesse quebrado.


Todos saíram atrás do fugitivo, exceto Arno, que não demonstrava pressa ou agitação: — O que você disse a ele?


— O que você quer dizer? Eu não disse nada. – Ela protestou, indignada. – Vai deixá-lo fugir?


Arno suspirou, se levantando. Pegou uma bala do coldre e a arremessou, recheada de energia cinética: — Feito. O que você disse a ele? Oliver não a atacaria sem motivo.


— Você mal o conhece. – Thalia retrucou, amaldiçoando-o em pensamento.


— Você não quer fazer isso! – Sara tentou argumentar, errando por pouco um soco em Oliver, que se abaixou. Os supersentidos dele o ajudavam a se manter fora do alcance deles. Quando o projétil de Arno chegou, Oliver se escondeu atrás de Eddie no limite do alcance, para que Arno não tivesse tempo de mudar sua trajetória. A bala ricocheteou na sua pele maleável, caindo inofensiva no chão.


— Esperto. – Arno comentou dali, sem tirar os olhos desconfiados de Thalia. – Estou decidindo… Se você não quer me contar, ou se você não pode.


De longe, outra pessoa assista aquilo: — Brigando entre si. Patético e previsível. – Helena comentou.

— E o que faremos? – Um de seus companheiros perguntou. – Podemos aproveitar isso para resgatar nossos amigos.


— É… — Helena concordou. – Vão.

Notas finais
Enfim, terminei o arco de Antananarivo. Demorou alguns séculos a mais do que o previsto, mas ok. Estamos bem. Era importante estabelecer as relações do Oliver com a Pandora (e porque ele não gosta deles, embora ainda tenha muita coisa para acontecer entre eles :) ). Vamos pular mais ou menos um ano, então o Oliver do passado vai estar um pouco diferente desse Oliver que temos visto até agora, e um pouco mais próximo do Oliver atual. Espero que gostem. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.